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Com a tecnologia já consolidada na pecuária de corte brasileira, o que podemos fazer para aumentar de 50% para 80% a prenhez na IATF.

Números recentes do Prof. Pietro Baruselli, uma das maiores autoridades do assunto no Brasil, mostraram que a tecnologia de Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) já impacta mais de R$ 3,5 bilhões no Brasil, segundo o professor é possível estimar que cada R$ 1,00 investido na tecnologia de IATF gera R$ 4,50 de retorno para a cadeia de produção de carne e de leite no Brasil. Com base nos dados de 2018, calcula-se que a IATF movimentou R$ 796 milhões para a sua execução no Brasil. As empresas de venda de sêmen e fármacos arrecadam 66,6% desse montante. A prestação de serviço médico veterinário responde pelos outros 33,3% do faturamento, totalizando R$ 265,2 milhões, considerando o custo de mão-de-obra de R$ 20 por animal sincronizado para IATF.

Com o advento da IATF veio da necessidade de ser mais produtivo, Antônio Chaker, coordenador do Inttegra, diz que muitos produtores focam em objetivos errados e que é necessário ter visão para seguir em frente, disse também que existem três números básicos para alcançar lucratividade na pecuária de corte:

  • Mínimo 0,55kg de GMD (ganho médio diário) em machos;
  • Acima de 150kg de bezerro desmamado por vaca exposta;
  • E os custos devem ser menos de 70% do valor de venda da arroba.
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Fonte: GERAR / Zoetis

Segundo dados do GERAR (acima citados) a média brasileira de prenhez na IATF é de 51%, o benchmarking ainda mostra que as fazendas TOP na reprodução podem chegar até 76% de prenhez. É evidenciada uma grande variação entre técnicos, entre fazendas, entre raças zebuínas, taurinas e cruzadas e entre touros, evidenciando resultados acima de 60% de prenhez em alguns grupos. Olhando para esses números, podemos afirmar que ao final da estação de monta muitas vacas ficarão vazias, à partir desse cenário, fica a pergunta:

O que podemos fazer para melhorar os números da IATF?

Através de especialistas e médicos veterinários listamos abaixo quais são os dez maiores gargalos da tecnologia para que você possa ajustar e conseguir aumentar seus índices.

1. Vacinas reprodutivas (sanidade)

A eficiência reprodutiva é um fator de grande impacto no retorno econômico da pecuária. Sabe-se que doenças infecciosas são responsáveis por cerca de 40 a 50 % das causas de perdas de gestação, sendo que a rinotraqueíte infecciosa bovina (IBR), a diarréia viral bovina (BVD) e a leptospirose vêm sendo associadas com estas desordens reprodutivas.

As doenças podem ser causadas por diferentes agentes infecciosos resultando em prejuízos diretos na reprodução, como a ocorrência de abortos, morte e reabsorção embrionária, nascimento de terneiros fracos, resultando em aumento do intervalo entre partos e diminuindo a rentabilidade da atividade. Para o controle dessas enfermidades, o uso de vacinas reprodutivas é a alternativa mais viável para proteger os rebanhos e evitar os problemas de perdas de gestação. As vacinas atuam induzindo imunidade específica somente contra determinados agentes que fazem parte de sua composição, controlando a disseminação destes agentes no rebanho.

2. Suplementar matrizes (Nutrição)

O bom manejo nutricional das vacas é imprescindível para a capacidade reprodutiva do rebanho, sendo que a melhoria alimentar reduziria o intervalo entre partos, mas a falta de proteína e energia na dieta promoveriam um longo período de anestro pós-parto. Entre os efeitos da nutrição das vacas na reprodução, o balanço energético é um dos fatores mais importantes, que deve ser levado em conta pelos pecuaristas.

MGA Premix aumenta eficiência de programas de IATF

MGA Premix é um granulado contendo progestágeno (hormônio reprodutivo), misturado ao sal mineral. Produto de administração oral para sincronização de cio, MGA Premix incrementa a eficiência reprodutiva de vacas de corte. Recomendado inicialmente para aumentar a eficiência reprodutiva de vacas de corte em monta natural, o produto MGA Premix acaba de ter eficácia comprovada também para animais em Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF).

No gráfico acima, é possível observar os resultados positivos obtidos com o uso de MGA Premix: a porcentagem de vacas inseminadas no cio após a IATF foi de 41,5% para o grupo que recebeu MGA Premix, contra 26% do grupo controle. Além disso, houve uma maior concentração do cio, ou seja, mais vacas foram inseminadas em um menor período de tempo.

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Foto: Nelore Mocho Boticão

3. Seleção de matrizes

É muito importante que as matrizes sejam de boa genética, precocidade sexual é outro requisito que tem sido cada vez mais buscado na pecuária de corte brasileira. Outro ponto importante é o descarte de matrizes ao final da estação de monta, é crucial que as vacas que não emprenharam sejam removidas da roda de reprodução da sua propriedade.

Além da idade do animal, o descarte deve considerar vários critérios como: falha reprodutiva, temperamento da vaca e, no caso de se trabalhar com inseminação artificial, deve-se avaliar se o animal tem uma condição ginecológica favorável à técnica. Normalmente, o descarte é feito depois do diagnóstico de gestação, que detecta as vacas que falharam. Então, faz-se a análise do histórico do animal, se já falhou outras vezes. Tem propriedade que a vaca falha um ano e já é descartada mesmo sendo jovem ainda, o que é chamado de pressão de seleção.

A reposição anual do rebanho de matrizes é importante para manter a produtividade nas propriedades rurais, com o descarte dos animais improdutivos, que falharam em mais de uma estação de monta, e os considerados “velhos”, ou seja, perto de diminuir a fertilidade. A recomendação é que todo ano sejam repostos 30% dos animais. 

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Touro Backup / Fonte: CRV Lagoa

4. Usar touros que emprenham mais

As grandes centrais de inseminação já criaram um sistema para avaliar quais são os touros que emprenham mais na IATF, exemplos como o IATFmax, IFert e Concept Plus estão bem difundidos entre os pecuaristas brasileiros. Com eles, é possível predizer o potencial de fertilidade de reprodutores de corte dentro de programas de Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF), identifica com precisão touros com melhores taxas de concepção, por análise detalhada de informações de prenhez à campo. Todos os reprodutores são comparados entre si, com critérios estatísticos robustos, capazes de ajustar o potencial de fertilidade de todos os reprodutores dentro de uma única base de dados (contemporaneidade). Os resultados são de alta confiabilidade e facilmente percebidos no campo.

5. Cuidados com o sêmen congelado

O manuseio adequado do sêmen congelado é essencial para manter ótimos resultados nos programas de inseminação artificial, tanto com sêmen sexado como com o sêmen convencional. Para evitar manuseios desnecessários, deve ser feito um inventário detalhado do sêmen, para que as palhetas possam ser localizadas facilmente e retiradas rapidamente do botijão, evitando exposição demasiada à temperatura ambiente.

Por que devo evitar a exposição do sêmen à temperatura ambiente? Porque as alterações causadas nos espermatozoides, tanto na motilidade como nas membranas citoplasmáticas, ocorrem acima de 79ºC negativos. Essas lesões não voltam ao normal depois que o sêmen retorna para a temperatura do nitrogênio líquido. A palheta fina é mais sensível e manuseios errados provocam alterações na temperatura interna da palheta, com perda na qualidade e redução da fertilidade.

6. Consultoria técnica especializada

O sucesso da reprodução animal em bovinos está diretamente ligado à capacitação profissional, cuidados diários, dedicação, habilidade de detectar e solucionar problemas com rapidez. Cabe a estes profissionais proporcionar o aumento da produção e o melhoramento genético, por meio da realização de técnicas que objetivem maior eficiência, alcançando bons resultados para toda cadeia produtiva.

O papel do consultor é orientar o produtor nas tomadas de decisões, indicar tecnologias dentro da realidade da propriedade em busca de maior lucratividade, observando o melhor custo x benefício. Por que recorrer à assistência técnica especializada?

Uma propriedade rural é um negócio, que pode gerar lucros ou prejuízos. Portanto, deve ser administrada de forma empresarial, o produtor deve a todo momento ter visão empresarial para conseguir atingir rentabilidade adequada. Nesse cenário, a assistência técnica é fundamental. Todavia, o produtor não pode, em hipótese alguma, visualizar a assistência técnica como um custo. É um investimento para melhoria da produtividade e consequente competitividade no mercado.

Outro ponto crucial que a consultoria técnica especializada trará consigo é a otimização das operações, processos e manejos da parte reprodutiva da sua fazenda. Os manuseio de botijões de nitrogênio líquido, descongelamento do sêmen e preparo dos materiais para inseminação, contenção e higiene na preparação da fêmea e material utilizado, passagem do aplicador de sêmen em vacas e treinamento do inseminador que deverá ser qualificado para as operações designadas.

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Foto: Adriane Zart

7. Manejo e bem-estar animal

Há várias pesquisas em curso e algumas já mostram dados expressivos da diferença na fertilidade de fêmeas como diferentes tipos de comportamento durante o manejo. Importante ressaltar que o problema não está na fertilidade da fêmea, nos estudos que apresentaremos, mostra claramente a diferença de animais calmos e reativos.

Os dados são claros, o comportamento dos animais no dia do protocolo de IATF impacta nos resultados de prenhes, é preciso identificar esses gargalos e trabalhar para educar as pessoas que estão a frente do manejo para que os animais não fiquem nervosos e consequentemente irá melhorar os resultados. Interessantemente, doadoras que receberam mais estímulo de voz, sofreram mais acidentes e foram manejadas por mais tempo ficaram estressadas, expressando uma elevada concentração de cortisol. Essas fêmeas estressadas tiveram uma redução de 19% na viabilidade embrionária comparado com as doadoras não estressadas. Desta forma, um bem-estar deficitário, causando estresse, pode interferir negativamente na eficiência reprodutiva de bovinos, por meio de uma supressão, via cortisol, do eixo hipotálamo-hipófise-gônada (HHG), retardando a liberação de estradiol e diminuindo a frequência dos pulsos de GnRH e LH.

“É fundamental você se preocupar com o bem-estar animal, na verdade nós empregamos muitas biotecnologias e estratégias para melhorar a produção mas as vezes nos esquecemos do básico. Sabemos que os animais herdam o comportamento devido ao ambiente que viveu, temos vários resultados de pesquisas que mostram o impacto negativo de um animal mal manejado dentro da fazenda, e ressalto, toda iniciativa que visa um melhor manejo é valido, vemos resultados em nosso dia-a-dia, quando você entra no tronco para inseminar uma vaca e sai limpo quer dizer que o animal entrou calmamente no brete e consequentemente a chance desse animal emprenhar é muito maior” – Dr. Guilherme Pugliesi (USP).

Confira o estudo completo clicando aqui.

8. Estrutura física adequada (curral e tronco de contenção)

Um curral e tronco de contenção que facilite o manejo é essencial para que a fêmea esteja contida adequadamente, onde o inseminador tenha tranquilidade para executar as operações que são necessárias durante os protocolos reprodutivos, principalmente os que envolvem implantes e aplicação de medicamentos.

Além da atenção à higiene e manejo é possível afirmar que o uso de um equipamento de contenção individual efetivamente melhorará os processos, a aplicação dos hormônios será mais eficaz tendo em vista que a vaca estará imobilizada desta forma é impossível seguir esses passos em um tronco coletivo pois o animal não fica parado, além dos riscos ao operador com cabeçadas e chifradas que o animal posso vir a dar, por isso o uso de tronco (brete) fará o trabalho do colaborador mais ágil e eficaz diminuindo os riscos dele e do animal.

9. Hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH)

O uso de GnRH e seus análogos tem se mostrado uma maneira eficaz de melhorar as taxas de prenhez dos rebanhos onde são usados. Sua aplicação no momento da inseminação artificial tem por objetivo induzir a ovulação no momento apropriado além de estimular a luteinização, aumentando a chance de fertilização. São muitos trabalhos realizados o que torna evidente a influência do uso de um análogo de GnRH no estro e na fertilidade de vacas de corte e de leite.

O GnRH é produzido pelo hipotálamo, uma estrutura presente no sistema nervoso central. Sua principal função é o estímulo da liberação de gonadotrofina (FSH e LH) pela hipófise. Uma estratégia objetiva aumentar a P4 no PC pela aplicação de um análogo do hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH) no quinto dia após a ovulação (D5), o qual provoca a liberação de hormônio luteinizante (LH) endógeno para ovular o folículo dominante (FD) da 1ª onda de crescimento folicular e gerar um corpo lúteo (CL) acessório, capaz de secretar progesterona adicional durante o PC.

Estudos apresentados apontam aumento na taxa de prenhez em animais sem prévia sincronização, os quais foram aplicados GnRH no momento da inseminação, em comparação aos animais do grupo controle (42% x 14%), em alguns casos apresentaram diferenças numéricas nas taxas de prenhez dos grupos tratados com GnRH da ordem de 5,1% , 5,82% e 7% respectivamente, quando comparados aos grupos controle.

10. Avaliação Laboratorial de Índice de Fertilidade em Touros (ALIF)

Nova análise laboratorial desenvolvida por brasileiros avalia diferença na qualidade de sêmen e gera aumento de prenhez em 8,2% na IATF. Com a metodologia estabelecida, o método ALIF é capaz de identificar o potencial de fertilidade de touros por meio da análise do sêmen para uso em IATF. Essa avaliação consegue predizer com altíssima confiança (97%), o potencial de prenhez de cada partida analisada, onde pode ocorrer variações consideráveis de fertilidade, mesmo estando o sêmen dentro dos padrões mínimos qualitativos de uma análise simples de pós descongelamento. Os resultados são distribuídos em 4 faixas, podendo ser inferior, regular, superior ou elite . Os resultados das análises são bem conclusivas, touros com partidas ALIF superior ou elite tem maior probabilidade de atingir taxas de prenhez acima da média do rebanho.

Em testes à campo (fazendas com gado comercial) foi possível detectar uma diferença em torno de 16% entre as partidas classificadas como elite e inferior. No gráfico abaixo a porcentagem média de prenhez de matrizes Nelore em IATF, que receberam sêmen nas quatro classificações de touros Angus e Nelore. No total, foram mais de 1.437 inseminações artificiais, com 14 partidas de 7 touros, em 4 fazendas no Brasil e Paraguai.

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Foto: Nelore RG

Para concluir, Chaker: “A pecuária moderna é feita nos detalhes. Antigamente, quanto tínhamos um outro cenário, até existia uma regra que ‘pecuária era segura e não dava prejuízo’. Tendo isso como base, não há como liderar um negócio sem mensuração, sem agrupar as métricas financeiras, produtivas, reprodutivas e dados como: peso, mortalidade, lotação, fertilidade, perda pré-parto, taxa de desmame, relação de desmame e quilo de bezerro desmamado por vaca exposta”.

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Fundador e editor do Compre Rural, pós graduado em Consultoria Web, especialista SEO e aspirante a produtor rural.