A língua azulada, o inchaço na cabeça e a febre marcam a pior epidemia de bluetongue já registrada entre criadores britânicos.
Na temporada iniciada em 1º de julho de 2026, o Defra — órgão regulador de alimentos. E agricultura do Reino Unido — registrou 2.201 casos nos primeiros três meses, mais do que todos os casos dos três anos anteriores somados. A enfermidade afeta ovelhas, gado e outros animais, provocando febre, úlceras, inchaço na cabeça e claudicação.
Em casos severos, a língua do animal fica azulada e pode sair da boca; a morte é possível. Mosquitos minúsculos, chamados mosquitos-pungentes, transmitem o vírus, e esses insetos picam durante o repasto de sangue e são originários da África.
Como o aquecimento alimenta a epidemia
A temperatura do ambiente determina se o vírus se reproduz dentro do mosquito. Quanto mais quente a estação, mais rápido a linhagem conhecida como sorotipo 3 (BTV-3), detectada pela primeira vez na Inglaterra em 2023, se dissemina para regiões antes livres da doença.
A Organização Mundial para Saúde Animal vincula a expansão do vírus para a Europa ao colapso climático. Este ano, a doença alcançou pela primeira vez a Escócia e foi identificada tão ao norte quanto Aberdeenshire. Com invernos mais amenos e verões mais quentes à frente, patógenos que antes não sobreviviam no Reino Unido encontram condições para se estabelecer.
O mesmo padrão pode afetar mosquitos capazes de disseminar dengue e Zika. Esses mosquitos já foram encontrados se reproduzindo em casas no leste de Londres. A dengue também já chegou aos Estados Unidos, onde a Flórida registrou 485 dos 2.145 casos confirmados neste ano.
A presença do mosquito tigre, que transmite essas doenças, avançou na Europa nos últimos anos e alcançou 31 países.
O desafio dos criadores sem acesso à vacina
A doença não contamina humanos nem compromete a segurança alimentar, mas o impacto nas fazendas é crescente. Criadores precisam manter vigilância constante e examinar os animais em busca de sintomas. Vacinas existem, mas os criadores têm dificuldade para obtê-las porque o mercado funciona conforme a demanda.
Em um ano em que negócios de pecuária enfrentam custos inesperados causados pela seca, consequência das mudanças climáticas. Vacinar e possivelmente tratar animais com língua-azul representa mais trabalho e estresse para a operação da fazenda.
O total de animais afetados provavelmente é maior que o número de casos reportados, já que o Defra conta um caso como uma propriedade onde pelo menos um animal está infectado.
O alerta sobre o futuro
Preparação adequada — vacinas para animais de fazenda, vigilância epidemiológica, planejamento de contingência — é necessária para enfrentar os surtos que avançam. Entretanto, não há vacinação possível contra os padrões climáticos que favorecem esses focos de doença. Esses surtos só ficarão mais prováveis até que as emissões globais atinjam o zero líquido e o planeta deixe de aquecer.













