Cinco cordeiros órfãos ganharam uma nova família depois que a seca no sul da Austrália Ocidental deixou ovelhas fracas demais para amamentar as próprias crias. Todas as manhãs, três irmãos enchem mamadeiras de leite e organizam uma bandeja improvisada para alimentar os recolhidos de fazendas da região de Great Southern.
Para proteger os animais do frio que chega com o meio do inverno, as crianças vestem os resgates com roupinhas de lã doadas antes de dormir. Há poucas semanas, esses mesmos seres — hoje tratados como bichos de estimação da casa — enfrentavam um destino bem mais incerto.
Chuva tardia não resolve a falta de comida
A chuva do inverno chegou, mas não foi suficiente para compensar um verão longo e seco na Austrália Ocidental. Com isso, produtores tiveram dificuldade para conseguir ração suficiente para o rebanho, o que deixou as ovelhas debilitadas.
Donos de uma propriedade em Narrikup, Geoff e Annette Louwen decidiram agir diante da situação. Segundo informou ao ABC, as ovelhas estavam muito fracas, e o casal encontrou diversas fêmeas mortas pelo campo depois de dar à luz sem conseguir alimentar os próprios crias.

Uma rede de vizinhos socorre os animais
O que começou com o resgate de poucos cordeiros cresceu rápido, e o casal estima já ter salvado cerca de 60 seres da hipotermia. Em um único domingo, conforme informou ao ABC, foram encontrados 22 cordeiros órfãos reunidos em uma mesma pastagem.
Preocupada em não conseguir abrigo para todos, Annette Louwen recorreu às redes sociais pedindo ajuda e recebeu cerca de 300 respostas de pessoas dispostas a acolher os pequenos. Foi assim que conheceu Andrea Eastley, que havia se mudado para Mount Barker com a família no ano anterior e se ofereceu para cuidar de alguns.
Sem experiência rural, família aprende no improviso
Mesmo morando em um sítio de lazer, os Eastley não tinham nenhuma vivência com criação de animais. Ainda assim, encararam o desafio recorrendo a vídeos na internet e pedindo conselhos a vizinhos sempre que surgia uma dúvida.
Geoff Louwen destacou a rapidez com que a comunidade respondeu ao pedido de ajuda. Conforme informou ao ABC, ninguém adiava a busca pelos pequenos para o dia seguinte — as pessoas largavam o que estavam fazendo e saíam na mesma hora para resgatar os seres.
Pensando em ficar com apenas dois, Andrea Eastley acabou levando oito para casa — mas três deles não resistiram.
Roupinhas de lã viram proteção contra o frio
Muitos dos resgates por Andrea e Geoff Louwen chegavam com hipotermia, já que tinham pouca gordura corporal para manter o calor do corpo. Nesse cenário, as roupinhas de lã doadas se tornaram essenciais para enfrentar a queda nas temperaturas do inverno.
As peças são tricotadas pela moradora de Perth Trish Lambkin, que teve a ideia depois de ver fotos semelhantes em uma revista. Ela já confeccionou mais de 300 roupinhas para os órfãos, mantendo-se ocupada enquanto os seres ganham peso e esperam ficar fortes o suficiente para voltar ao campo.
Famílias como os Eastley seguem improvisando cuidados diários para manter esses animais vivos.
Por que cordeiros órfãos sofrem hipotermia tão rápido
Cordeiros recém-nascidos dependem inteiramente do leite materno para ganhar peso e desenvolver gordura corporal — a gordura é o que mantém o calor do corpo quando as temperaturas caem. Quando a mãe morre ou fica tão fraca que não consegue amamentar, o filhote perde essa fonte de energia justamente no período mais crítico da vida, ficando magro e vulnerável ao frio intenso do inverno.
Por isso, segundo informado ao ABC, cordeiros órfãos encontrados na Austrália Ocidental chegavam com hipotermia e pouca gordura corporal para se defender das temperaturas que caem à noite. Uma única noite ao relento, sem calor materno ou gordura própria, seria suficiente para levar o animal à morte.
O que a morte de ovelhas fracas significa para toda a propriedade
Quando uma ovelha morre logo após dar à luz, a fazenda perde duas gerações de produtividade ao mesmo tempo: a mãe nunca mais produzirá crias, e o cordeiro órfão se torna um custo adicional sem retorno certo. Se isso acontecer com muitos animais na mesma região — como ocorreu em Great Southern — o prejuízo acumula rapidamente e ameaça a viabilidade econômica das propriedades.
Além disso, ovelhas debilitadas pela falta de alimento não se recuperam naturalmente com uma chuva isolada. A volta do rebanho à saúde exige tempo e investimento contínuo em ração, ampliando o período crítico em que a fazenda opera no vermelho.
Por que as famílias conseguiram salvar os cordeiros se nunca tinham criado animais?
Porque o que os cordeiros órfãos precisam é de cuidado consistente e dedicação diária, não de experiência prévia. Segundo informado ao ABC, os Eastley recorreram a vídeos na internet e ao conhecimento dos vizinhos para resolver dúvidas conforme surgiam. O fator determinante não foi o saber técnico, mas sim a disposição de aprender e se empenhar todos os dias — alimentar com mamadeira, manter aquecido, monitorar a saúde. Comunidades rurais também responderam com rapidez quando pedidos de ajuda chegavam às redes sociais, largando o que estavam fazendo para resgatar novos órfãos.
Como um projeto de cordeiros se torna terapia comunitária durante crises
A knitter Trish Lambkin começou a tecer roupinhas para os cordeiros inspirada por fotografias vistas em revista, mas o projeto cresceu para além da função de manter animais aquecidos. Segundo documentado em publicação sobre o trabalho, as mais de 300 roupinhas que ela confeccionou também a mantiveram ocupada e inspirada durante lockdowns de COVID-19 — um período em que muitas pessoas enfrentavam isolamento e falta de propósito.
Esse padrão revela como crises locais (seca, morte de animais) podem se transformar em atividades que beneficiam simultaneamente os animais e as pessoas que ajudam, criando um tecido social mais coeso durante tempos difíceis.













