Nardane Kuşçu caminha pelos Campos Verdes de Narköy, sua propriedade orgânica na região do Mar Negro Ocidental, na Turquia, até chegar a uma pequena sala climatizada atrás de uma estufa. Lá dentro, recipientes de plástico empilhados trazem etiquetas cuidadosas: acelga, repolho, tomate rosa e melancia, entre outras plantas típicas do país, e não é um depósito comum.
Cada recipiente guarda uma seleção de sementes tradicionais turcas, catalogadas uma a uma por ela mesma ao longo da vida. A profissional sempre documentou tudo em vídeos, aprendendo não apenas sobre cada semente, mas também sobre a pessoa que cuidou dela — muitas vezes colhidas junto a idosos em aldeias.
Uma coleção que atravessa gerações
Em Narköy, Kuşçu reúne mais de 1.200 variedades de sementes, formando um dos maiores acervos do tipo na Turquia. O trabalho nasceu da preocupação com mudanças nas práticas agrícolas, a chegada de sementes industriais e os efeitos do clima sobre plantações locais.
Preservar sementes tão ligadas a cada ecossistema turco é, para ela, uma forma de proteger a própria história do campo no país. Ensinar jovens sobre esse acervo também é uma forma de preservar um jeito mais equilibrado de cultivar.
Em entrevista à Atlasobscura, ela disse acreditar que, sem agricultura liderada por mulheres e pequena agricultura familiar, o mundo acabaria enfrentando fome.

A infância marcada pela terra
Kuşçu cresceu na fazenda da avó, em Adana, no sul da Turquia, fascinada por tudo que brotava do solo. Às escondidas da família, pulava pela janela para plantar sementes em latas velhas e desenhar o que via crescer ao redor.
Em entrevista, a professora disse que vivia numa casa com várias gerações reunidas e que a família subia às montanhas, chamadas de yayla, onde se valorizava especialmente o alimento cultivado por mulheres.
O contraste entre dois jeitos de plantar
Segundo ela, os homens da região costumavam se dedicar a monoculturas, com uma só espécie por talhão. Essa escolha rendia boas colheitas de trigo e damasco, mas deixava todo o campo vulnerável a pragas e doenças.
As mulheres, por sua vez, misturavam várias espécies num mesmo pedaço de terra, prática conhecida como el altı bahçesi. Sua avó conduzia a fazenda dessa forma, mostrando na prática um modelo de agricultura familiar liderado por mulheres.
A urgência de guardar sementes
Ela começou a colecionar sementes ainda menina, sentindo que algo ao seu redor estava mudando. Kuşçu via aviões espalhando agrotóxicos sobre os campos, algo que a avó sempre recusou usar em suas próprias plantações.
Com o tempo, ela percebeu que o trabalho coletivo entre vizinhos também ia desaparecendo. Em entrevista, a profissional atribuiu essa mudança à chegada de ajuda ligada ao Plano Marshall, que incentivava os agricultores turcos a plantar como nos Estados Unidos, desgastando a solidariedade que marcava as aldeias.
A resposta que encontrou quando criança foi simples: guardar as sementes antes que desaparecessem de vez.
De hábito de infância a obsessão de vida
O interesse que começou como curiosidade infantil virou rotina e, depois, necessidade. Já adulta, Kuşçu nunca parou de colecionar, ampliando a busca para sementes de diferentes regiões turcas.
Ao se casar e se mudar para Istambul, ela passou a guardar potes e latinhas por toda a casa — na sala, na varanda, em qualquer espaço livre. Em entrevista, ela contou que o marido brincava que um dia acordaria com uma planta nascendo no nariz ou na orelha, de tanta semente espalhada pelo lar.
O episódio que mudou tudo em 1996
- Em 1996, depois de décadas dedicadas a esse hábito, Kuşçu trabalhava como professora quando viveu um episódio que reforçou sua missão: um aluno correu rápido demais no pátio e caiu, ferindo o joelho no concreto.
A cena a fez refletir sobre como o concreto havia substituído a terra batida nos espaços onde crianças brincavam e cresciam. Foi mais um sinal de que preservar o vínculo com o solo exigia ação concreta, não apenas lembrança.
Décadas depois, o acervo de Narköy segue crescendo com as mais de 1.200 variedades reunidas por Kuşçu, um arquivo vivo que resiste à padronização do campo turco.













