Investigação no Paraná avança sobre suspeita de esquema usado para dar aparência legal aos animais furtados; Adapar abriu sindicância e, em outra frente da operação, apreendeu agrotóxicos e centenas de embalagens de produtos agrícolas.
A megaoperação contra uma organização suspeita de furtar e comercializar mais de 2 mil cabeças de gado no Paraná, com prejuízo estimado acima de R$ 10 milhões, ganhou novos desdobramentos. Entre as novidades está a prisão de um servidor da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), investigado por supostamente auxiliar na obtenção de documentos utilizados para dar aparência de legalidade aos bovinos furtados. Em outra frente das buscas, foram encontrados quase 300 galões de insumos agrícolas, além de agrotóxicos vencidos e produtos sem comprovação documental.
Os dois acontecimentos ampliam o alcance da investigação iniciada a partir do furto de 29 bovinos em uma propriedade de Alto Paraná. A Polícia Civil apura uma estrutura que teria atuado durante anos e reuniria aproximadamente 40 pessoas, com divisão de funções que iria desde o reconhecimento das propriedades e retirada dos animais até transporte, documentação e comercialização.
Servidor é investigado por suposta participação na documentação
Um dos pontos mais importantes revelados após a deflagração da operação envolve justamente a possível regularização documental dos animais.
Segundo o delegado da Polícia Civil do Paraná João Lucas Vieira Caetano, há indícios de que integrantes do grupo recorriam ao servidor da Adapar para obter documentação que possibilitasse o transporte do rebanho. A suspeita é relevante porque ajuda a explicar uma das questões centrais do inquérito: como animais supostamente furtados conseguiam voltar ao mercado com aparência de origem regular.
A investigação aponta que, depois dos furtos, os bovinos poderiam ser encaminhados para receptadores e leilões, com utilização de documentação para mascarar a verdadeira procedência.
A eventual responsabilidade do servidor ainda será determinada no curso da investigação e do processo. A prisão preventiva, por si só, não representa condenação.
Adapar abre sindicância
Após o avanço da investigação, a Adapar informou que abrirá sindicância interna para apurar a conduta do servidor e avaliar as medidas administrativas cabíveis. A própria agência também tem colaborado com as autoridades por meio do fornecimento de dados técnicos e cadastrais relacionados à movimentação e ao trânsito de bovinos.
Essas informações podem se tornar importantes para reconstruir o caminho percorrido pelos animais e identificar propriedades, transportadores, compradores e outros possíveis envolvidos.
A investigação também revelou que, em março de 2026, dois homens haviam sido presos em Terra Rica durante uma apuração relacionada a crimes semelhantes. Na ocasião, 13 animais foram recuperados.
Quase 300 galões de insumos encontrados durante as buscas
Outro desdobramento ocorreu em Colorado, no Noroeste paranaense, durante o cumprimento de um dos mandados relacionados à operação.
Com apoio da Adapar, policiais encontraram 294 galões de fertilizantes, adjuvantes e corretivos agrícolas, acondicionados em embalagens de diferentes capacidades. Também foram identificados produtos fracionados, envolvendo 42 itens e marcas diferentes.
A fiscalização encontrou ainda três galões de cinco litros de agrotóxicos, que, segundo as informações divulgadas, estavam sem nota fiscal e receituário agronômico e apresentavam prazo de validade vencido.
Havia ainda embalagens sem identificação do fabricante e produtos cujos lotes ou registros junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária apresentavam problemas de identificação.
O material foi apreendido e lacrado administrativamente pela Adapar.
É importante destacar, entretanto, que não há confirmação oficial de que esses insumos tenham relação direta com o esquema de furto e comercialização do gado. Eles foram encontrados durante o cumprimento das buscas e deverão ser objeto das apurações correspondentes.
Investigação tenta reconstruir caminho do gado furtado
A dimensão atribuída ao esquema continua sendo o principal ponto do caso. As investigações indicam possível atuação desde 2019, com mais de 2 mil cabeças de gado furtadas e prejuízo estimado em mais de R$ 10 milhões somente na região analisada.
Mais do que descobrir quem retirava os bovinos das propriedades, a polícia busca reconstruir toda a cadeia que teria permitido que os animais fossem transportados, documentados e posteriormente comercializados.
Essa etapa poderá esclarecer até onde chegava a rede de receptação e qual teria sido a participação de propriedades rurais, transportadores, compradores e agentes envolvidos na documentação. A menção a leilões faz parte da linha investigativa sobre o destino dos animais, mas, até o momento, não há base para atribuir responsabilidade de forma genérica às empresas ou eventos por onde eventualmente tenham passado bovinos investigados.
Também não há, nesta atualização, confirmação de uma nova quantidade de animais recuperados na megaoperação.
A análise de celulares, documentos, veículos e demais materiais apreendidos poderá abrir novas frentes da investigação e ajudar a dimensionar quantos animais efetivamente passaram pelo esquema e qual foi o prejuízo total aos pecuaristas paranaenses.
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