A pesquisadora Susan Brown trabalha há anos com um experimento prático: ela prova centenas de maçãs por dia durante a época de colheita. Ela comanda um dos maiores programas de melhoramento genético de maçãs do mundo, instalado na New York State Agricultural Experiment Station.
Todos os anos, a pesquisadora e o técnico Kevin Maloney plantam milhares de sementes sem saber qual sabor cada árvore produzirá quando crescer. O resultado é imprevisível: já apareceram frutos com notas de canela, pimentão e até gosto de óleo diesel.
Uma das variedades testadas tem um toque forte de erva-doce, que pode agradar ou provocar rejeição, dependendo do paladar de quem morde. Não existe atalho para prever o sabor: só provar o fruto revela o que a árvore produziu.
Uma caça ao fruto perfeito
A busca da equipe tem um objetivo claro: encontrar uma maçã inédita, bonita o bastante para resistir às intempéries do campo, crescer de forma uniforme e aguentar viagem até o supermercado sem perder qualidade. Acima de tudo, o fruto precisa ser crocante e suculento, as duas características mais valorizadas por quem compra.
Para chegar lá, a especialista cruza variedades diferentes e se vale da variação genética. Cada cruzamento pode gerar uma combinação nunca vista, melhor do que qualquer maçã já disponível nas prateleiras.
A escala exige décadas de trabalho
Segundo ela, as maçãs são difíceis de padronizar: cada semente carrega um conjunto genético próprio, imprevisível mesmo quando vem dos mesmos pais. Domar essa diversidade exige plantar milhares de árvores e provar milhares de frutos ano após ano, até encontrar um único exemplar que mereça virar uma nova variedade com nome próprio.
A rotina acontece na estação de pesquisa em Geneva, no estado de Nova York, na ponta norte do Seneca Lake, região de fazendas, vinícolas e desfiladeiros entre os Finger Lakes. O local reúne estufas iluminadas e salas de aula na borda da cidade, com acesso direto aos 33 acres de mudas plantadas nos arredores.
As candidatas à comercialização têm seus clones enxertados em diferentes raízes para testar crescimento e produção. Depois, são enviadas a fazendas comerciais, onde enfrentam outras condições climáticas.
Uma fileira promissora de cruzamentos
Entre filas de árvores jovens, com maçãs caídas formando poças vermelhas e amarelas no chão, existe uma fileira que a especialista chama de “boa fileira”.
Nela, cada árvore vem do mesmo par de plantas-mãe, cruzadas na esperança de reunir o melhor dos dois lados — a mesma expectativa de qualquer pai ou mãe. Só que, nesse caso, uma única dupla pode gerar milhares de descendentes.
Depois que Brown e Maloney fazem o cruzamento, raspando o pólen de uma flor e pinçando as anteras de outra, os descendentes levam quatro anos para produzir frutos. No primeiro ano, podem aparecer apenas uma ou duas maçãs.
Mesmo que decidam que a maçã é excelente, precisam esperar o ano seguinte para ver se a árvore voltará a produzir com abundância.
Um dos pais dessa fileira produz frutos vermelho-escuros com pequenas marcas brancas em formato de estrela. O outro dá origem ao que ela apelida de “a maçã feia”, uma variedade de casca áspera e coloração quase marrom na colheita. Apesar da aparência, a maioria das pessoas considera essa a melhor maçã que já provou.
Por que provar é o único jeito de saber o sabor
Cada semente de maçã carrega um conjunto genético único e imprevisível, mesmo quando vem dos mesmos pais. Isso significa que dois cruzamentos idênticos podem gerar árvores completamente diferentes.
Não existe fórmula química ou teste de laboratório que revele de antemão qual sabor uma árvore vai produzir — a genética das maçãs simplesmente funciona dessa forma, guardando surpresas até o momento em que o fruto cresce e pode ser provado.
Quando a beleza não garante sabor
Nem toda maçã bonita tem bom sabor. Durante as provas, Susan Brown encontra regularmente maçãs com aparência perfeita — cor vermelha e forma impecável — que decepcionam na boca: têm açúcar mas nenhum sabor real.
Ela nota que “a maçã bonita sempre faz isso”, ou seja, a seleção genética para características visuais atraentes não significa necessariamente que resulte em um bom sabor.













