Nasir Hassan Haji nunca se imaginou agricultora ou nadadora. Hoje, entra nas águas azuis de Zanzibar com óculos de mergulho sobre o véu para examinar sua fazenda flutuante de esponjas. Ao fazer isso, percebeu que havia se tornado as duas coisas.
Haji integra, com outras 12 mulheres, um grupo de 13 agricultoras da aldeia de Jambiani, na costa do Oceano Índico. As mulheres agora dependem do cultivo de esponjas naturais resistentes ao clima, presas a cordas grossas que boiam no mar.
A mãe de quatro filhos, de 46 anos, aprendeu a cultivar esponjas para ser livre e não depender de nenhum homem, segundo relatou ao The African Mirror, sentada no chão de sua casa na ilha da Tanzânia. A renda obtida com a venda das esponjas permitiu que ela construísse sua própria casa e financiasse a educação de seus filhos.
Do cultivo de algas ao trabalho com esponjas
Antes de trabalhar com esponjas, Haji cultivava algas marinhas, a principal fonte de renda para mulheres em Zanzibar. O aumento das temperaturas oceânicas causado pelo aquecimento global dificultou o cultivo dessa cultura comercial e obrigou Haji a buscar alternativas.
Pesquisa da State University of Zanzibar revela que mais de 90% dos cultivadores de algas marinhas são mulheres enfrentando mudanças em temperatura, chuva e salinidade oceânica.
Um estudo de 2012 do Global Climate Adaptation Partnership e do antigo Departamento para Desenvolvimento Internacional britânico usou dados que mostram o aquecimento de Zanzibar nos 40 anos anteriores para projetar que a temperatura máxima mensal média da ilha subiria de 1,5 a 2 graus Celsius até os anos 2050.
Mulheres que dependem do oceano para viver, no cultivo de algas, na pesca ou no turismo, enfrentam mares mais quentes e em elevação, que ameaçam seu trabalho. Para se adaptar, elas diversificam suas atividades.

Como a crise climática acelerou a transformação
Conservacionistas locais dizem que a crise se intensificou quando as restrições de viagem da pandemia de COVID-19 interromperam o fluxo de turistas. Com isso, moradores passaram a buscar na natureza meios de sobrevivência.
Mohamed Okala, conservacionista e guia turístico de Jambiani, relata que pessoas que dependiam do turismo passaram a recorrer à pesca ou ao corte de madeira nas florestas. Ele descreve o cenário como uma disputa entre a economia e o meio ambiente.
Moradores já relatam redução dos estoques de peixes no último ano. Para mulheres como Haji, o cultivo de esponjas funcionou como proteção contra os choques climáticos e econômicos enfrentados pela ilha.
As esponjas — que se parecem com rochas brancas e texturizadas mas são na verdade animais simples e multicelulares — crescem em fazendas flutuantes durante meses antes da colheita. Depois são limpas e vendidas para lojas e turistas.
A origem da criação de esponjas na região
Haji descobriu o cultivo de esponjas há seis anos, quando uma amiga lhe falou sobre a organização marinecultures.org, que ensina mulheres a nadar e a cultivar esponjas para limpeza e banho.
Desde 2009, Christian e Connie Vaterlaus, fundadores suíços da instituição de caridade, coletam partículas de esponjas ao redor da ilha para cultivá-las em seu viveiro. O viveiro se tornou a base para o desenvolvimento de fazendas de esponjas na região.
Christian Vaterlaus conheceu um cultivador de esponjas na Micronésia e trouxe essa ideia para Zanzibar, onde há poucas fazendas desse tipo no mundo. Os 13 participantes geram renda significativa vendendo esponjas para lojas e turistas, oferecendo alternativa viável ao cultivo de algas comprometido pelas mudanças climáticas.
O mercado global de esponjas naturais foi estimado em 20 milhões de dólares em 2020. Levantamentos apontam potencial de crescimento para a atividade.
Haji relatou ao The African Mirror que as mulheres ficaram para trás, mas que isso está mudando. Ela representa essa transformação ao construir a própria vida, conquistar independência financeira e garantir perspectivas de futuro para os filhos com o trabalho que aprendeu a fazer nas águas do Oceano Índico.
Por que as esponjas prosperam onde as algas fracassam
As esponjas marinhas prosperam em águas mais quentes, enquanto as algas sofrem com o aumento das temperaturas oceânicas. As esponjas são animais simples e multicelulares que se adaptam melhor às mudanças de temperatura. Já o cultivo de algas depende de condições específicas de temperatura, salinidade e pluviosidade.
As esponjas também exigem menos manutenção que as algas. Elas crescem presas a cordas durante meses antes da colheita e demandam menos intervenção. Por isso, substituir o cultivo de algas pelo de esponjas se tornou uma alternativa viável para as mulheres de Zanzibar diante das mudanças climáticas.
O papel das esponjas na recuperação do ecossistema marinho
Além de gerar renda, o cultivo de esponjas também beneficia o ambiente. A estrutura esquelética desses animais captura carbono nos ecossistemas de corais, enquanto seu corpo poroso filtra e purifica a água do mar. Essa função é relevante diante da degradação dos ecossistemas marinhos, dos quais cerca de 60% são explorados de maneira insustentável.
As esponjas também ajudam a restaurar os recifes de coral, que abrigam 25% de toda a vida marinha e estão ameaçados. Ao cultivá-las, as mulheres de Zanzibar geram renda e contribuem para a recuperação desse ecossistema. Assim, conservação marinha e sustento econômico se associam, conforme Christian Vaterlaus observou ao notar que as pessoas começam a ver o oceano como “um amigo que fornece sustento e é importante proteger”.













