Projeto-piloto previsto para novembro de 2026 exigirá a participação de proprietários públicos e privados no controle da espécie invasora em uma região de Nova Gales do Sul
Os porcos selvagens na Austrália voltaram a preocupar produtores e autoridades após uma estimativa indicar que a população desses animais pode ter alcançado aproximadamente 5 milhões de exemplares. Em resposta ao avanço da espécie, o governo de Nova Gales do Sul prepara uma operação em Walgett que exigirá a participação conjunta de proprietários rurais e gestores de terras públicas.
A iniciativa está prevista para começar em novembro de 2026 e será restrita à região escolhida para o projeto-piloto. Portanto, não existe, até o momento, uma determinação obrigando todos os proprietários de terras australianos a aderirem ao controle. A proposta ganhou repercussão após ser divulgada pelo jornal The Australian, em 3 de agosto. Segundo a publicação, o governo pretende utilizar a legislação estadual de biossegurança para impedir que propriedades sem manejo se transformem em áreas de reprodução e abrigo para os animais.
Porcos selvagens na Austrália provocam perdas milionárias
A presença da espécie invasora representa um problema econômico, ambiental e sanitário. Dados da Australian Bureau of Agricultural and Resource Economics and Sciences, a ABARES, estimam que os animais provoquem mais de 156 milhões de dólares australianos por ano em despesas de controle e perdas para a agropecuária.
Desse total, aproximadamente A$ 110 milhões correspondem aos esforços realizados pelos produtores para controlar os animais, enquanto cerca de A$ 46 milhões estão relacionados aos prejuízos que permanecem mesmo após o manejo. O levantamento não considera integralmente danos ambientais, sociais ou causados à infraestrutura, o que significa que o impacto geral pode ser maior.
Nas propriedades rurais, os porcos revolvem o solo, destroem plantações, contaminam fontes de água e competem por alimento com espécies nativas. Eles também podem atacar pequenos animais e consumir ovos de tartarugas, além de atuar como possíveis transmissores de enfermidades capazes de atingir rebanhos comerciais.
Walgett terá operação coordenada entre propriedades
O projeto prevê que as ações sejam realizadas simultaneamente em diferentes áreas de Walgett. Entre os métodos considerados estão distribuição de iscas, instalação de armadilhas, operações terrestres e abate aéreo.
A estratégia busca solucionar uma dificuldade enfrentada pelos produtores: quando apenas algumas propriedades executam o controle, os animais podem se refugiar em áreas vizinhas e retornar posteriormente. Por isso, a operação deverá abranger terras privadas, propriedades públicas e áreas administradas por proprietários ausentes.
A legislação de Nova Gales do Sul já estabelece uma obrigação geral de biossegurança, segundo a qual ocupantes e responsáveis por terras devem prevenir, eliminar ou minimizar riscos relacionados a espécies invasoras. Em Walgett, porém, essa responsabilidade deverá ser convertida em um plano operacional específico, com medidas definidas pelas autoridades.
De acordo com as informações divulgadas pelo The Australian, pessoas ou empresas que impeçam as operações poderão sofrer sanções previstas na legislação estadual. Antes da implantação, o governo pretende consultar produtores e demais envolvidos para definir como o trabalho será executado.
Estimativa de 5 milhões não representa contagem oficial
Apesar da repercussão do número, a presença de 5 milhões de porcos selvagens na Austrália deve ser apresentada como uma estimativa jornalística, e não como resultado de um censo nacional.
O mapa mais recente da distribuição da espécie, publicado pela ABARES em parceria com instituições científicas australianas, indica as áreas de ocorrência e a abundância relativa dos animais, mas não calcula a população absoluta existente no país.
A dificuldade de medição também aparece em documentos do Parlamento de Nova Gales do Sul. Em junho de 2026, um questionamento parlamentar mencionou estimativas entre 5 milhões e 26 milhões de animais apenas no estado, evidenciando a grande diferença entre os números utilizados no debate público.
Essas oscilações acontecem porque a população pode crescer ou diminuir rapidamente, dependendo da chuva, da disponibilidade de alimento, das secas e da intensidade das operações de controle. Dessa forma, o sucesso das políticas públicas não deve ser medido apenas pelo total de animais abatidos, mas também pela redução dos danos agrícolas e ambientais.
Nova Gales do Sul amplia investimento no controle
Walgett não será a primeira ação do governo estadual contra a espécie. Em março de 2026, Nova Gales do Sul informou que aproximadamente 240 mil porcos selvagens foram controlados nos três anos anteriores.
O programa recebeu investimento de A$ 40 milhões e combinou abate aéreo, fornecimento gratuito de iscas, treinamento técnico e formação de grupos de propriedades vizinhas.
Mesmo com esse volume de operações, a capacidade reprodutiva dos animais dificulta uma redução duradoura. A dispersão por extensas áreas rurais também exige ações contínuas, já que intervenções isoladas costumam apenas deslocar o problema para outras localidades.
Projeto poderá servir de referência para outras regiões
A experiência de Walgett será acompanhada como um teste sobre a eficácia de operações obrigatórias realizadas além dos limites individuais das propriedades.
O desafio será combinar fiscalização, apoio técnico e participação dos produtores sem transferir toda a responsabilidade financeira para quem já enfrenta perdas provocadas pelos animais.
Caso o modelo consiga reduzir os danos e evitar a formação de áreas de refúgio, ele poderá influenciar futuras políticas de controle de porcos selvagens na Austrália. Por enquanto, entretanto, a obrigação permanece limitada ao projeto-piloto de Walgett, em Nova Gales do Sul.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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