A empresa estadunidense Mainstream Aquaculture cria o peixe barramundi, espécie tropical originária da Austrália, em pleno deserto do Arizona. A iniciativa chama atenção em uma região onde a crise hídrica do rio Colorado colocou o uso da água sob vigilância constante.
A criação ocorre em tanques artificiais abastecidos por água subterrânea. Cegonhas sobrevoam as lagoas enquanto o funcionário Dan Mohring dirige uma caminhonete carregada com um reboque cheio de carne moída, frango, peixe e outros nutrientes triturados.
O alimento é disparado por um canhão sobre a água, e dezenas de barramundis se debatem na superfície disputando cada pedaço.
Como funciona a criação no deserto
A empresa, de origem australiana, vende o peixe para restaurantes nos Estados Unidos como alternativa ao produto pescado no oceano. Segundo a companhia, encurtar a distância entre produção e consumo reduz parte da poluição gerada pelos grandes navios que transportam frutos do mar pelo mundo.
Matt Mangan, presidente do braço americano da Mainstream, informou ao AP News que a empresa trabalha no setor da água e pretende manter a operação funcionando nos próximos 20 ou 30 anos.
A empresa aproveita a água que sobra dos tanques, rica em nutrientes, para irrigar plantações de grama-bermuda vendida como ração para gado. Segundo a empresa e parte dos especialistas em aquicultura, esse reaproveitamento torna o sistema mais eficiente.
Dúvidas sobre o impacto ambiental
Parte dos especialistas questiona se criar peixes em larga escala numa área árida compensa os riscos envolvidos e se esse tipo de produção consegue crescer sem gerar alto custo ambiental numa região onde a água já é disputada.
A Fazenda não usa água do rio Colorado — fonte que abastece boa parte do sudoeste americano e está no centro da crise hídrica da região —, mas sim lençóis subterrâneos. Esse tipo de reserva não se renova com facilidade, e, assim como ocorre na mineração, empresas e comunidades locais divergem sobre quando e quanto extrair dela.
O Arizona tem sete áreas onde a água subterrânea é gerida rigorosamente, mas Dateland não está entre elas. As regras variam: algumas regiões adotam controles rígidos; outras fiscalizam menos. Todo o estado, porém, enfrenta os efeitos das mudanças climáticas, que ressecam o clima e tornam cada gota subterrânea mais disputada.
A Fazenda de Dateland segue funcionando como teste de um modelo pouco comum: produzir proteína animal de origem tropical em pleno deserto, usando um recurso que, uma vez retirado do solo, não volta tão cedo.
Como a reutilização da água torna o sistema mais eficiente
A água usada nos tanques de barramundi não é desperdiçada. Depois de passar pelos tanques, ela fica rica em nutrientes dos resíduos dos peixes, formados basicamente por matéria orgânica que se acumula naturalmente.
A empresa desvia essa água para irrigar plantações de grama-bermuda, colhidas e vendidas como ração para gado. Assim, um único volume de água serve a dois propósitos produtivos antes de ser completamente descartado.
O que significa produzir peixes tropicais no deserto para o consumidor
O barramundi criado em Dateland percorre uma distância menor até o consumidor do que o peixe pescado no oceano. Segundo a empresa, isso reduz a poluição causada pelos grandes navios cargueiros que transportam frutos do mar pelo mundo inteiro.
Para o consumidor atento ao impacto ambiental, a alternativa polui menos do que o peixe pescado no oceano.
Quando a aquicultura no deserto pode não funcionar
O principal risco está na renovação da água, e a fazenda usa lençóis subterrâneos que, diferentemente do rio Colorado, não se renovam com facilidade. Eles funcionam como uma reserva que, uma vez extraída, demora séculos para se repor.
Ou seja, se muitas indústrias começarem a explorar essas reservas na mesma região, o recurso pode se esgotar. Além disso, as mudanças climáticas estão tornando o clima mais seco e cada gota subterrânea mais valiosa e disputada, e o modelo só funciona enquanto houver água subterrânea disponível.













