Projeto da Embrapa, com apoio internacional, busca resgatar e preservar variedades tradicionais de milho, feijão, arroz e outros alimentos, protegendo um patrimônio genético essencial para o futuro da agricultura brasileira.
Parte da diversidade agrícola brasileira está preservada longe dos grandes centros de pesquisa, em pequenas propriedades onde famílias rurais guardam sementes de uma safra para outra. São variedades de milho, feijão, arroz e outros alimentos que atravessaram gerações, desenvolveram características próprias e, em alguns casos, correm o risco de desaparecer dos sistemas de cultivo. Agora, uma iniciativa da Embrapa, com apoio de um fundo internacional ligado à Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), pretende fortalecer a conservação desse patrimônio genético.
O trabalho envolve o projeto ConservaIn, que integra agricultores familiares, povos indígenas, comunidades tradicionais e pesquisadores em uma rede que abrange dez estados brasileiros e cinco biomas. A previsão é beneficiar diretamente pelo menos 400 famílias e 20 comunidades, conectando as sementes preservadas nas propriedades rurais aos bancos de germoplasma mantidos pela pesquisa pública.
Com orçamento internacional aprovado de US$ 198.716, aproximadamente R$ 1 milhão, a iniciativa ganhou destaque no portal da FAO em outubro de 2026. Não se trata, porém, de um projeto criado agora: o registro internacional aponta início em 2023, e o financiamento fortalece uma rede de conservação que a Embrapa já desenvolvia havia anos.
O objetivo vai além de armazenar sementes. A proposta é evitar que variedades tradicionalmente cultivadas deixem de existir nas comunidades, preservar características genéticas importantes para a agricultura e ampliar as possibilidades de adaptação da produção de alimentos às mudanças climáticas.
Por que o Brasil está tentando proteger essas sementes?
A agricultura brasileira é reconhecida mundialmente pela produtividade e pelo avanço tecnológico. Entretanto, a expansão de sistemas agrícolas cada vez mais especializados também tornou estratégica a conservação de variedades que não necessariamente apresentam o maior rendimento comercial, mas carregam características importantes.
É o caso das chamadas sementes crioulas, desenvolvidas, selecionadas e multiplicadas por sucessivas gerações de agricultores.
Uma variedade de milho mantida durante décadas por famílias de uma determinada região, por exemplo, pode apresentar características relacionadas ao ciclo de desenvolvimento, à adaptação ao solo, à tolerância a determinados estresses ambientais ou à qualidade culinária.
Essas características não significam que toda semente crioula seja mais produtiva ou resistente do que uma cultivar comercial. Seu valor está na diversidade genética que oferece alternativas para a pesquisa, para o melhoramento de plantas e para os sistemas produtivos locais.
O risco de desaparecimento ocorre quando determinada variedade deixa de ser cultivada, perde seus guardiões ou sofre alterações que comprometem suas características originais. Isso não significa necessariamente a extinção de uma espécie inteira, mas pode representar a perda definitiva de uma combinação genética construída ao longo de muitas gerações.
Para entender a importância desse patrimônio, o Compre Rural já explicou o que são sementes crioulas e por que elas são importantes.
Embrapa conecta sementes das propriedades rurais aos bancos genéticos
Um dos diferenciais do ConservaIn é aproximar duas estratégias de preservação que se complementam.
A primeira ocorre diretamente nas comunidades, onde os agricultores continuam cultivando, selecionando e multiplicando suas sementes. É a chamada conservação in situ ou on farm, dependendo do ambiente e da forma de manejo.
A segunda acontece nos bancos de germoplasma, estruturas científicas capazes de armazenar sementes e outros materiais genéticos sob condições controladas. Esse modelo é conhecido como conservação ex situ.
Segundo Marília Burle, pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e coordenadora do ConservaIn, a integração dessas duas estratégias é fundamental para proteger o patrimônio genético agrícola.
Na prática, o funcionamento ocorre em duas direções. Sementes tradicionais mantidas pelos agricultores podem receber uma duplicação de segurança nas coleções da Embrapa, com a preservação dos direitos das comunidades sobre os materiais. Ao mesmo tempo, variedades que deixaram de ser cultivadas em determinados territórios, mas permaneceram conservadas nos bancos públicos, podem ser reintroduzidas nas propriedades.
Isso permite que o material genético seja preservado mesmo diante de perdas provocadas por secas, pragas, abandono de cultivos ou dificuldades de armazenamento.
Quais sementes estão sendo preservadas?
O projeto contempla espécies que fazem parte da alimentação cotidiana dos brasileiros, mas também inclui plantas de importância regional e variedades pouco presentes na agricultura comercial.
Entre os cultivos prioritários estão milho, arroz, feijão-comum, feijão-caupi, fava, mandioca, batata, batata-doce e inhame.
A iniciativa também considera espécies como abóboras, pimentas, amendoim, açaí e frutas nativas, respeitando as particularidades dos diferentes territórios.
No Pampa, por exemplo, as ações incluem o mapeamento de parentes silvestres de plantas cultivadas, que podem apresentar características relevantes para estudos de diversidade genética.
Essas espécies representam recursos importantes para a pesquisa agropecuária. A identificação de características úteis em materiais tradicionais ou silvestres pode, futuramente, contribuir para programas de melhoramento voltados à adaptação climática e à resistência a doenças.
Preservar a diversidade genética não significa abandonar a agricultura moderna. Significa ampliar o conjunto de recursos disponíveis para enfrentar seus desafios futuros.
Projeto alcança dez estados e cinco biomas brasileiros
A rede do ConservaIn envolve atividades no Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Amapá, Roraima, Tocantins, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
A distribuição geográfica contempla Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pampa, permitindo que a conservação seja trabalhada em condições ambientais bastante distintas.
No Nordeste, parte das iniciativas se concentra no fortalecimento de bancos comunitários e redes de agricultores guardiões. No Norte, o trabalho inclui comunidades indígenas e sistemas agrícolas tradicionais. Já no Sul, estão previstas ações de avaliação participativa e circulação de materiais conservados pela Embrapa.
O projeto envolve pesquisadores, técnicos, organizações sociais e comunidades que já acumulam experiência na conservação de variedades agrícolas.
Entre as atividades previstas estão a capacitação para armazenamento e avaliação da germinação, a multiplicação de sementes, os testes de materiais em campo e a criação de um sistema público de informações sobre iniciativas de conservação.
As ações financiadas pelo programa já começaram a ser executadas em 2026, com visitas e atividades comunitárias realizadas em junho e setembro. Outras intervenções estavam previstas para o último trimestre do ano.
Mudanças climáticas tornam a diversidade genética ainda mais importante
A conservação de sementes tradicionais ganha relevância em um período de crescente preocupação com os efeitos da variabilidade climática sobre a agricultura.
Secas prolongadas, temperaturas extremas e mudanças na distribuição das chuvas podem alterar o desempenho de cultivares e aumentar os riscos produtivos.
Nesse contexto, a diversidade genética funciona como uma reserva de possibilidades para o futuro.
Uma variedade tradicional pode apresentar características interessantes para determinadas condições de cultivo, mesmo que não ofereça o maior potencial produtivo em ambientes altamente tecnificados.
O desafio da pesquisa é identificar essas características, avaliar seu comportamento e entender como podem contribuir para sistemas agrícolas mais resilientes.
Para o produtor, o benefício não está necessariamente na substituição imediata das sementes comerciais, mas na ampliação das alternativas disponíveis, especialmente em regiões com condições ambientais restritivas.
O impacto também pode chegar à renda das famílias rurais
Além da conservação genética, o programa busca fortalecer a capacidade das comunidades de produzir, selecionar, armazenar e utilizar suas próprias sementes.
Isso pode contribuir para reduzir dificuldades de acesso a materiais de plantio, especialmente em localidades onde a oferta comercial é limitada.
Também existem oportunidades de valorização de alimentos tradicionais, variedades regionais e produtos que apresentam características diferenciadas de sabor, aparência ou uso culinário.
Entretanto, transformar esse potencial em renda exige organização produtiva, qualidade das sementes, assistência técnica e acesso a mercados. A conservação, isoladamente, não garante aumento de produtividade ou rentabilidade.
A participação das mulheres rurais é outro componente importante do ConservaIn. O projeto prevê ações de capacitação em seleção de sementes, conservação de variedades e empreendedorismo, além de atividades com estudantes, professores e extensionistas.
A preservação das sementes já mobiliza outras regiões do país
A iniciativa nacional se soma a experiências desenvolvidas em diferentes territórios brasileiros.
No Semiárido, por exemplo, outro projeto da Embrapa, o Agrobiodiversidade do Semiárido (AgrobioSA), trabalha com variedades crioulas de milho e o fortalecimento de bancos comunitários.
Conforme reportagem publicada pelo Compre Rural sobre a conservação de sementes no Semiárido, essa iniciativa prevê beneficiar cerca de 2 mil famílias, com investimento superior a R$ 3 milhões até 2027.
Embora sejam projetos distintos, ambos demonstram a importância de integrar o trabalho dos agricultores à pesquisa científica para conservar a agrobiodiversidade.
A pauta também passou a ganhar maior espaço nas políticas públicas. Em setembro de 2026, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar promoveu uma reunião técnica nacional para discutir estratégias de conservação dos recursos genéticos diretamente nas propriedades e comunidades.
Preservar hoje para não perder possibilidades amanhã
O principal resultado esperado do ConservaIn não pode ser medido apenas pelo número de sementes armazenadas ou de famílias atendidas.
O verdadeiro desafio é garantir que variedades agrícolas continuem disponíveis, tanto nas áreas de cultivo quanto nas coleções científicas, e que o conhecimento acumulado pelas comunidades não desapareça com a passagem das gerações.
Para o agronegócio brasileiro, essa discussão tem uma dimensão estratégica. O desenvolvimento de cultivares adaptadas, a segurança alimentar e a capacidade de resposta a novos desafios sanitários e climáticos dependem, em parte, da diversidade genética disponível para pesquisa.
Ao conectar pelo menos 400 famílias, comunidades tradicionais e bancos de germoplasma, o Brasil procura proteger um patrimônio que pode ser decisivo para a agricultura das próximas décadas. Afinal, uma variedade que hoje parece ter pouca importância comercial pode guardar características fundamentais para enfrentar os desafios produtivos de amanhã.
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