Calcário faz diferença na braquiária? Veja quando a calagem vale a pena

A correção da acidez pode favorecer o desenvolvimento da pastagem, mas o resultado depende das condições do solo, da cultivar utilizada e do nível de manejo adotado na propriedade

Aplicar calcário na braquiária pode ser uma estratégia importante para melhorar o ambiente do solo, mas nem sempre isso se traduz automaticamente em mais capim no pasto. Embora a calagem seja amplamente utilizada para corrigir a acidez, espécies do gênero Brachiaria — atualmente também classificadas em parte como Urochloa — apresentam relativa tolerância a solos ácidos, o que torna essencial avaliar cada área antes de definir a necessidade e a dose do corretivo.

Na prática, a decisão depende menos da aparência da pastagem e mais do que acontece abaixo dela. pH, presença de alumínio, disponibilidade de cálcio e magnésio e saturação por bases estão entre os indicadores capazes de mostrar se a acidez realmente está limitando o desenvolvimento das plantas.

Calcário na braquiária deve começar pela análise do solo

Uma pastagem com baixo vigor nem sempre está sofrendo diretamente com a acidez. Falta de nutrientes, compactação, manejo inadequado, déficit hídrico e desgaste da fertilidade também podem reduzir a produção.

Por isso, aplicar calcário sem diagnóstico pode simplesmente trocar um problema agronômico por um gasto desnecessário.

A análise de solo permite entender quais limitações estão presentes e qual tipo de correção faz sentido. Quando a acidez está elevada, a calagem pode reduzir os efeitos do alumínio tóxico e elevar a disponibilidade de cálcio e magnésio, criando condições mais favoráveis para o desenvolvimento das raízes.

Com um sistema radicular melhor distribuído, a forrageira tende a explorar uma faixa maior do solo em busca de água e nutrientes.

Braquiária não responde da mesma forma em todos os solos

A tolerância à acidez é uma das características que ajudaram a braquiária a ganhar espaço na pecuária tropical brasileira. Isso também explica por que aumentar indiscriminadamente os níveis de correção do solo não garante resposta proporcional em produtividade.

Em experimento da Embrapa Acre com Brachiaria brizantha cv. Piatã, foram avaliadas diferentes doses de calcário dolomítico. Embora a aplicação tenha elevado o pH, o cálcio, o magnésio e a saturação por bases, além de reduzir a presença de alumínio, o estabelecimento da pastagem não apresentou melhora significativa nas condições avaliadas.

Segundo os pesquisadores, solos que já apresentavam saturação por bases acima de aproximadamente 30%, acompanhada de teores adequados de cálcio e magnésio, permitiram bom estabelecimento da cultivar naquele ambiente.

O resultado não deve ser interpretado como uma recomendação fixa para todo o país. Pelo contrário: ele evidencia que a necessidade de calagem muda conforme o solo, a região, a cultivar e a expectativa de produção.

Quando a calagem tende a trazer maior resposta

O benefício costuma ser mais evidente quando o solo apresenta limitações químicas capazes de prejudicar o crescimento da planta.

Em áreas com alta saturação por alumínio, baixa presença de cálcio e magnésio ou níveis de saturação por bases inferiores aos recomendados para o sistema, a correção pode melhorar significativamente as condições para o desenvolvimento da forrageira.

Um estudo realizado com capim-marandu encontrou aumento de matéria seca com a elevação da saturação por bases até uma faixa próxima de 43%, dentro das condições específicas do experimento.

Outros trabalhos, entretanto, mostram que elevar ainda mais esse indicador nem sempre aumenta a produção. Em pesquisa da Embrapa Gado de Corte, por exemplo, aumentar a saturação por bases para faixas superiores não resultou em ganho significativo de matéria seca em determinadas condições, enquanto a disponibilidade de fósforo teve influência maior sobre o desenvolvimento das plantas.

Esse comportamento revela um ponto importante do manejo de pastagens: a produtividade é resultado do equilíbrio da fertilidade, e não da correção isolada de um único indicador.

Sistemas intensivos exigem acompanhamento mais frequente

Em áreas submetidas a maior pressão produtiva, a necessidade de acompanhamento do solo cresce.

Adubações nitrogenadas frequentes, elevada retirada de nutrientes e ciclos intensivos de pastejo podem alterar gradualmente as condições químicas da área. Com o passar do tempo, mesmo uma pastagem inicialmente equilibrada pode apresentar avanço da acidificação.

Pesquisas conduzidas pela Embrapa Pecuária Sudeste em áreas de Brachiaria decumbens mostraram que o uso prolongado de fertilizantes nitrogenados pode contribuir para uma redução expressiva do pH do solo.

Nesses sistemas, a análise periódica ganha importância não apenas para definir a aplicação de calcário, mas também para acompanhar o comportamento da fertilidade ao longo dos ciclos produtivos.

Qualidade do calcário também entra na conta

Escolher o corretivo apenas pelo preço por tonelada pode ser um erro.

Um dos principais parâmetros comerciais é o Poder Relativo de Neutralização Total, o PRNT, indicador que representa a eficiência do produto na neutralização da acidez do solo.

Dois calcários vendidos pelo mesmo preço podem exigir quantidades diferentes para atingir o mesmo efeito agronômico.

Em exemplo técnico apresentado pela Embrapa, uma recomendação equivalente a 4,32 toneladas por hectare com um produto de PRNT 100% sobe para aproximadamente 5,40 toneladas por hectare quando o PRNT é de 80%.

Além do PRNT, a presença de cálcio, magnésio, o custo do transporte e as características do produto também devem ser avaliados antes da compra.

Aplicação em pastagem formada requer outro planejamento

Quando a área ainda será implantada ou completamente reformada, existe a possibilidade de incorporar o calcário ao solo durante o preparo.

Em pastagens já estabelecidas, a situação muda. Revolver o solo pode comprometer a cobertura existente, fazendo com que a aplicação superficial seja uma alternativa mais compatível com a manutenção da área.

Nesse cenário, o efeito do corretivo ocorre de maneira diferente e depende, entre outros fatores, da umidade do solo e das condições climáticas após a aplicação.

Como a reação do calcário depende da presença de água, o calendário da propriedade e o regime de chuvas precisam fazer parte do planejamento.

Excesso também pode comprometer o manejo

A calagem não deve ser tratada como uma operação em que doses maiores representam necessariamente melhores resultados.

Quando o solo recebe mais corretivo do que precisa, o pH pode atingir níveis acima do adequado para o sistema, alterando a disponibilidade de determinados nutrientes.

Micronutrientes como ferro, manganês, cobre e zinco podem se tornar menos disponíveis em condições de alcalinização excessiva. Além disso, há um efeito econômico direto: dinheiro é aplicado em um insumo que não necessariamente trará retorno em produção de forragem.

Calcário na braquiária vale a pena quando existe uma limitação real

O uso de calcário na braquiária tende a ser mais eficiente quando faz parte de uma estratégia de manejo baseada em diagnóstico.

Se a análise indicar que a acidez está prejudicando as condições químicas do solo, a calagem pode ajudar a criar um ambiente mais favorável para o desenvolvimento da pastagem. Por outro lado, quando os níveis já estão adequados, buscar correções adicionais pode não resultar no ganho esperado.

A pergunta, portanto, não deveria ser simplesmente quanto calcário aplicar, mas qual fator está impedindo aquela pastagem de produzir mais.

É essa resposta que permite transformar a calagem de uma prática automática em uma decisão técnica e econômica.

VEJA MAIS:

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias

Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
LEIA TAMBÉM