Super El Niño coloca algumas das maiores potências agrícolas do mundo em alerta

Brasil, Argentina, Paraguai e outros grandes produtores agrícolas enfrentam cenários opostos de seca e excesso de chuva enquanto o fenômeno ganha força no Pacífico.

O avanço do Super El Niño começa a entrar no planejamento de produtores, autoridades e agentes do mercado agrícola da América Latina. O motivo não é apenas a intensidade projetada do fenômeno, mas principalmente o fato de que seus efeitos podem atingir de maneiras completamente diferentes alguns dos maiores fornecedores de alimentos do mundo.

Brasil, Argentina, Paraguai, Chile e Peru estão entre os países que podem sentir os reflexos da mudança no comportamento das chuvas e das temperaturas. Enquanto algumas regiões poderão enfrentar falta de água, outras estarão sujeitas a precipitações excessivas, alagamentos e dificuldades para realizar operações agrícolas. O cenário ganha relevância justamente porque a América do Sul ocupa posição central no comércio internacional de soja, milho, trigo, carnes, pescado e outras commodities.

Super El Niño deve provocar contrastes no clima brasileiro

No Brasil, a principal preocupação é a possibilidade de aprofundamento das diferenças entre as regiões.

Projeções meteorológicas indicam maior risco de condições secas em áreas do Norte e do Nordeste, enquanto o Sul tende a enfrentar períodos mais úmidos. O Centro-Oeste também poderá registrar calor intenso e menor disponibilidade de umidade em determinados momentos.

Para o produtor rural, essas mudanças interferem diretamente no campo. A redução das chuvas pode limitar o desenvolvimento das pastagens, pressionar reservatórios e comprometer culturas que dependem de uma distribuição regular de água.

No Sul, porém, o desafio pode ser exatamente o contrário.

Volumes elevados de precipitação deixam o solo saturado, aumentam o risco de doenças nas plantas e podem impedir a entrada de máquinas nas lavouras.

O impacto potencial é ainda mais relevante diante do tamanho da produção brasileira. A Companhia Nacional de Abastecimento projeta uma safra de aproximadamente 360 milhões de toneladas de grãos no ciclo 2025/26, mostrando a dimensão do que está em jogo caso os extremos climáticos atinjam importantes regiões produtoras.

Excesso de chuva também preocupa o campo

Quando se fala em El Niño, a chegada de mais chuva ao Sul do continente nem sempre representa uma notícia negativa.

Argentina, Paraguai, Uruguai e parte do Sul brasileiro podem se beneficiar de uma maior disponibilidade de água no solo, principalmente quando as chuvas ocorrem durante fases importantes do milho, da soja e do trigo.

O problema começa quando os volumes ultrapassam a capacidade de absorção das lavouras.

Nessas situações, áreas produtivas podem permanecer encharcadas durante vários dias, aumentando a pressão de fungos, prejudicando o desenvolvimento das raízes e atrasando atividades essenciais, como pulverizações, aplicação de fertilizantes e colheita.

Outro ponto de atenção está fora da porteira.

Estradas rurais deterioradas pelo excesso de chuva podem limitar o transporte de insumos e dificultar o escoamento da produção, aumentando custos justamente durante períodos de maior movimentação agrícola.

Argentina pode encontrar alívio, mas cenário exige cautela

A Argentina é um dos países que pode encontrar algum benefício em um regime mais úmido.

Depois de temporadas marcadas por problemas relacionados à seca, a presença de água no solo pode contribuir para o desenvolvimento das culturas em importantes regiões agrícolas.

Isso, porém, não significa que um El Niño intenso seja necessariamente positivo.

O resultado dependerá de fatores como época das chuvas, duração dos eventos, localização das tempestades e capacidade de drenagem das áreas produtivas.

Uma sequência equilibrada de precipitações pode favorecer a lavoura. Chuvas concentradas e persistentes, por outro lado, podem transformar esse benefício em perda operacional.

Super El Niño ameaça ampliar seca no Norte brasileiro

Na Amazônia, a preocupação está principalmente nos rios.

Períodos prolongados de precipitação abaixo da média podem reduzir o nível das principais vias fluviais da região. Além de afetar comunidades e atividades locais, o problema possui uma dimensão diretamente ligada ao agronegócio.

Parte crescente da produção de grãos do Centro-Oeste utiliza corredores logísticos do Norte para chegar aos terminais de exportação.

Uma redução acentuada no nível das águas pode limitar a capacidade das embarcações e criar novos gargalos no transporte de soja e milho.

Nesse cenário, o impacto climático deixa de estar restrito à lavoura e passa a atingir também frete, armazenagem e competitividade das exportações brasileiras.

Fenômeno também preocupa pesca no Pacífico

Os efeitos esperados não atingem apenas a agricultura.

O aquecimento das águas do Oceano Pacífico altera a disponibilidade de nutrientes e pode modificar a distribuição de espécies marinhas.

Peru e Chile acompanham esse risco com atenção devido à importância da pesca em suas economias.

O Peru, por exemplo, aparece entre os maiores produtores mundiais de pescado capturado no mar, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.

Mudanças na temperatura da superfície do oceano podem deslocar cardumes, reduzir a disponibilidade de determinadas espécies próximas à costa e afetar toda a cadeia formada por pescadores, indústrias e exportadores.

Logística pode virar outro ponto crítico

Os riscos provocados pelo Super El Niño também alcançam importantes corredores internacionais de transporte.

Na América Central, a disponibilidade de água no sistema que abastece o Canal do Panamá é acompanhada de perto porque períodos secos podem obrigar a administração da hidrovia a limitar o calado dos navios.

Quando isso acontece, algumas embarcações precisam reduzir sua carga.

Para o comércio agrícola, qualquer restrição dessa natureza pode significar mais custos, alterações de rota e aumento do tempo de transporte das mercadorias.

A situação mostra como um fenômeno climático ocorrido no Pacífico pode provocar consequências muito além das áreas diretamente cultivadas.

Um mesmo fenômeno, vários riscos para o agronegócio

Embora o termo Super El Niño seja amplamente utilizado para episódios excepcionais, ele não representa uma classificação meteorológica oficial. Organismos como a NOAA utilizam categorias de intensidade para acompanhar o fenômeno.

As previsões também não significam que todos os efeitos ocorrerão exatamente como projetado.

El Niño modifica probabilidades climáticas, mas a intensidade das chuvas ou da seca em cada região depende de diversos outros fatores atmosféricos.

Por isso, o principal sinal de alerta para o agronegócio não é simplesmente a chegada de um fenômeno forte.

É a possibilidade de que regiões responsáveis por uma parcela importante da oferta mundial de alimentos enfrentem, simultaneamente, extremos climáticos completamente diferentes.

No Brasil, pode faltar água em uma área enquanto produtores de outra região lidam com excesso de chuva. Na Argentina, precipitações podem recuperar a umidade do solo, mas também dificultar trabalhos no campo. No Pacífico, o problema pode aparecer primeiro no mar.

Para uma região que desempenha papel decisivo no abastecimento mundial, acompanhar onde e quando esses extremos ocorrerão será tão importante quanto acompanhar a própria intensidade do El Niño.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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