Um sistema de coleiras eletrônicas inteligentes está revolucionando o trabalho no campo ao permitir que fazendeiros na Austrália controlem remotamente o deslocamento do rebanho por meio de um aplicativo de celular. Essa tecnologia, chamada cerca virtual, chegou comercialmente ao país após décadas de desenvolvimento e já transforma a rotina dos criadores de gado.
O fazendeiro Duncan Macdonald, de Yolla, na Tasmânia, equipou suas 1.300 vacas leiteiras com as coleiras e agora não precisa mais trabalhar de madrugada. Antes, Macdonald acordava às 3 da manhã para reunir o rebanho no escuro e passava uma hora conduzindo os animais até a ordenhadeira. Hoje, marca as vacas no aplicativo na noite anterior, e elas já o aguardam no galpão quando ele chega.
Como funciona a cerca virtual
Cada coleira emite sinais sonoros e vibrações que indicam para onde o animal deve ir. Se o rebanho ignora os avisos, o dispositivo emite pulsos elétricos de baixa intensidade. O sistema permite controlar as áreas de pastagem, detectar problemas de saúde nos animais e monitorar o rebanho remotamente, sem que o fazendeiro saia de casa.
A empresa neozelandesa Halter foi a primeira a oferecer a tecnologia comercialmente na Austrália, começando pela Tasmânia com assinaturas a partir de R$ 8,50 por mês por vaca. Na Nova Zelândia, onde a tecnologia já é amplamente adotada, cerca de 100.000 animais usam as coleiras.
Pesquisa e desenvolvimento da tecnologia
O conceito de cercas virtuais ganhou impulso quando a instituição de pesquisa australiana CSIRO investiu em desenvolvimento. A Tasmânia recebeu o interesse inicial das startups porque oferecia ambiente propício para testes de novas tecnologias rurais.
Pesquisadores do Tasmanian Institute of Agriculture acompanham a implementação desde 2016 para avaliar os impactos de longo prazo no bem-estar animal e na eficiência produtiva dos rebanhos.
Restrições legais em estados australianos
Apesar da disponibilidade, a tecnologia enfrenta barreiras legais em estados como Nova Gales do Sul, Vitória, Território da Capital Australiana e Austrália do Sul. Nesses locais, leis de proteção animal anteriores à tecnologia proíbem o uso de coleiras com choque elétrico.
Em Vitória e na Austrália do Sul, coleiras eletrônicas só são permitidas para pesquisa científica, enquanto Nova Gales do Sul mantém a proibição para animais de criação.
A empresa Gallagher ainda pretende lançar seu próprio sistema de cercas virtuais, o eShepherd, voltado para o gado de corte. A novidade deve ampliar o uso da tecnologia entre criadores australianos, ao menos nos estados onde ela é permitida por lei.
Por que a coleira só funciona depois do treinamento
A coleira não controla o animal por força bruta, mas por associação aprendida. Quando ligada pela primeira vez, ela emite sons e vibrações, sinais que a vaca não compreende por si só. O pulso elétrico de baixa intensidade é acionado apenas se o animal ignora esses avisos iniciais.
Com a repetição, a vaca aprende que o som significa “vá para lá”, e a vibração reforça a mensagem. Depois de treinada, ela muitas vezes obedece apenas ao som, sem precisar do pulso.
Onde a tecnologia é proibida e por quê
A cerca virtual não funciona legalmente em Nova Gales do Sul, Vitória, Território da Capital Australiano e Austrália do Sul. Nesses estados, leis de proteção animal anteriores à tecnologia proíbem coleiras de choque elétrico em animais de criação — embora permitam em pesquisa científica em alguns casos.
O impedimento legal existe porque cada estado tem interpretações diferentes sobre os efeitos do pulso elétrico no bem-estar animal e as leis originais foram criadas com base em tecnologias antigas e mais prejudiciais, como coleiras para cães.
Quanto a coleira prejudica a vaca em comparação com uma cerca elétrica comum?
Segundo a empresa Halter, o pulso elétrico da coleira inteligente é 100 a 200 vezes menos intenso do que o de uma cerca elétrica tradicional usada em muitas fazendas australianas. No entanto, organizações de proteção animal como a RSPCA argumentam que faltam pesquisas sobre impactos de longo prazo e alertam para o risco de a vaca desenvolver estresse agudo ao receber o pulso, independentemente da intensidade.














