Governo deu 90 dias para o USDA avaliar regras de identificação obrigatória da origem da carne; discussão ocorre em meio à escassez de gado e pode afetar fornecedores como o Brasil.
Os Estados Unidos deram mais um passo para tentar reorganizar o mercado de carne bovina em meio à escassez de gado e aos preços historicamente elevados da proteína. O presidente Donald Trump determinou que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) avalie a possibilidade de restabelecer uma rotulagem obrigatória do país de origem da carne bovina comercializada no mercado americano.
A determinação faz parte de uma ordem presidencial publicada oficialmente no Federal Register. O governo reconhece no documento que o rebanho bovino americano está no menor nível em aproximadamente 75 anos, enquanto a demanda dos consumidores por carne cresceu quase 10% na última década.
USDA terá 90 dias para avaliar mudança
A decisão não significa que a nova rotulagem já esteja valendo. O governo estabeleceu prazo de 90 dias para que o USDA, em conjunto com o representante comercial dos Estados Unidos, analise as possibilidades legais e regulatórias para tornar obrigatória a identificação da origem da carne.
Também deverá ser feita uma avaliação econômica considerando as atuais condições do mercado. A partir das conclusões, o governo poderá avançar com mudanças dentro de suas competências ou encaminhar propostas ao Congresso.
A discussão é particularmente importante porque acontece justamente quando os Estados Unidos estão mais dependentes da carne importada para complementar sua produção doméstica.
Pouco gado e carne cara pressionam Washington
A nova medida é mais uma resposta à situação enfrentada pela pecuária americana.
Depois de anos de seca, redução de matrizes e custos elevados, o país possui uma das menores disponibilidades de bovinos das últimas décadas. O USDA contabilizou apenas 28,5 milhões de vacas de corte em 1º de julho de 2026, enquanto a produção de bezerros também permanece limitada.
Reconstruir essa oferta levará tempo. Para aumentar o número de matrizes, produtores precisam reter novilhas que poderiam seguir para engorda ou abate. Essas fêmeas ainda precisam entrar em reprodução, produzir bezerros e iniciar um novo ciclo produtivo.
Enquanto isso, as importações continuam sendo uma das alternativas mais rápidas para aumentar a disponibilidade de carne no mercado americano.
Trump também mira concentração dos frigoríficos de carne bovina nos EUA
A rotulagem não é a única frente aberta pelo governo.
Outra ordem presidencial determinou maior fiscalização sobre frigoríficos e compradores de gado por meio do Packers and Stockyards Act. A Casa Branca chama atenção para a concentração da indústria americana: os quatro maiores frigoríficos respondem atualmente por aproximadamente 85% das compras de novilhos e novilhas, segundo dados apresentados pelo governo.
Washington pretende ainda facilitar a atuação de frigoríficos pequenos e regionais e ampliar a concorrência pela compra de animais.
A estratégia tenta resolver uma equação difícil: reduzir o preço da carne para o consumidor sem retirar do pecuarista o incentivo econômico necessário para reconstruir o rebanho.
E o que isso pode significar para a carne brasileira?
É justamente neste ponto que a decisão merece atenção no Brasil.
Os Estados Unidos vêm recorrendo ao mercado internacional para compensar sua produção doméstica limitada, e a participação brasileira cresceu significativamente nos últimos anos.
Uma eventual obrigatoriedade de informar o país de origem não representa automaticamente uma barreira à carne brasileira, mas pode modificar a maneira como o produto importado é apresentado ao consumidor e influenciar estratégias de frigoríficos, distribuidores e redes varejistas.
O impacto dependerá principalmente do formato escolhido pelo USDA, das regras comerciais aplicáveis e do comportamento do consumidor americano.
Há, portanto, uma aparente contradição na estratégia dos Estados Unidos: o país precisa importar mais carne no curto prazo, mas ao mesmo tempo busca fortalecer a identificação da proteína produzida dentro de suas próprias fronteiras.
Para o Brasil, os próximos 90 dias serão importantes. Além de acompanhar preços, importações e a velocidade de recomposição do rebanho americano, o setor exportador terá agora uma nova variável no radar: como os Estados Unidos pretendem identificar a origem da carne que chega ao prato de seus consumidores.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.