Na Austrália, uma propriedade rural localiza no ponto em que o rio Murray encontra o mar pratica a criação de bois e ovelhas em ilhas. Os 4 mil hectares da propriedade estão distribuídos entre várias ilhas, o que faz com que o gado precise atravessar trechos alagados para chegar às pastagens verdes.
A família Grundy cuida da propriedade há cinco gerações, desde sete anos depois da proclamação da colônia da Austrália do Sul. Colin Grundy, dono da propriedade, explicou ao ABC que a ilha principal é a Mundoo, mas o rebanho também circula por Hindmarsh Island, Long Island, Ewe Island e outras ilhotas menores da região.
Segundo ele, a rotina se parece com a de qualquer propriedade rural, mas ocorre em meio a terrenos planos e pantanosos. A propriedade também abriga três das cinco comportas construídas nesse trecho final do curso d’água, estruturas de concreto e aço que regulam a entrada do mar no sistema.
Um território moldado pela história
O trecho em que a propriedade está instalada tem grande importância para o povo Ngarrindjeri e faz fronteira com as áreas úmidas do Coorong, reconhecidas internacionalmente. Em 2020, um grupo formado majoritariamente por produtores de Nova Gales do Sul se reuniu em frente ao Parliament House, em Canberra.
Pressionados pela seca e pela vazão reduzida no trecho norte do curso d’água, eles pediram a construção de uma nova eclusa a jusante de Blanchetown, no estado da Austrália do Sul. A reivindicação previa reter o volume do rio para abastecer produtores que dependem da irrigação.
O risco para quem vive das ilhas
Atender esse pedido significaria remover as comportas que hoje protegem o sistema, permitindo que o mar avançasse sobre os lagos rasos da região conhecida como Lower Lakes. Isso atingiria em cheio as áreas úmidas do Coorong e propriedades como a Mundoo Island Station.
Para Colin Grundy, essa mudança representaria o fim da atividade rural ali praticada. Sally Grundy, que administra o negócio ao lado do marido, destaca que muita gente sente que tem direito ao volume que passa diante de sua propriedade só por vê-lo correndo perto de casa.
Ela defende que o curso precisa fluir desde o início até a foz, onde encontra o mar. Sem esse fluxo constante, argumenta, o sistema inteiro perde equilíbrio, e cidades e produtores que dependem dele ficam sem garantia nenhuma.
Gado, ovelhas e cavalos selvagens
O rebanho da família reúne cerca de 300 cabeças de Angus preto, algumas centenas de ovelhas Dorper e um grupo de cavalos selvagens, herança deixada pelas gerações anteriores. No fim da primavera, as vacas prenhes deixam as pastagens mais altas, que já começam a secar.
Elas atravessam pântanos e cursos de água até chegar às áreas úmidas das ilhas, onde encontram vegetação fresca. Em alguns trechos, avançam com água até o pescoço em busca de plantas aquáticas que compõem boa parte da alimentação nessa época do ano.
Segundo Grundy, a raça Angus se adapta melhor que qualquer outra a esse tipo de terreno, resistindo bem às condições exigentes da região. Depois do parto, os animais retornam às pastagens mais secas para passar o inverno, e os bezerros já desmamados seguem para venda.
Da lã ao gado, uma adaptação constante
Antes do gado virar o foco principal, a propriedade vivia da lã. Nos tempos dos antepassados de Grundy, ovelhas e fardos eram transportados entre as ilhas em barcaças, barcos e vapores de roda.
A construção das comportas, entre 1915 e as décadas seguintes, mudou completamente essa logística. As estruturas separaram a água salgada da doce e criaram uma via terrestre para caminhões e outros veículos circularem com mais agilidade. Com isso, a lã passou a chegar ao mercado em um único dia, depois de antes levar semanas por via fluvial.
Décadas depois, a propriedade encarou outro desafio: a doença da fascíola hepática se espalhou pelo curso do rio e afetou parte da produção de ovinos. A família teve de repensar mais uma vez o rumo do negócio, até consolidar o gado bovino como atividade central da Mundoo Island Station.













