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Adoção de sistemas integrados – tais como Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e/ou Integração Lavoura-Floresta (ILF) –chega à marca de 11,5 milhões de hectares no Brasil, aponta pesquisa da Embrapa. Foto: Gabriel Rezende Faria/Divulgação Embrapa
Adoção de sistemas integrados – tais como Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e/ou Integração Lavoura-Floresta (ILF) –chega à marca de 11,5 milhões de hectares no Brasil, aponta pesquisa da Embrapa. Foto: Gabriel Rezende Faria/Divulgação Embrapa

Mix: pecuária, lavoura e froresta chega a 11,5 milhões de hectares

Um estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostra que, atualmente, a área com algum tipo de adoção de sistema ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta), no Brasil, abrange 11,5 milhões de hectares.

Os Estados que se destacam em área de adoção são Mato Grosso do Sul, com dois milhões de hectares; Mato Grosso, com 1,5 milhão; Rio Grande do Sul, 1,4 milhão (que se destacou também como o Estado com maior número de propriedades participantes em alguma das modalidades); Minas Gerais, um milhão; e Santa Catarina, com 680 mil hectares.

Em relação aos produtores rurais com atuação predominante na pecuária e que adotam a estratégia, 83% utilizam o sistema de Integração Lavoura-Pecuária ou ILP; 9% adotam a ILPF; e 7% já aderiram à IPF (Integração Pecuária-Floresta). Entre os produtores de grãos, 99% adotam o sistema Integração Lavoura-Pecuária; 0,4%, ILPF; e 0,2%, aderiram ILF.

Entre os produtores cujo foco predominante é a pecuária, os principais fatores motivadores para a adoção do sistema foram a redução de impactos ambientais, entendida como uma preocupação de adequar ambientalmente a atividade diante das pressões da sociedade e dos mercados e o interesse dos pecuaristas na recuperação das pastagens.

PRODUTORES DE GRÃOS

Entre os produtores de grãos, os principais fatores que justificaram a adoção estão diretamente relacionados ao aumento da produtividade e ao incremento na resiliência dos sistemas produtivos com consequente diminuição dos riscos financeiros na atividade.

Presidente da Rede de Fomento à Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, Paulo Hermann credita a grandiosidade dos números de adoção a duas características, ou seja, aptidão natural dos trópicos para a produção agrícola e capacidade dos produtores brasileiros em absorver novas tecnologias produtivas e sustentáveis.

Hermann destaca que a integração é um sistema complexo, mas produtivo e, por isso, requer um modelo de financiamento orientado a apoiar todas as etapas do sistema de produção e não somente o financiamento de uma única safra para produção de um produto em separado.

Ele ainda ressalta que o crédito para a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta é o mais seguro, entre os aplicados ao campo, “pois mitiga riscos do investimento, uma vez que o sistema ILPF produz ao longo de todo o ano, melhorando o fluxo de caixa da atividade além de promover o incremento de propriedades agronômicas que conferem capacidade adaptativa aos desafios impostos pela mudança do clima”.

Presidente da Embrapa, Maurício Lopes destaca que o Brasil chamará cada vez mais a atenção do mundo pelo potencial de intensificação da sua agricultura. Ele argumenta que produzir de forma mais intensiva se tornou um imperativo frente à necessidade de se ampliar a eficiência de uso dos recursos ambientais – especialmente água, solo e biodiversidade – garantindo serviços ecossistêmicos adequados, como reciclagem de resíduos, manutenção da fertilidade dos solos, recomposição das reservas hídricas, melhoria da atmosfera, dentre outros.

O presidente da Embrapa ressalta que o Brasil é um dos poucos países no mundo com grandes extensões de terras com aptidão para uso agrícola sustentável, produzindo, no mesmo espaço, grãos, proteína animal, fibras, bioenergia e, em futuro próximo, biomassa para uso bioindustrial. Segundo ele, o Brasil poderá se tornar o líder global em intensificação baseada em tecnologias “poupa-recursos”, de baixa emissão de carbono e em ganhos na produtividade da terra.

Para Lopes, os dados revelados pela pesquisa mostram que a agropecuária brasileira está em sintonia com as demandas globais por mitigação e adaptação a realidade de mudanças climáticas, ao novo Código Florestal brasileiro e ao novo padrão de consumo definido por uma sociedade cada vez mais engajada nas causas ambientais.

TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA

Pesquisador da Embrapa Meio Ambiente e integrante da Rede de Fomento ILPF, Ladislau Skorupa salienta que os números revelados pela pesquisa sugerem que há um grande espaço para ações de transferência de tecnologia, no sentido de elevar a qualidade dos sistemas já implantados. Dessa forma, ele acredita que a crescente disseminação de informações sobre os benefícios da estratégia pode ampliar a sinergia que a integração dos componentes lavoura, pecuária e/ou floresta pode proporcionar.

“Em outras palavras, podemos ir muito além, explorando todas as potencialidades da estratégia integrada”, explica.

Skorupa comenta ainda que a estratégia de ILPF é flexível, podendo ser adotada por pequenos, médios e grandes produtores. Conforme explicou, a pesquisa ainda mostrou um cenário de consolidação da ILPF no País, onde os dados gerados poderão orientar as políticas públicas.

A base interpretativa da pesquisa concentrou-se na percepção do produtor, em relação ao que ele acreditava possuir implantado na propriedade. Com isso, as configurações, bem como a dinâmica (Lavoura, Pecuária e Floresta) na adoção não são necessariamente as mesmas preconizadas na pesquisa, transferência de tecnologia ou mesmo na extensão rural.

Essa característica evidencia que é vital implementar ações para a identificação e qualificação da adoção dos sistemas implantados nas diferentes regiões do país.

REDE DE MONITORAMENTO

Por essa razão, a Rede de Fomento ILPF (composta pelas empresas Dow AgroSciences, John Deere, Cocamar, Parker e Syngenta) e a Plataforma ABC (Embrapa) atuam em colaboração visando estabelecer uma rede de monitoramento para a identificação espacial e qualificação da adoção de sistemas ILPF no Brasil.

Esse esforço também poderá contribuir para melhorar a gestão de riscos associados aos impactos negativos da mudança do clima, permitindo, ao longo do tempo, o desenvolvimento mais consistente das atividades do setor e ainda apoiando uma mudança progressiva na trajetória de emissões de gases de efeito estufa. Esse modelo de desenvolvimento sustentável está alinhado com os objetivos tanto do Plano Nacional de Adaptação quanto do Plano ABC.

Para o coordenador da Plataforma ABC e integrante da Rede de Fomento, Celso Manzatto, estabelecer um sistema eficiente de monitoramento é importante para a estratégia de transferência de tecnologia, definida pela Rede, ao proporcionar aos interessados contato com tecnologia via trocas de experiência com outros produtores que já estão em fase mais avançada de adoção.

É importante, além disso, avaliar melhor o desempenho dessas tecnologias no que diz respeito ao padrão de emissões de gases de efeito estufa, ou mesmo recomendando que eventuais ajustes sejam promovidos pelos agricultores no processo produtivo com a finalidade de incrementar sua capacidade adaptativa.

Manzatto salienta que “tão importante quanto as recomendações da pesquisa agrícola, também o aprendizado e as adaptações que os produtores adotantes implementam em suas propriedades são fundamentais para o aperfeiçoamento, e para a evolução dos sistemas ILPF”.

Conforme ressalta Paulo Hermann, presidente da Rede de Fomento à Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, este é um momento ímpar, protagonizando a terceira revolução da agricultura tropical, por meio dos sistemas integrados de produção.

Conforme explica, a primeira foi a utilização do plantio direto, que potencializou o uso da terra, e num segundo momento, os agricultores introduziram o plantio da segunda cultura – a segunda safra anual. Agora será a era da ‘agricultura sem parar’, que potencializa a produção pelo regime de sucessão de culturas. Ele ainda declara que “é chegada a hora de acreditarmos na nossa capacidade de realizarmos grandes feitos, e os números confirmam isso”.

COMPROMISSO DO BRASIL

A Plataforma ABC é uma estrutura coordenada pela Embrapa que envolve várias instituições de pesquisa na área agrícola. Ela é responsável por prover os dados técnicos oficiais tanto de atividade quanto os fatores de emissão de gases de efeito estufa para o setor agrícola.

As informações são utilizadas na avaliação do desenvolvimento das ações do Plano ABC, além de fomentarem dados oficiais do Inventário Nacional de Gases de Efeito Estufa e dos Relatórios de Atualização Bianual preparados para a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.

Com base nos resultados do estudo, a Plataforma ABC reuniu estimativas preliminares referentes ao estoque de carbono no solo promovidas pela estratégia da ILPF. A taxa de adoção linear assumida compreendeu o período entre os anos de 2005 e 2010 e 2010 e 2015.

Coordenador da Plataforma ABC e integrante da Rede de Fomento, Celso Manzatto explica que o sistema ILP responde a cerca de 80% da adoção, e optou-se por realizar uma estimativa conservadora, com um coeficiente de redução das emissões da ordem de uma tonelada de carbono equivalente por hectare por ano.

As estimativas indicaram o estoque da ordem de 35,1 milhões de toneladas de CO2eq (gás carbônico equivalente) para todo o período da pesquisa e da ordem de 21,8 milhões de miligramas de CO2eq, para o período 2010 e 2015, considerando uma área de adoção da ordem de 5,96 milhões de hectares. Com isso, o objetivo estabelecido pelo Plano ABC para 2020, de ampliar em quatro milhões de hectares a adoção de sistemas ILPF, correspondendo ao sequestro de 18-22 milhões de mg de CO2eq, já teria sido alcançado.

Pesquisador da Embrapa na área de mudanças de clima, Gustavo Mozzer explica que o compromisso assumido pelo Brasil envolve mudança continuada do padrão de emissões, “portanto, devemos insistir na sensibilização da sociedade para o enfrentamento dos desafios impostos pela mudança do clima”.

GESTÃO DA INFORMAÇÃO

O Plano Nacional de Adaptação propõe um modelo de gestão da informação que, quando implementado, deverá servir de base para a integração ainda mais eficiente dos esforços de adaptação no setor agrícola brasileiro.

Coordenador da Plataforma ABC, Celso Manzatto diz que, “mantida até 2020 a taxa de incremento de adoção de ILPF, podemos concluir que estamos no caminho para cumprir o objetivo de expansão adicional de adoção desta tecnologia em outros cinco milhões de hectares, conforme apresentado pelo Brasil durante a COP21, em Paris, na forma de suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC)”.

Ainda conforme Manzatto, a adoção de sistemas integrados ambientalmente corretos, capazes de suportar a variabilidade climática, sejam chuvas elevadas, secas prolongadas, altas ou baixas temperaturas é a oportunidade para construção de um modelo de desenvolvimento agrícola verdadeiramente sustentável e resiliente.

Trata-se, portanto, de uma oportunidade para o Brasil, na medida em que irá gerar a consolidação e a abertura de novos mercados para os produtos brasileiros. “Isso também demonstra que a ILPF, uma tecnologia gerada e testada no País, pode vir a se tornar uma referência de intensificação produtiva sustentável no mundo”, diz.

Para o presidente da Embrapa, Maurício Lopes, o planejamento estruturado do Plano ABC está resultando em ganhos sistêmicos de resiliência em propriedades agrícolas. A adoção do ILPF tem gerado benefícios para a capacidade adaptativa dos sistemas produtivos tropicais.

Segundo ele, este resultado é parte da estratégia de enfrentamento da mudança do clima pela agricultura brasileira: “A ação brasileira avança na consolidação da capacidade adaptativa dos seus sistemas agrícolas, lastreada pela gestão do conhecimento e da inovação tecnológica, pela forte ênfase em transferência de tecnologia via parcerias público privadas, e sustentada na visão e empreendedorismo dos nossos agricultores, que percebem e respondem ao tempo de rápidas mudanças em que vivemos”.

Pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária (SP) e integrante da Rede de Fomento de ILPF, Eduardo Assad destaca questões relacionadas à rentabilidade dos sistemas. Ele cita o Programa Novo Campo, em Alta Floresta (MT), que aborda estratégias de pecuária sustentável na Amazônia, com taxa de ocupação de 1,6 animal por hectare, considerando a taxa de ocupação em pastagens degradadas da ordem de 0,75 animal/ha, ou o Projeto Roncador no médio Araguaia, onde a taxa de ocupação é 1,7 cabeças/ha, somente com o melhoramento de pastagens.

Assad ainda destaca um estudo da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV/EESP) – “Intensificação da Pecuária, seus Impactos no Desmatamento Evitado na Produção de Carne e na Redução de Emissões de GEE” –, no qual conclui que, se todo pecuarista no Brasil adotasse algum tipo de estratégia ILP/ILPF, seria possível adicionar mais 130 milhões de cabeças ao rebanho do País.

O pesquisador acredita que a integração produtiva permite aumentar a produção de carne, agregando a possibilidade de certificação internacional, por meio da baixa pegada de carbono. “Em breve, a carne que não for certificada não encontrará acesso nos melhores mercados mundiais,” complementa ele.

INTENSIFICAÇÃO PRODUTIVA

O uso de ILPF na prática resulta em intensificação produtiva. De uma pecuária passamos para uma agropecuária, contribuindo para atender as demandas de alimentos previstas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para 2030 com resiliência e sustentabilidade ambiental por meio da diversificação das paisagens produtivas e liberando áreas para a expansão da agricultura e plantio de florestas.

Coordenador da Plataforma ABC, Celso Manzatto explica que há “uma preocupação dos pecuaristas com o impacto ambiental de sua atividade e este tem sido um fator motivador para a adoção de ILPF”. Ele também destaca que “a ILPF está consolidada e é uma estratégia produtiva adotada por pequenas, médias e grandes propriedades”.

As informações da pesquisa são consideradas fundamentais para orientar políticas públicas e mostrar a efetividade do Programa ABC como impulsionador da adoção de tecnologias resilientes e sustentáveis para a agropecuária brasileira. Os resultados indicam que a tecnologia ILPF é viável e já tem um importante índice de adoção para início do processo.

ENTENDA A PESQUISA

O universo amostral considerado na pesquisa de adoção levou em consideração duas abordagens: a percepção do produtor de grãos que adota ou pretende adotar a atividade pecuária e/ou a produção florestal; e a perspectiva do pecuarista que já explora ou pretende agregar a produção de grãos e/ou florestal na propriedade. As culturas selecionadas para a pesquisa foram o milho da safra de verão e soja.

A pesquisa identificou os principais tipos de sistemas adotados, além de informações complementares que darão apoio às ações de transferência de tecnologia, visando ampliar a adoção. As informações abrangem o perfil das propriedades e dos produtores; nível de tecnificação; vantagens percebidas pelos adotantes que conduziram à decisão ou mesmo à desistência; as fontes de informação nas tomadas de decisão para a adoção; entraves e perspectivas.

Foram realizadas 7.909 entrevistas, compreendendo 3.105 pecuaristas de leite e corte em todos os estados; 2.958 produtores de soja nos Estados da Bahia, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Piauí, Paraná, Rondônia, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins; e 1.846 produtores de milho nos Estados da Bahia, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

Fontes: Embrapa – Unidades Meio Ambiente (SP) e de Arroz e Feijão (GO)

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