Calor intenso e falta de chuvas comprometem pastagens e lavouras destinadas à alimentação animal, pressionam a produção de leite e já levam produtores a reduzir rebanhos em importantes países do bloco.
A seca que se espalhou por importantes regiões produtoras da Europa deixou de ser apenas um problema das lavouras e passou a atingir diretamente a pecuária. Produtores estão recorrendo, ainda em pleno verão europeu, aos estoques de forragem que deveriam alimentar os animais durante o outono e o inverno, enquanto pastagens perdem capacidade de suporte e culturas utilizadas na alimentação dos rebanhos acumulam perdas.
O quadro é particularmente delicado porque reúne vários problemas ao mesmo tempo: calor intenso, déficit hídrico, incêndios, menor produção de forragem, pressão sobre milho e girassol e aumento da necessidade de suplementação. Na prática, o pecuarista passa a consumir hoje uma reserva que fará falta justamente no período em que o pasto naturalmente oferece menos alimento.
Reportagem publicada pela Euractiv nesta quinta-feira (13) mostra que produtores de diferentes países já adotam medidas emergenciais, incluindo abertura antecipada dos estoques de inverno, procura por alimentos alternativos e até redução dos rebanhos.
Os dados oficiais ajudam a dimensionar o problema. O Observatório Europeu da Seca, ligado ao Joint Research Centre (JRC) da Comissão Europeia, já apontava no fim de junho condições críticas e agravamento da seca no centro-oeste do continente, com deterioração em países importantes para a agropecuária, entre eles França, Alemanha, Áustria, Hungria e Romênia.
O problema começa no pasto, mas chega rapidamente ao bolso
Para a pecuária, uma seca dessa magnitude produz um efeito em cadeia.
Primeiro cai a disponibilidade de pastagem. Depois, o produtor precisa aumentar a suplementação. Se milho, cereais, palha, silagem e outros ingredientes também tiveram sua produção prejudicada pelo clima, a oferta de alimento diminui justamente quando a demanda dos pecuaristas aumenta.
É essa combinação que torna o cenário atual mais preocupante.
O JRC informou no fim de julho que sucessivas ondas de calor, combinadas à baixa precipitação, reduziram a umidade do solo em grandes áreas do oeste e centro da Europa. As projeções de produtividade foram revisadas para baixo em todas as principais culturas de primavera e verão avaliadas, com reduções particularmente importantes, de 6% a 7%, para milho em grão e girassol.
Isso significa que a seca não está somente retirando capim dos animais. Ela também atinge parte da matéria-prima que poderia substituir esse pasto.
A própria Comissão Europeia reconhece que temperaturas elevadas afetam diretamente os animais: reduzem ingestão de alimento e eficiência produtiva, alteram o período de pastejo e elevam a necessidade de água. Em situações extremas, o estresse térmico também pode aumentar a mortalidade.
França vira um dos principais retratos da crise
A França oferece uma das imagens mais claras do que está acontecendo.
Segundo informações reunidas pela Euractiv, a Confédération Paysanne estima perdas de estoques de forragem entre 30% e 60%, dependendo da região. Com menos pastagem disponível, produtores começaram a utilizar alimentos que deveriam permanecer armazenados para os próximos meses.
O problema já vinha sendo relatado pelo setor leiteiro francês em julho. Produtores afirmavam que algumas propriedades haviam começado a consumir as reservas destinadas ao inverno, enquanto as perdas estimadas no milho para silagem chegavam a aproximadamente 30% em determinadas avaliações.
A conta se torna especialmente pesada na atividade leiteira.
Segundo Yohann Barbe, presidente da Federação Nacional dos Produtores de Leite da França (FNPL), ouvido pela Euractiv, o comprometimento das pastagens já teria contribuído para uma redução de aproximadamente 3% a 4% na produção de leite, justamente porque parte relevante da produção francesa durante o verão depende do pastejo.
O temor agora é atravessar o restante do ano consumindo estoques em ritmo elevado e chegar ao inverno sem alimento suficiente.
Há ainda outro agravante: a França vive uma crise hídrica que ultrapassa os limites das propriedades rurais. Nesta quinta-feira, o Le Monde informou que 92 departamentos franceses estavam sujeitos a restrições de água, enquanto dezenas de milhares de pessoas já haviam enfrentado cortes no abastecimento.
Falta de alimento pode acelerar redução dos rebanhos
Quando comprar ração fica caro e produzir alimento dentro da propriedade se torna difícil, uma das últimas alternativas do pecuarista é diminuir a quantidade de animais.
E esse movimento já começa a aparecer.
Produtores franceses estão antecipando descartes e enviando mais bovinos para abate diante do receio de não terem alimentação suficiente nos próximos meses. O problema é que a solução financeira de curto prazo pode criar outra consequência: uma redução estrutural do rebanho europeu.
Os números do Eurostat mostram que o setor já entrava no segundo semestre de 2026 com perspectiva de menor produção pecuária. A produção bruta de bovinos da União Europeia foi projetada em 11,4 milhões de cabeças no segundo semestre, queda de 4,2% em comparação com igual período de 2025. Para ovinos e caprinos, as projeções indicavam retrações ainda maiores.
A seca, portanto, encontra uma pecuária que já enfrentava tendência de redução da oferta.
No curto prazo, o envio adicional de animais aos frigoríficos pode aumentar a disponibilidade de carne em determinadas regiões e pressionar preços. Mas o efeito posterior pode ser exatamente o contrário: menos matrizes e menor rebanho significam menor capacidade de produção futura.
Esse é um dos pontos mais importantes para acompanhar nos próximos meses.
Espanha também sente falta de pastagem e alimento
A pressão não está limitada à França.
Na Espanha, pecuaristas enfrentam pastagens deterioradas e aumento dos custos da alimentação. Juan Luis Delgado, representante da organização agrícola ASAJA, relatou à Euractiv que temperaturas entre 32°C e 35°C já eram registradas em maio.
Mesmo após um inverno relativamente favorável em algumas áreas, a chegada precoce do calor acelerou a secagem das pastagens e reduziu a disponibilidade de água.
Ao mesmo tempo, problemas nas colheitas de cereais e palha diminuíram a oferta de ingredientes importantes para os rebanhos.
O resultado é conhecido pelo produtor rural brasileiro: quando o pasto desaparece e a suplementação encarece simultaneamente, a margem da atividade pode se deteriorar muito rapidamente.
Alemanha flexibiliza regras; Irlanda calcula quanto alimento terá no inverno
A dimensão da escassez também começa a produzir respostas governamentais.
Na Baviera, autoridades flexibilizaram temporariamente regras aplicadas à produção orgânica, permitindo que propriedades afetadas pelas condições consideradas excepcionais recorram à compra de determinados alimentos convencionais.
Na Irlanda, a estratégia é tentar descobrir antecipadamente o tamanho do problema. O governo solicitou aos produtores que façam um “orçamento de forragem”, calculando estoques disponíveis e necessidades dos animais para os próximos meses, antes de decidir se novas medidas serão necessárias.
São respostas diferentes para a mesma pergunta: haverá comida suficiente para atravessar o inverno?
A seca europeia também interessa ao pecuarista brasileiro
À primeira vista, uma crise de pastagens na França, Espanha ou Alemanha parece distante da realidade de uma fazenda brasileira. Comercialmente, porém, não é tão simples.
A União Europeia é um grande mercado consumidor de carnes e lácteos e possui uma pecuária bovina relevante. Uma redução prolongada do rebanho pode modificar a disponibilidade doméstica de carne, a necessidade de importações e a dinâmica dos preços no médio prazo.
A Comissão Europeia já projeta queda da produção nos setores de ruminantes em 2026, embora mantenha perspectiva mais positiva para leite, suínos e aves no conjunto do ano. O bloco também enfrenta custos elevados de energia e fertilizantes, que pressionam as margens dos produtores.
Para o Brasil, portanto, o ponto mais relevante não é imaginar uma abertura imediata de mercado causada pela seca, mas acompanhar a duração do processo.
Se a escassez de alimento provocar uma liquidação mais intensa de matrizes e uma redução duradoura do rebanho europeu, o impacto comercial poderá aparecer mais adiante, quando a oferta de animais para abate diminuir.
Nesse cenário, grandes exportadores de proteína animal ganham importância adicional no equilíbrio internacional de oferta.
Uma crise que expõe a vulnerabilidade da pecuária baseada em reservas
O episódio europeu também deixa uma lição conhecida pelo produtor brasileiro.
Uma propriedade pode suportar algumas semanas de seca utilizando estoque de silagem, feno ou outro volumoso. O problema surge quando o alimento reservado para uma estação crítica começa a ser consumido meses antes.
A partir desse momento, o produtor não enfrenta somente a seca presente: ele antecipa uma possível escassez futura.
É justamente esse risco que preocupa agora parte da Europa.
O problema também deixou de ser visto como episódio isolado. Em junho, a própria Comissão Europeia destacou a necessidade de aumentar a resiliência hídrica e lembrou que a desertificação já afeta 13 países do bloco, enquanto a degradação dos solos provoca perdas estimadas em aproximadamente € 50 bilhões por ano.
Para Luc Vernet, secretário-geral do think tank Farm Europe, ouvido pela Euractiv, a resposta europeia terá de combinar medidas emergenciais e investimentos estruturais capazes de preparar a agricultura para secas recorrentes.
A grande questão, portanto, não termina quando voltar a chover.
Se o verão de 2026 provocar uma redução expressiva dos estoques de forragem e acelerar o descarte de animais, os efeitos da seca poderão continuar aparecendo no mercado pecuário europeu durante o inverno e avançar sobre 2027.
Para o Brasil, acompanhar esse movimento será importante não apenas pela possibilidade de mudanças no comércio internacional de carne, mas porque a crise europeia reforça uma discussão que também ganha espaço dentro das fazendas brasileiras: em um cenário climático mais irregular, estoque estratégico de alimento, disponibilidade de água e planejamento forrageiro deixam de ser apenas ferramentas de produtividade e passam a funcionar como proteção econômica do rebanho.
Reportagem elaborada com informações da Euractiv e dados oficiais do Joint Research Centre/European Drought Observatory, Comissão Europeia e Eurostat.
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