Qual a renda mensal de uma fazenda de 100 alqueires arrendada para cana?

Essa é a renda mensal estimada de quem tem 100 alqueires arrendados para a cultura da cana-de-açúcar no interior de São Paulo, na região de Catanduva; cálculo de Felippe Stelutti mostra também quanto a queda do ATR retirou do bolso do proprietário

Ter 100 alqueires de terra arrendados para cana-de-açúcar pode representar uma renda mensal superior à de grande parte das atividades econômicas. Mas quanto, exatamente, uma propriedade desse tamanho consegue gerar sem que o dono precise assumir diretamente os custos e os riscos de produzir a cana?

Quem fez essa conta foi o engenheiro agrônomo e produtor rural Felippe Stelutti, que vem ganhando repercussão ao analisar a situação dos fornecedores de cana e o comportamento do preço do ATR. Em um novo vídeo publicado nas redes sociais, Stelutti utilizou como referência os valores praticados na região de Catanduva, interior de São Paulo, para mostrar quanto poderia receber o proprietário de uma área de 100 alqueires arrendada para a cultura.

E os números chamam atenção: pela conta apresentada por ele, essa propriedade estaria gerando atualmente cerca de R$ 57,5 mil por mês. Quando o ATR estava próximo de R$ 1,20, entretanto, a mesma área proporcionava uma renda estimada em R$ 79,3 mil mensais.

A diferença é de aproximadamente R$ 21,8 mil todos os meses. “100 alqueires arrendados para a cultura da cana-de-açúcar. Quanto dá isso por mês?”, questiona Felippe ao iniciar sua análise.

A conta dos 100 alqueires

Para chegar ao resultado, Stelutti adotou como referência um arrendamento de aproximadamente 65 toneladas de cana por alqueire por ano, número que, segundo ele, gira em torno do praticado na região de Catanduva.

Quando o ATR estava em aproximadamente R$ 1,20, o proprietário dos 100 alqueires recebia, segundo os cálculos apresentados por Felippe, aproximadamente R$ 79.278 por mês. “Eu considero, pelo menos para mim, uma excelente renda”, comenta o engenheiro agrônomo.

O problema apareceu conforme o ATR perdeu valor. Atualmente, Stelutti utiliza em sua simulação o acumulado de R$ 0,87 por quilo de ATR, mesmo patamar abordado anteriormente pelo CompreRural após a divulgação dos números de julho. Naquele momento, o ATR mensal havia recuado para R$ 0,85 e o acumulado para R$ 0,87.

Com o indicador nesse nível, o cálculo apresentado pelo produtor aponta uma renda mensal de aproximadamente R$ 57.476 para os mesmos 100 alqueires.

Portanto, a queda de R$ 1,20 para R$ 0,87 teria reduzido a entrada mensal em cerca de R$ 21.800 — aproximadamente R$ 261 mil em um ano, caso essa diferença fosse mantida durante 12 meses.

Afinal, o que é ATR?

O ATR significa Açúcar Total Recuperável e funciona como uma das principais referências econômicas para a remuneração da cana-de-açúcar. Em termos simples, representa a quantidade de açúcares recuperáveis contida na matéria-prima e serve de base para calcular quanto a cana entregue à indústria vale.

Por isso, quando o valor do quilo do ATR cai, não é apenas o fornecedor que produz diretamente que sente os efeitos. Proprietários com contratos de arrendamento ou parceria vinculados à produção e à remuneração da cana também podem receber menos.

É justamente esse movimento que Felippe Stelutti vem acompanhando. Conforme já mostrou o CompreRural, em julho o indicador mensal recuou para R$ 0,85/kg, enquanto o acumulado chegou a R$ 0,87/kg.

R$ 57 mil por mês ainda é uma renda alta?

Felippe faz questão de colocar os números em perspectiva. Mesmo depois de perder mais de R$ 20 mil mensais, um proprietário com 100 alqueires nas condições utilizadas na simulação ainda receberia quase R$ 57,5 mil por mês. “Para mim, Felippe Stelutti, seria uma renda ainda extremamente boa. Mas, para quem recebe, quando deixa de cair R$ 20 mil, com certeza o proprietário não fica nada feliz. Ele fica muito insatisfeito” – ressalta Felippe.

A discussão, portanto, não é simplesmente se R$ 57 mil representam ou não uma boa renda. Para quem organizou patrimônio, despesas familiares, investimentos e compromissos financeiros considerando outro patamar de receita, uma redução próxima de 27% muda substancialmente o fluxo de caixa.

E existe uma diferença fundamental: renda de arrendamento não pode ser confundida diretamente com lucro de uma lavoura própria. No arrendamento, o proprietário cede o uso da área conforme as condições contratuais. Na produção própria, faturamento, custos de insumos, máquinas, mão de obra, financiamento, risco climático e risco de preço ficam com quem explora a atividade.

O problema é muito maior para quem possui 2 ou 3 alqueires

É justamente nesse ponto que a análise ganha uma dimensão social importante. Se o proprietário de 100 alqueires perde uma parcela relevante da renda, mas ainda mantém um fluxo mensal expressivo, a realidade pode ser completamente diferente para famílias que possuem pequenas áreas.

Felippe chama atenção especialmente para quem arrenda sítios de dois, três ou cinco alqueires e utiliza esse dinheiro para complementar — ou até sustentar — o orçamento familiar. “Quem está sofrendo mesmo é o pequeno produtor que arrenda o seu pequeno sítio de dois ou três alqueires. Esse cara, infelizmente, está sofrendo” – lembra o engenheiro agrônomo.

Mantendo apenas a proporcionalidade da conta apresentada por Stelutti para os 100 alqueires, 5 alqueires equivaleriam a algo próximo de R$ 2.874 mensais; 3 alqueires, aproximadamente R$ 1.724; e 2 alqueires, cerca de R$ 1.150 por mês. Trata-se somente de uma extrapolação matemática da simulação — contratos reais podem apresentar condições bastante diferentes.

Cana vive um momento de margens pressionadas

O pano de fundo dessa discussão é um setor sucroenergético atravessando um período mais desafiador. Em sua análise anterior, Stelutti apontou que o açúcar internacional enfraquecido e a elevada disponibilidade de etanol vinham pressionando o ATR.

Essa situação ajuda a explicar por que o arrendamento pode ser atraente para proprietários que preferem previsibilidade e menor exposição operacional, mas também mostra que essa renda não é necessariamente imune aos ciclos das commodities.

O próprio Felippe vem insistindo nesse ponto em suas análises: momentos de preços elevados não devem ser tratados como permanentes. Açúcar, etanol e, consequentemente, a remuneração da cana atravessam ciclos de alta e baixa.

E se fossem soja, milho ou pecuária: compensaria mais?

Aqui a comparação precisa ser feita com bastante cuidado. Não existe uma resposta nacional dizendo que cana, soja, milho ou pecuária sempre remuneram melhor a terra. O resultado depende de produtividade, região, preço recebido, fertilidade do solo, custos, escala, logística, sistema produtivo e, sobretudo, do risco que o proprietário está disposto a assumir.

Na soja e no milho, por exemplo, a produtividade física por hectare pode ser elevada, mas o proprietário que decide produzir assume despesas significativas com sementes, fertilizantes, defensivos, máquinas, operações e crédito. A própria CNA já projetava pressão sobre a margem bruta da soja na safra 2025/26, mostrando como uma grande produção não necessariamente significa grande lucro.

Na pecuária de corte, a amplitude é ainda maior. Dados do projeto Campo Futuro mostram propriedades de recria e engorda com diferenças expressivas tanto na produção de arrobas quanto na margem bruta por hectare. Em uma análise, os sistemas avaliados ficaram aproximadamente entre 5 e 8 arrobas produzidas por hectare, com margens brutas variando de praticamente zero a mais de R$ 1,3 mil por hectare, evidenciando o peso da eficiência produtiva.

Portanto, comparar os R$ 57,5 mil mensais do arrendamento de 100 alqueires de cana diretamente com o faturamento de soja, milho ou pecuária seria enganoso. Uma coisa é receber pela cessão da terra; outra é investir capital, produzir e assumir integralmente o risco da atividade.

A conta apresentada por Felippe Stelutti, porém, deixa uma pergunta interessante para qualquer proprietário rural: receber cerca de R$ 57 mil por mês para arrendar 100 alqueires para cana, mesmo depois da forte queda do ATR, ainda compensa — ou seria mais rentável assumir o risco e explorar essa terra com soja, milho ou pecuária?

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