Em uma fazenda de 180 hectares no sul da Austrália, um homem procura insetos entre pés de alface enquanto usa o uniforme da prisão há sete anos. Ele integra o programa de horticultura da Port Lincoln Prison, que usa o trabalho agrícola para qualificar presos de baixa periculosidade.
Identificado apenas como Ryan, o detento cumpre pena desde 2019 e diz que era praticamente analfabeto quando entrou no sistema prisional. Hoje ele já domina leitura e cálculos básicos e concluiu um Certificate IV em Horticultura, com planos de atuar no setor agrícola assim que for solto.
O relato de Ryan resume o objetivo do programa batizado de “prison to plate”: preparar presos para o mercado de trabalho antes da soltura. O governo estadual aponta a iniciativa como parte de uma estratégia mais ampla para reduzir a reincidência criminal.
Da horta ao prato dos restaurantes
Há seis décadas, presos de baixa segurança da unidade cuidam de uma estrutura comercial de hidroponia e de hortas que abastecem comerciantes locais. A propriedade também tem áreas de plantio e pastagens para a criação de animais, administradas em parte pelos internos.
Atualmente, 16 dos 178 detentos da unidade participam do programa de produção de hortaliças, supervisionados de segunda a sexta-feira por um agente da área industrial correcional. Segundo o gerente-geral da prisão, Paul Oldacre, os alimentos cultivados abastecem a cozinha interna, e o excedente é vendido a cafés, restaurantes e hotéis da região há anos.
Retorno financeiro e efeito psicológico
O dinheiro arrecadado com as vendas é reinvestido no orçamento geral do Department for Correctional Services. Oldacre diz que o modelo se sustenta sozinho e se repete ano após ano, em um ciclo de produção e comercialização.
Em entrevista à ABC, o gerente-geral afirmou notar mudanças no comportamento dos participantes: eles saem do programa mais confiantes e emocionalmente fortalecidos. Segundo ele, essa confiança é o que os motiva a buscar emprego depois da soltura.
Meta estadual contra a reincidência
A Austrália do Sul tem a menor taxa de reincidência do país, segundo o ministro do Department of Police and Correctional Services, Michael Brown. O governo estadual trata programas como o de Port Lincoln como parte central da estratégia para conter novos crimes.
Divulgado em agosto, o Department for Correctional Services Strategic Plan para o período de 2026 a 2030 estabelece a meta de diminuir a reincidência nos próximos quatro anos. Oldacre destacou que a unidade já havia cumprido a meta anterior do governo estadual, referente ao ciclo entre 2020 e 2026, e se disse confiante quanto ao novo objetivo.
O plano estratégico reforça a prioridade de oferecer capacitação profissional durante o cumprimento da pena, para que os detentos deixem o sistema prisional com habilidades para o mercado de trabalho. Segundo Oldacre, basta caminhar entre os homens que trabalham na fazenda para perceber o orgulho que sentem do que plantam.













