Tarifa norte-americana acelera busca por novos compradores, enquanto governo aposta em mercados europeus, redução de custos e maior consumo interno
A nova tarifa aplicada pelos Estados Unidos a parte dos produtos brasileiros colocou o pescado brasileiro no centro de uma discussão estratégica: como reduzir a dependência de um único comprador e ampliar a presença do setor em outros mercados. Hoje, cerca de metade das exportações nacionais de pescado tem como destino o mercado norte-americano, o que aumenta a exposição da cadeia a mudanças tarifárias e comerciais.
A resposta do governo tem sido ampliar o número de países habilitados a receber produtos brasileiros e acelerar negociações com mercados considerados prioritários. Desde 2023, mais de 19 novos destinos foram abertos para itens da pesca e da aquicultura.
Pescado brasileiro mira novos mercados
Entre as principais frentes estão a União Europeia e o Reino Unido, mercados com elevado consumo de pescado e potencial para absorver diferentes produtos brasileiros.
As tratativas com o bloco europeu avançaram recentemente com uma missão técnica realizada no Brasil. A abertura desses mercados pode oferecer novas alternativas para frigoríficos, produtores aquícolas e empresas exportadoras que hoje concentram grande parte das vendas nos Estados Unidos.
A diversificação também reduz riscos. Em um cenário de aumento de tarifas, restrições sanitárias ou mudanças regulatórias, contar com mais compradores internacionais amplia a capacidade de redirecionar embarques.
Tarifa não atinge os principais produtos exportados
Embora a nova cobrança norte-americana tenha gerado preocupação, grande parte da pauta exportadora ficou fora da medida.
Segundo dados do Ministério da Pesca e Aquicultura, os itens isentos corresponderam a 89,2% do valor exportado aos Estados Unidos em 2025 e a 93,6% entre janeiro e junho de 2026.
Entre os produtos preservados estão categorias relevantes para o setor, como tilápias, atuns, espadarte e lagostas congeladas.
Também ficaram de fora espécies como albacoras, cavalinhas, corvina, pescadas, pargo, peixe-sapo, garoupas, tainhas e cherne-poveiro, dependendo da forma de apresentação e classificação comercial.
Quais produtos serão taxados pelos Estados Unidos
A tarifa de 25% alcança parte dos produtos da cadeia pesqueira brasileira.
Entre os itens afetados estão alguns filés de tilápia congelados, outros filés de peixe, carnes de pescado frescas, refrigeradas ou congeladas e determinadas categorias de lagosta.
A cobrança também inclui algumas algas destinadas à alimentação humana, derivados de peixe não destinados ao consumo humano e produtos enquadrados em classificações específicas da Nomenclatura Comum do Mercosul.
O impacto, portanto, varia conforme o produto exportado e a posição tarifária utilizada.
Consumo interno entra no radar do setor
Além de buscar compradores no exterior, o governo pretende estimular o consumo doméstico de pescado.
A média nacional está em torno de 12 quilos por habitante ao ano, abaixo da média mundial, estimada em cerca de 20 quilos.
Em regiões como Centro-Oeste, Sul e Sudeste, o consumo é ainda menor e gira em torno de 5 quilos por pessoa ao ano.
A estratégia é ampliar a presença do pescado na alimentação cotidiana e reduzir a concentração das vendas em períodos tradicionais, como Semana Santa e Natal.
Esse movimento pode criar uma demanda mais estável para produtores e indústrias, além de diminuir a dependência do mercado externo.
Custo de produção pode cair até 6%
Outra medida apontada pelo governo está relacionada ao custo da alimentação na aquicultura.
A isonomia tributária aplicada à ração usada na produção aquícola pode gerar uma redução de até 6% nos custos de produção, de acordo com a estimativa oficial.
Como a alimentação representa uma parcela importante das despesas na piscicultura, a mudança pode melhorar a competitividade dos produtores.
A expectativa é que parte desse ganho também seja repassada ao consumidor, ajudando a tornar o pescado mais acessível no mercado interno.
Pescado brasileiro tenta reduzir riscos comerciais
A nova tarifa dos Estados Unidos não interrompe as exportações brasileiras, mas reforça um problema conhecido pelo setor: a forte concentração das vendas em um único mercado.
A abertura de novos destinos, o fortalecimento do consumo interno e a redução dos custos de produção formam agora uma estratégia conjunta para tornar a cadeia mais resistente a mudanças no comércio internacional.
O pescado brasileiro continua tendo os Estados Unidos como um mercado relevante, mas o movimento atual aponta para uma presença mais diversificada no exterior e uma base de consumo mais forte dentro do próprio país.