A criação de crocodilos no norte da Austrália atravessa um período de forte pressão econômica.
O excesso de oferta de peles no mercado internacional reduziu os preços e estreitou as margens dos produtores, que agora procuram novas formas de manter as fazendas em funcionamento.
O cenário contrasta com décadas de crescimento de uma atividade que transformou o crocodilo em uma importante fonte de couro para o mercado de luxo.
Com a produção mundial em alta, porém, os criadores australianos passaram a enfrentar dificuldades para obter retorno financeiro suficiente com a venda das peles.
John Lever, um dos pioneiros do setor em Queensland, afirmou ao ABC Rural que os ganhos atualmente obtidos pelos produtores estão muito abaixo do que já foram no passado.
Ele atua com crocodilos desde 1972 e fundou a primeira fazenda do segmento em Queensland, em 1981.
Quando o mercado não aguenta o volume
O problema começou com a entrada de novos produtores internacionais. Países africanos investiram em fazendas de crocodilos, algumas com até 100 mil animais.
O aumento da oferta derrubou os preços e inundou os mercados tradicionais com peles de qualidade inferior, transformando um negócio rentável em um desafio de sobrevivência.
Grahame Webb, especialista ligado ao Crocodylus Park perto de Darwin, explicou que o problema é multifacetado.
Peles de primeira qualidade, sem defeitos, ainda mantêm preços elevados, mas a mudança nos padrões aceitáveis abriu espaço para peles de segunda e terceira categorias no mercado.
Por causa dessa pressão, o Crocodylus Park, uma operação tradicional, também reduziu suas atividades enquanto a crise passa.
Produtos derivados ganham espaço
Angela Freeman, da Hartley’s Crocodile Farm, ao norte de Cairns, aposta na diversificação para contornar o impasse.
A fazenda começou a produzir charque de crocodilo, que, segundo Freeman, vende rapidamente e já se tornou um negócio independente rentável.
Freeman também vê potencial em subprodutos como óleo extraído da gordura do crocodilo, carcaças processadas em fertilizante orgânico e produtos de couro local.
A fazenda estuda a fabricação de artigos de couro de crocodilo e identifica mercados ainda inexplorados para o material.
Convencida da maleabilidade e da resistência do couro, Freeman investe em pesquisa para desenvolver calçados profissionais com o material.
O segmento é novo e pode ampliar o mercado do setor.
Incerteza para países em desenvolvimento
Webb, que fundou o Crocodylus Park em 1994 como centro de pesquisa e educação sobre crocodilos, alertou que a indústria enfrenta pressões além da superprodução.
Ativistas dos direitos dos animais intensificaram os ataques a empresas de moda que usam couro, lã e outros materiais de origem animal, e isso também afeta os produtores.
Essa tendência é especialmente preocupante para nações mais pobres que dependem da criação de crocodilos como fonte de renda.
Webb disse ao ABC Rural estar preocupado com o risco de produtos locais e sustentáveis caírem em desuso quando grandes marcas apertarem suas cadeias de suprimento.
Papua Nova Guiné é um exemplo crítico: muitas comunidades rurais obtêm sua única fonte de renda em dinheiro da colheita de poucos crocodilos.
Uma prática sustentável e monitorada há 60 ou 70 anos. Para Webb, esses produtos deveriam receber um prêmio por oferecerem vantagens para a conservação e benefícios humanitários às populações locais.













