Criadores da região de Utah, nos Estados Unidos, encararam um novo surto de gripe aviária grave. O caso levantou novos questionamentos entre especialistas em doenças infecciosas sobre a capacidade da administração Trump de gerenciar esse tipo de vírus.
A falta de transparência das autoridades federais sobre o caso preocupa epidemiologistas, que alertam para riscos tanto aos trabalhadores quanto à população. Jennifer Nuzzo, professora de epidemiologia e diretora do centro de estudos de pandemias da Brown University School of Public Health, afirmou que a resposta governamental carece de clareza essencial.
Em entrevista ao The Guardian, ela disse que nenhum animal ou ser humano ficará protegido do vírus através do sigilo e que o governo tem responsabilidade de tentar evitar uma pandemia, embora o maior risco esteja entre pessoas expostas diretamente aos animais doentes.
Como começou e por que não foram tomadas medidas
Durante dois meses, a gripe aviária se disseminou na fazenda, que cria milhares de visons para a indústria de peles.
Amanda Price, veterinária do estado, tentou obter ajuda do Departamento de Agricultura dos EUA, mas recebeu dos funcionários federais a resposta de que eles não regulam a criação de visons nem têm vacina aprovada para esses animais.
Segundo documentos obtidos pelo The Guardian por meio da lei de acesso público, os Centros Federais para Controle e Prevenção de Doenças também falaram com a equipe de saúde de Utah, mas não se comunicaram diretamente com Price.
As autoridades também não monitoraram os sintomas dos trabalhadores da fazenda, apesar das orientações do CDC. A ProPublica encontrou dois funcionários, um deles com olho vermelho, sintoma que a agência federal recomenda testar. Chad Fenn, proprietário da fazenda, alegou ao The Guardian que o trabalhador tinha poeira no olho e que o departamento estadual de saúde não recomendou testes.
Em outros países onde surtos semelhantes ocorreram, os governos ordenaram o abate dos visons. Veterinários disseram que isso deveria ter sido feito na fazenda de Utah.
Um representante da indústria de peles argumentou que o abate mataria o negócio. Pesquisadores de gripe aviária, como Tom Peacock, do Instituto Pirbright, alertam, porém, que o abate geralmente ocorre rapidamente em situações assim — e o fato de não ter ocorrido é “muito preocupante”.
O risco de transmissão aos humanos
Nuzzo alertou para um cenário que a preocupa: trabalhadores expostos aos animais doentes poderiam contrair o vírus e adoecer gravemente, algo que poderia ser evitado com vacinação, como fazem outros países. O vírus poderia se tornar pandêmico se se combinasse com um vírus influenza, risco que aumenta com o início da estação de gripe, quando mais vírus circulam entre humanos.
Embora não seja possível calcular a probabilidade dessa combinação, Nuzzo não vê sinais de disseminação do vírus no momento. Os visons são altamente suscetíveis à infecção por vários vírus que também afetam humanos, segundo relatório publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America.
Precedentes e falta de monitoramento
Não é a primeira vez que Utah enfrenta surtos em fazendas de peles. Durante a pandemia de Covid-19, cerca de 10 mil visons morreram do coronavírus no estado, e as autoridades impuseram quarentenas em nove fazendas. Segundo relatório publicado na revista Emerging Infectious Diseases, trabalhadores infectados transmitiram o vírus aos animais.
Nuzzo expressa preocupação porque, durante o segundo mandato de Trump, o governo federal parece monitorar menos as fazendas em busca de possíveis vírus do que administrações anteriores. Pouco depois de Trump assumir, sua administração demitiu funcionários federais que respondiam a um surto de gripe aviária entre vacas leiteiras.
Nuzzo também disse que funcionários federais costumavam fazer chamadas regulares com especialistas em doenças para manter a comunidade informada sobre as ações em andamento, mas que isso não acontece mais. Segundo ela, essa comunicação permite questionar as decisões e garantir que as ações recebam o escrutínio que merecem.
Se o vírus não está se espalhando entre humanos agora, por que tanta preocupação?
Porque o risco não está no que acontece hoje, mas no que poderia ocorrer se nada fosse feito. Trabalhadores expostos aos animais doentes podem contrair o vírus e adoecer gravemente, algo que a vacinação poderia evitar, como já ocorre em outros países.













