Reposição a R$ 4.700,00 e preço não vai cair, entenda!

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Foto: Fazenda 3R

Maior remuneração se fundamenta cada vez mais numa pecuária intensiva e na busca de animais de melhor genética para encurtar o ciclo da terminação.

A grosso modo, o ciclo da pecuária segue o mesmo roteiro no Brasil e em qualquer lugar no mundo onde há produção de bovinos: arroba do boi gordo cai; maior abate de fêmeas; queda no número de vacas e bezerros; queda no número de boi gordo; arroba do boi sobe; bezerro se valoriza; produtor retém mais fêmeas; produção de bezerros e boi gordo sobem; conforme alta da produção, o preço da arroba cai, e aí recomeça o ciclo. O cenário dado neste momento é que, em 2022 e 2023, o ciclo da pecuária começará a mudar, com a normalidade da cria e a maior oferta de bezerros e mais animais para o abate.

Se a tendência é de mais bezerros, de agora em diante, o que se verá no mercado serão animais mais baratos? Tem produtor achando que não deve ser bem assim. Confira agora!

“Muitos estão prevendo uma queda de preços, mas eu penso diferente. Mesmo com a volta da bezerrada, a valorização deve continuar, porque os produtores da terminação vão querer intensificar mais a atividade, tentando encurtar o ciclo de engorda”, diz o médico veterinário, Ricardo Arruda, da fazenda Santa Helena, no município de Poconé (MT).

Parece loucura? Se a história se desenhar como ela tem sido feita, pelos menos nas duas últimas décadas, Arruda não está tão errado assim. Analisando a série histórica do Indicador do Bezerro Esalq/BM&FBovespa (Mato Grosso do Sul), após cada pico de preços, o preço cai um pouco, se estabiliza, mas jamais retrocede aos patamares anteriores.

Foi assim no pico de valorização do animal em junho de 2008, quando o bezerro atingiu cerca de R$ 760. Também em maio de 2015, em R$ 1.450. E agora, em janeiro de 2021, ultrapassando R$ 2.800. Nessa quarta-feira (10/2), o indicador fechou em R$ 2.739,93.

“Acho o preço interessantíssimo para a cria. Está muito caro? Se compararmos com a alta de outros insumos, não. O milho, por exemplo, teve muito mais alta que o bezerro. O arame, outro item importante, também teve uma valorização absurda”, diz Arruda.

Recorde na batida do martelo

O faturamento total chegou a R$ 1,6 milhão com a venda de 485 bovinos de corte para cria, recria e engorda de várias raças e classificações, registrando média geral de R$ 3.474. Já o lote de maior cotação foi arrematado ao valor de R$ 122.166, composto por 20 garrotes da raça Nelore (R$ 6.108/cabeça).

Segundo os negócios informados no aplicativo da Agrobrazil, pecuarista de Bataguassu/MS está comercializando o bezerro por R$ 2.800,00/cab, animais de 175kg, ou seja, o animal está sendo cotado a R$ 16/kg. Sendo assim, o valor da arroba desse animal é de R$ 480,00/@.

Especialização

Para Ricardo e o pai, Gilson Arruda, que tocam a propriedade com foco na cria e na genética nelore, com cerca de 2 mil hectares, por trás da cria há um nobre trabalho, o qual reúne tecnologias de nutrição, sanidade e genética, e que deve ser valorizado. Os produtores têm se tornado especialistas na produção de bezerros cada vez melhores, no maior Estado com rebanho bovino, com 31 milhões de animais, e, consequentemente, o maior polo de produção de bezerros no País.

O futuro pode ser até mais próspero, porque, cada vez mais, a atividade passará a ser mais especializada com uma divisão bem clara das atividades de cria, recria e engorda.

“Eu, por exemplo, fazia o ciclo completo. Deixei de lado a terminação. Hoje, o foco é na cria e na genética. Tenho um pouco de recria, mas devo crescer muito mais na área da cria daqui para frente”, diz Arruda.

Atualmente, seu gado comercial é sustentado por um rebanho de mil vacas, o que gerará uma safra de cerca de 800 bezerros este ano. Em 10 anos, a projeção é que o rebanho cresça 10% ocupando a mesma área.

O caminho é a profissionalização

Ter tecnologia e gestão afinada, na palma da mão, será o diferencial para os produtores. É justamente o que manterá os pecuaristas na atividade, afirma o médico veterinário Francisco de Sales Manzi, diretor-técnico da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat).

“Muitos estudos alertam: só ficará na atividade os pecuaristas que se profissionalizarem, com adoção de tecnologia e tiverem total controle das contas, garantindo melhor renda”, diz Manzi.

Problemas de preços de insumos e de matéria-prima, como os animais de reposição, sempre estarão na dinâmica do mercado. Por isso, a entidade tem vários programas para o aprimoramento de produtores nas áreas de planejamento e gestão estratégica, para que ele possa proteger seu negócio e continuar na atividade.

Há programas como o Acricorte, Acrimat em Ação, Na Media, e um específico para a cria, o Produção Sustentável de Bezerro, que é uma parceria entre a Acrimat, o Grupo Carrefour e a Iniciativa para o Comércio Sustentável (IDH). Todos fomentam uma pecuária mais profissional no Estado.

Tempestade perfeita

Mas somente o ciclo pecuário foi suficiente para desestabilizar o maior produtor de bezerros do País? Para Manzi, esse fator é apenas uma parte da resposta.

“Para dizer bem a verdade, uma tempestade perfeita atingiu em cheio a pecuária mato-grossense”, diz Manzi.

A expressão inglesa “tempestade perfeita” se encaixa como uma luva para explicar a atual falta de gado de reposição por todo o País, principalmente em Mato Grosso. A expressão significa uma situação não favorável, que é drasticamente agravada por uma combinação de demais fatores, levando a um cenário de desastre. Ela exemplifica bem a situação da pecuária, como disse Manzi.

O ciclo pecuário foi o primeiro fator: a estagnação dos preços da arroba. De 2015, até meados de agosto de 2019, o Indicador do Boi Gordo Cepea/B3 flutuava na linha de preços de R$ 150. Foram cerca de 4 anos de preços estagnados. Para Manzi, isso levou a um maior abate de fêmeas. Os demais eventos que se somaram foram a desvalorização do real perante o dólar, estimulando as exportações; a peste suína africana, fazendo a China demandar mais carne bovina; e a própria pandemia do novo coronavírus.

Pelo cenário atual, para Manzi, o pior já passou e os estragos da tormenta vão, aos poucos, sendo consertados. “Diante de todas essas adversidades, podemos afirmar que carne não faltou na gôndola dos supermercados. O produto ficou mais caro”, diz o dirigente da Acrimat. Mas essa relação de compra só vai melhorar ao sabor do próprio mercado. E claro, com um bezerro valorizado, acredita ele.

Compre Rural com informações do Portal DBO

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