Aos 94 anos, Dick Vincent ainda trabalha todos os dias na fazenda de gado que mantém em Capel, na Austrália Ocidental, a cerca de 200 quilômetros ao sul de Perth. Ele diz que a rotina com bovinos e cavalos o mantém vivo — sem ela, acredita que hibernaria rapidinho.
Vincent trabalha com três pessoas tão dedicadas quanto ele: a companheira Jan Cornish, de 82 anos, o “aprendiz” Neville Smith, de 83, e a esposa dele, Barbara, de 71. Os quatro somam 330 anos — média de 82 por pessoa — e nenhum deles dá sinal de querer parar.
Uma vida inteira de trabalho
Vincent passou os primeiros 90 anos de forma tranquila, mas os últimos quatro trouxeram desafios sérios. A partir de 2013, sofreu três acidentes graves — “pequenos percalços”, como ele próprio define — e precisou reaprender a caminhar depois de cada um deles.
Uma colisão de carro quase custou sua vida, e os socorristas levaram uma hora e meia para retirá-lo das ferragens. Cerca de um ano depois, um cavalo passou por cima dele e fraturou o quadril. No ano seguinte, um carneiro o atacou e quebrou sua perna.
Mesmo com audição em declínio e o esforço físico cada vez mais difícil, Vincent mantém o bom humor e a disposição. Segundo dados do Australian Bureau of Statistics, a maioria da população já se aposentou aos 70 anos — o que torna sua dedicação ainda mais incomum.
Ele afirma desconhecer outro criador de sua idade que ainda trabalhe na profissão, e segue firme na atividade que considera sua verdadeira paixão.

Uma carreira na pecuária
Ao longo da carreira na pecuária, o criador ganhou projeção nacional na criação de gado. Já foi dono de oito propriedades rurais na Austrália Ocidental, incluindo uma fazenda de gado shorthorn com 20 mil cabeças em Port Hedland. Também presidiu a World Federation of Simmental Breeders e comandou outras entidades ligadas à criação de gado.
Em 2015, seus serviços prestados à pecuária de corte, à criação de cavalos puro-sangue e ao turfe foram reconhecidos com a Order of Australia.
Um encontro que veio tarde
Vincent e Jan Cornish se conheceram muito tempo atrás, mas só ficaram juntos quando ele tinha 77 anos e ela, 65. Ele sempre a considerou uma amazona talentosa, campeã em provas equestres durante dois anos seguidos em competições regionais.
Os dois também se cruzavam nos rodeios, onde ele atuava como pick-up man — o cavaleiro que retira o competidor do cavalo após a prova, sempre com um abraço apertado.
O parceiro de trabalho octogenário
Neville Smith, o “aprendiz” de 83 anos, conheceu Vincent cerca de 25 anos atrás e vive perto da propriedade em Capel há aproximadamente sete anos. Ele divide com o criador o trabalho diário na fazenda. Barbara, esposa de Neville, cuida dos afazeres gerais e atua como roustabout e gopher — a pessoa que vai buscar isto, vai buscar aquilo.
Neville e Barbara compartilham da crença de que manter-se ativo contribui para uma vida mais longa. Neville acredita que poderá chegar aos 112 anos, e barbara relembrou que seu pai também trabalhou até o mês anterior à morte, aos 76 anos, mesmo enfrentando doença grave.
Essa combinação entre trabalho constante, amizade de décadas e disposição é o que mantém a fazenda de Capel funcionando todos os dias.
Como eles veem o trabalho constante
Para Vincent e Smith, manter-se ativo ajuda a evitar o declínio mental e físico. Dick Vincent disse ao ABC que, se a pessoa não continua ativa, hiberna muito rápido. Smith compartilha essa crença e diz acreditar que a atividade pode prolongar sua vida por mais 20 ou 30 anos.
O trabalho diário na fazenda oferece propósito, desafio físico moderado e envolvimento social. Não é apenas exercício, mas uma atividade que exige tomadas de decisão, responsabilidade com animais e interação com outras pessoas — tudo isso contribui para manter a mente aguçada e o corpo em movimento, mesmo com limitações naturais da idade.
O que significa essa dedicação para a vida moderna
O caso de Dick Vincent desafia a noção contemporânea de aposentadoria como um direito e objetivo inevitável. Se 82% da população australiana já se aposentou aos 70 anos, conforme dados do Australian Bureau of Statistics, Vincent representa uma exceção que questiona se a inatividade prolongada é realmente benéfica.
Sua escolha sugere que para algumas pessoas, continuar trabalhando não é uma necessidade econômica, mas uma escolha que afeta diretamente sua qualidade de vida e longevidade.
Isso implica que políticas e expectativas sociais sobre quando as pessoas “devem” parar de trabalhar podem não estar alinhadas com o que realmente contribui para um envelhecimento saudável. Para indivíduos como Vincent, Neville e Barbara, o trabalho deixa de ser apenas subsistência e se torna a própria razão de estar vivo.













