Uma estrutura de três andares ancorada perto do centro de Roterdã abriga vacas Maas-Rijn-Ijssel que se alimentam de feno despejado por uma correia transportadora e de cascas de laranja resgatadas de máquinas de suco no porto holandês.
O telhado recolhe água da chuva para os animais beberem. Robôs ordenham as vacas e limpam o esterco, que será transformado em adubo orgânico.
A Floating Farm começou a operar em 2019 e se apresenta como a primeira fazenda flutuante do mundo, vendendo leite, queijo e manteiga numa pequena loja em terra firme ao lado do local onde os animais vivem.
O conceito nasceu após o marido de Minke van Wingerden testemunhar a escassez de alimentos que atingiu Nova York depois que o furacão Sandy devastou a cidade em 2012.
Raízes históricas e propósito atual
A agricultura flutuante não é ideia recente — os astecas já construíam ilhas artificiais para cultivar alimentos séculos atrás no atual México. Hoje, o conceito ganha atenção como estratégia para enfrentar a insegurança alimentar e os desafios das mudanças climáticas, especialmente em regiões costeiras e de baixa altitude propensas a inundações.
Na Índia e em Bangladesh, o Fórum Sul-Asiático para o Meio Ambiente, com sede em Calcutá, revitalizou uma prática tradicional de criar jangadas flutuantes que mantêm mudas acima das águas das monções.
A organização chama a prática de “clima-resiliente” — as jangadas de bambu foram ampliadas e reforçadas para resistir melhor a tempestades, com cobertura plástica, telas de proteção para plantas frágeis e bombas movidas a energia solar para irrigar as mudas.

Expansão na Ásia e desafios práticos
Em apenas alguns anos, o número de fazendas flutuantes operando em diferentes aldeias da região indiana ultrapassou 500. As jangadas cultivam vegetais como plantas medicinais, espinafre e pimenta, e os agricultores também criam caranguejos em caixas flutuantes para venda em mercados locais.
A prática exige paciência dos agricultores, pois não é um tipo convencional de cultivo. Os problemas com pragas se agravam em períodos de calor extremo, quando as temperaturas chegaram a 113 graus Fahrenheit (45 graus Celsius) em algumas regiões.
Com as monções cada vez mais irregulares, as jangadas ajudaram na segurança alimentar das comunidades locais. Quando o estado indiano de Bengala Ocidental enfrentou um ciclone e, depois, a pandemia de COVID-19 em 2020, as estruturas flutuantes se mostraram críticas para manter a produção alimentar.
Perspectivas para o futuro global
Os agricultores que usam as jangadas agora conseguem alimentar a si mesmos e vender parte do excedente nos mercados locais, enquanto o fórum espera ampliar a iniciativa para torná-la muito mais viável comercialmente.
Minke van Wingerden considera a agricultura em água uma resposta viável a inundações e ao aumento do nível do mar. Além de uma forma de aproximar a produção de alimentos dos consumidores e reduzir a pegada de carbono.
Segundo especialistas em agricultura e clima, essas fazendas flutuantes serão escaláveis nas próximas décadas no Sudeste Asiático. Ainda assim, educar as comunidades sobre a tecnologia pode ser um obstáculo para sua adoção em alguns locais.

O que significa a agricultura flutuante para comunidades em risco de inundação
Para regiões como Índia e Bangladesh, onde as monções e ciclones são recorrentes, a agricultura flutuante muda a relação da população com a segurança alimentar. Em vez de perder toda a colheita durante eventos climáticos extremos, os agricultores conseguem manter a produção mesmo quando enchentes atingem suas regiões.
Isso permite que as comunidades se alimentem a si mesmas e ainda vendam o excedente nos mercados locais, criando uma fonte de renda que não desaparece nos períodos de desastres naturais.
Quando a agricultura flutuante não resolve o problema
A prática enfrenta limitações importantes em clima extremo, e quando as temperaturas atingem 45 graus Celsius, as pragas se multiplicam rapidamente, criando desafios que exigem paciência e conhecimento técnico dos agricultores. Além disso, nem todas as regiões costeiras e de baixa altitude que enfrentam inundações também praticam agricultura tradicional — em algumas áreas.
Pode ser mais eficiente investir em habitações flutuantes do que em fazendas flutuantes para se adaptar ao aumento do nível do mar. O modelo também enfrenta obstáculos culturais: educar as comunidades sobre a tecnologia pode ser uma barreira significativa para sua adoção em certos locais.













