Produção de algodão ressurge no Ceará

Produção de algodão ressurge no Ceará

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Produção de algodão ressurge no Ceará
Foto: Lidiane Ortiz

Apoio de assistência técnica rural e incentivo de grandes indústrias têxteis colocam o Ceará entre as mais promissoras regiões para a produção do algodão

O Ceará se prepara para colher uma área plantada de aproximadamente dois mil hectares de algodão a partir de julho, o equivalente ao dobro da safra anterior. O resultado é da segunda safra do Programa de Implantação da Cultura do Algodão no Ceará, que trouxe frutos que vão além dos capulhos de algodão. Traumatizados com o bicudo-do-algodão, que devastou plantações há mais de duas décadas, muitos produtores abandonaram a cultura. Hoje, com novas cultivares desenvolvidas pela pesquisa, manejo moderno, apoio de assistência técnica rural e incentivo de grandes empresas têxteis, o estado estabeleceu bases para a ampliação sustentável da produção da pluma nos próximos anos.

Estado abriga o terceiro maior polo têxtil do Brasil, mas tem de importar fibra de outros estados.

“Os resultados nos deixam muito otimistas. Já temos mais de dois mil hectares legalizados na Agência de Defesa Agropecuária do Ceará (Adagri) e empresas em processo de implantação para produzir a semente necessária para atingirmos 30 mil hectares de algodão no estado, nos próximos anos, gerando emprego e renda com a cultura mais resistente à seca entre as tradicionais, e agora com tecnologia de convivência com as pragas”, comemora o coordenador do programa, Euvaldo Bringel.

Garantia de compra

Outro ponto que favorece esse avanço é o fato de o estado abrigar um forte polo têxtil, o que reduz os custos de transporte. Segundo o Sindicato da Indústria de Fiação e Tecelagem em Geral no Estado (Sinditêxtil), o Ceará é o terceiro maior polo nacional, com um dos mais modernos parques tecnológicos do País, mão de obra com aptidões naturais, localização estratégica para as exportações e infraestrutura aeroportuária, que contribuem para o aumento de competitividade da cadeia têxtil cearense. Estão no estado grandes companhias do setor como Vicunha, Unitêxtil, TBM e Santana Textiles.

Somente esta última, com sede em Horizonte (CE), apresenta em suas plantas no Nordeste uma demanda de pluma equivalente a 41 mil hectares de algodão, calculando pela produtividade média de 2019, revela Daniel Olinda, diretor da Nova Agro, empresa agrícola parceira da Santana Textiles. “Atualmente, 98% da nossa pluma é comprada na Bahia. Ainda tem muita margem para os produtores investirem e a demanda existe”, afirma. A região produtora de algodão da Bahia fica a 1.600 km de Fortaleza e o transporte rodoviário encarece muito o produto.

Clima do Semiárido é propício à cultura, mas o trauma do bicudo-do-algodão fez a cotonicultura encolher no estado há mais de duas décadas.

Para estimular a expansão da produção no estado, a empresa fornece o serviço de colheita mecanizada e garante a compra de toda a produção a preço que hoje seria de R$ 2,15, o quilo do algodão em caroço. “Como esse é um investimento muito alto para quem está começando e a colheitadeira é específica para a cultura, nós disponibilizamos esse serviço”, divulga o diretor.

Segundo ele, nesta safra já estão cadastrados mais de 1.800 hectares com garantia de compra do algodão e parte dessa área será de colheita mecanizada. Atualmente, a produção de algodão no Ceará se concentra em três polos principais: Cariri, Sertão Central e Chapada do Apodi.

Um terço do custo do Cerrado

O pesquisador da Embrapa Fábio Aquino de Albuquerque, que trabalha no Campo Experimental em Barbalha (CE), observa melhor desempenho do algodão na seca comparado a outras culturas. “Desde 2019, nós começamos a produzir em uma nova base tecnológica adaptada à região. Ainda temos ajustes técnicos a fazer no sistema, mas isso é algo que ocorre em todo o País”, observa. “Com a tecnologia que dispomos hoje, o Ceará tem todas as condições de ter um algodão de alta produtividade e qualidade, com um custo de produção equivalente entre 30% e 50% quando comparado ao algodão hoje produzido no Cerrado. Nestas duas safras, nós observamos que com pouca chuva, o algodão se sobressai às demais culturas”, complementa.

Custo de produção no Semiárido é menos de um terço do registrado no Cerrado.

O analista da Embrapa Gildo Araújo, que trabalha no mesmo município, avalia que o estado, assim como praticamente todo o Semiárido, tem todas as condições de produzir uma fibra de excelente qualidade com resistência, finura e comprimento desejados pela indústria. “Acredito que esse é o grande diferencial. Precisamos nos adequar para sermos competitivos, isso requer muito profissionalismo de todas as partes. Precisamos avançar em todas as áreas, pesquisa, assistência técnica, manejo adequado para a região, investimento em maquinário agrícola, entre outros fatores. O algodão de hoje requer um manejo diferente do praticado no passado, se o agricultor acreditar e seguir as orientações técnicas, temos um cenário promissor pela frente”, declara.

O chefe-geral da Embrapa Algodão, Liv Soares Severino, avalia que o algodão produzido no Ceará é capaz de se destacar pela qualidade. “A indústria têxtil local percebeu a alta qualidade do produto e isso aumentou muito o interesse pelo algodão cearense. Isso foi obtido pelo uso de variedades modernas, como a BRS 433FL B2RF, da Embrapa, que foi selecionada por essas características. E o clima da região é favorável à cultura, pois o algodoeiro se desenvolve melhor em ambiente de alta luminosidade como o sertão cearense”, conta.

O agrônomo Wilson Ferreira, coordenador técnico da empresa Terra Fértil, sediada em Limoeiro do Norte (CE), conta que em algumas áreas do município o algodão chegou a uma produtividade de cinco mil quilos por hectare, o que se equipara à produtividade do Cerrado, com no máximo seis aplicações de inseticidas. “Mas para isso é preciso um planejamento bem feito. As cultivares disponíveis no mercado são muito boas, o que falta é um bom manejo nutricional e manejo de pragas”, orienta.

Segundo ele, é possível obter boa rentabilidade com o cultivo do algodão em sequeiro. “Aqui temos feito o máximo para aproveitar todo o potencial dos materiais, com tudo cultivado em sequeiro. Para ter sucesso na cultura, é fundamental aproveitar a janela de plantio para que a época de maior necessidade de água coincida com as chuvas”, observa. “Com um custo de produção de R$ 4 mil, é possível produzir quatro mil quilos de algodão por hectare, o que dá uma receita bruta de quase R$ 9 mil”, calcula.

O renascimento de uma indústria após o bicudo

Para Albuquerque, uma das principais barreiras para a expansão da cultura é o medo do bicudo-do-algodoeiro, principal praga da cultura e um dos responsáveis pelo declínio da cotonicultura no estado. “A primeira dificuldade que enfrentamos na implantação do programa era fazer com que os produtores voltassem a acreditar que o algodão é uma cultura rentável. O bicudo ainda é um tabu muito forte na região. Muitos questionam: ‘Mas e o bicudo deixou de ser praga?’ A resposta é não. O bicudo ainda é uma praga importante do algodão, mas o conhecimento que acumulamos e a tecnologia usada hoje permite produzir algodão de qualidade mesmo com a presença do inseto. Para isso, é preciso que o conhecimento técnico-científico chegue ao produtor”, orienta.

Um dos pioneiros na retomada do cultivo do algodão no Ceará foi o produtor Marcos Landim, do município de Missão Velha, na região do Cariri cearense. Ele lembra que a região já foi grande produtora de algodão. “Meu avô tinha fábricas de algodão, só na minha cidade (Missão Velha, CE), ele tinha cinco indústrias, quatro de algodão e uma de óleo e torta (resíduos). Veio o bicudo e destruiu tudo isso. Quando o bicudo chegou, nós não tínhamos tecnologia para combater e perdemos a luta contra o inseto. Fazia uns 30 anos que não produzíamos algodão”, conta. “Hoje em dia, nós temos tecnologia para prever a quantidade de bicudo que haverá por área e quando ele vai atacar”, completa.

Com o apoio do programa, Landim retomou o cultivo em uma área experimental de 30 hectares e na safra atual foi ampliada para 80 hectares. “No princípio, os produtores andavam desacreditados da cultura. Eu plantei com a orientação da Embrapa e eles foram vendo os resultados e se animando”, relata.

O produtor José Morais Filho, do município de Milagres, também no Cariri cearense, cultivou 50 hectares de algodão na última safra e ficou satisfeito com os resultados. Em 2020, ele triplicou a plantação. Morais também já havia cultivado algodão há mais de 20 anos e deixou de cultivar a pluma por causa do bicudo.

“Nós plantamos no ano passado 50 hectares, com uma produtividade média de 2.500 kg/ha, utilizando semente transgênica com tolerância ao glifosato e resistente a lagartas. Esse foi um fator que nos levou a voltar a plantar algodão. Além disso, aqui nós temos muitos veranicos e o algodão é muito mais resistente do que o milho”, conta.

Morais acredita que se todos os produtores cumprirem o vazio sanitário, que no Ceará vai de 1º de outubro a 31 de dezembro, o bicudo não será capaz de inviabilizar a lavoura. “Quando terminou a colheita, nós passamos a roçadeira, em seguida colocamos o gado para aproveitar os restos culturais. Isso fez com que eu conseguisse manter a área isenta de plantas vivas até janeiro, quando entramos com a parte mecânica e erradicamos o resto”, relata. “A Adagri na nossa região faz três fiscalizações em média: uma quando cadastramos a área, uma no decorrer do ciclo e a terceira para verificar se estamos cumprindo o vazio sanitário”, acrescenta.

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