Elefantes florestais invadem plantações de agricultores gaboneses durante a noite, derrubam bananeiras e mamoeiros, mas deixam as frutas intactas no chão e consomem apenas caules e folhas. Um estudo publicado em Ecological Solutions and Evidence sugere que os animais podem estar em busca de medicamentos naturais para combater infecções parasitárias.
A pesquisa, conduzida por cientistas do Gabão, Europa e Estados Unidos, revelou que elefantes florestais africanos têm 16% mais probabilidade de comer caules. E folhas de banana quando infestados por parasitas intestinais, e 25% mais probabilidade de consumir plantas de mamão. A descoberta abre perspectivas sobre inteligência animal e automedicação — um comportamento já documentado em primatas.
Como surgiu a hipótese medicinal
Steeve Ngama, cientista de conservação do Centro Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica do Gabão, começou a questionar por que os elefantes causavam danos tão específicos às plantações. Recordou pesquisas indicando que folhas de banana e mamão possuem propriedades curativas, semelhantes aos efeitos medicinais que elefantes florestais do Sudeste Asiático utilizam quando adoecem.
Entre 2016 e 2017, Ngama trabalhou com agricultores em aldeias próximas ao Parque Nacional dos Cristais, na costa atlântica do Gabão. Após cada invasão noturna, coletava amostras de fezes dos animais e plantas que haviam sido consumidas — incluindo bambu, plantas de costus, samambaias, figos, banana, mamão, mandioca e palmeira.
Os cientistas analisaram cerca de 90 amostras em laboratório, identificando parasitas como vermes nos animais infestados.
Automedicação além dos primatas
O comportamento de automedicação já é reconhecido em primatas selvagens. Chimpanzés doentes foram observados consumindo plantas com propriedades antibacterianas e anti-inflamatórias, inclusive tratando ferimentos uns dos outros. Um orangotango também foi registrado curando uma ferida facial com uma planta medicinal conhecida.
Elodie Freymann, pesquisadora de pós-doutorado da Brown University que estuda automedicação entre chimpanzés na Uganda, reconhece que mais investigação é necessária para confirmar que o comportamento de invasão é exclusivamente medicinal. Os elefantes podem carregar mais parasitas simplesmente por passarem mais tempo perto de pessoas e gado.
Freymann indicou não ter dúvidas de que elefantes possuem repertórios medicinais complexos e considerou que estudos como o gabonês representam um passo importante para descobri-los.
Propriedades curativas das plantas consumidas
Folhas de banana e mamão contêm compostos conhecidos por combater parasitas. Extratos de folhas de banana conseguem matar ovos de certos parasitas em ovelhas, enquanto o fluido do caule de mamão pode controlar parasitas intestinais em galinhas. O que pode explicar por que elefantes buscam essas plantas quando infectados.
A descoberta sugere que a invasão de plantações não representa apenas um conflito entre vida selvagem e agricultura. Mas também pode revelar estratégias de sobrevivência que os elefantes desenvolveram ao longo de gerações para lidar com doenças parasitárias no ambiente natural.













