Caroço de algodão vira ração para confinamento

Os preços domésticos do caroço de algodão estão em patamares tão baixos que o produto tem virado ração para bois em confinamentos do país.

De olho no mercado de exportação da pluma, os agricultores ampliaram em cerca de 65% a área semeada nas últimas quatro safras, o que duplicou a produção não apenas da pluma, mas também do caroço. 

“No algodão nada se perde, tudo se transforma e se aproveita”, brinca Túlio Breno Pedrosa, presidente da esmagadora cearense Rações Golfinho. Ele lembra que do caroço se extrai óleo, farelo, línter (fibra curta usada na fabricação de papel moeda), casca, borra e torta de algodão. Mas, se a pluma tem boa demanda no mercado externo, sobretudo na China, o caroço não tem um mercado que o valorize tanto.

Um destino natural seria a produção de óleo, por causa da expansão do uso de biodiesel no país, mas, nesse mercado, o produto não tem competitividade. “O óleo de algodão é mais caro que o de soja ou que a gordura de boi”, diz Julio Minelli, diretor-executivo da Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio). Em Mato Grosso, que lidera a oferta brasileira de soja e algodão, a diferença é de cerca de 5%. 



Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que, em 2018, apenas 0,9% do biodiesel produzido no país teve como matéria-prima o óleo de algodão, enquanto o de soja respondeu por 70% e o sebo bovino, por 13,3%. 

Ainda assim, a expansão do biodiesel tem estimulado parte do crescimento da produção de óleo de algodão, que aumentou 60% no Brasil do ciclo 2015/16 ao 2017/18, para 440 mil toneladas. Para 2018/19, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), projeta 565 mil toneladas. 

Desse volume, o que não serve ao biodiesel e à indústria química vai para o setor de alimentos. “Mas para a indústria alimentícia há um limite de aumento, porque o algodão tem um fator antinutricional, que é o gossipol. Mesmo após o processamento, há resquícios de ácido graxo chamado de ciclopropanóico”, explica Everaldo Medeiros, pesquisador da Embrapa Algodão. 

Mesmo com essa limitação, o USDA aponta que o uso do produto pela indústria de alimentos cresceu 35% no país de 2015/16 a 2017/18. Para a safra 2018/19, a estimativa é de aumento de 8,1%, para 200 mil toneladas, ainda abaixo do recorde de 220 mil toneladas de 2011/12. As exportações estão projetadas pelo órgão em 6 mil toneladas em 2018/19. 

As exportações estão projetadas pelo órgão em 6 mil toneladas em 2018/19. 

Assim, como o avanço do consumo do óleo não acompanhou o da produção do caroço, a oferta excedente, com pouca demanda no mercado interno, fez os preços despencarem. Dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) mostram que, de 2016 a 2018, o preço do caroço caiu 52% no Estado, responsável por cerca de 65% da produção nacional. E, no patamar atual, o produto se tornou a proteína alternativa usada em ração de gado para melhorar margens de lucro.

Tradicionalmente, o farelo de soja é proteína garantida nas rações em confinamentos e semi-confinamentos de bovinos. O insumo tem 46% de proteína e a torta de algodão, 25%. “Mas, considerando cotações em Mato Grosso, a torta de algodão abaixo de R$ 720 a tonelada já compensaria. Isso para ficar na mesma quantidade de proteína”, calcula Rogério Coan, diretor técnico da Coan Consultoria. Na sexta-feira, a cotação da torta estava em R$ 514,38 a tonelada, 38% mais barata que no começo de 2017. 

“De um modo geral, usar torta de algodão no lugar do farelo tem compensado”, avalia Cleiton Gauer, gestor técnico do Imea. Não é de hoje que o algodão tem sido usado na alimentação de animais, mas apenas há pouco tempo algumas questões foram desmistificadas. “Dar o caroço sem nenhum processamento pode mudar o sabor e o odor da carne, que fica mais fibrosa, mais rígida. Isso por causa do gossipol”, afirma Coan. A torta de algodão, porém, não apresenta esse problema. “A torta é processada e é retirada parte do óleo, eliminando quase todo o gossipol”, diz. 

O escritório local do USDA no Brasil calcula que, em 2019/20 – safra que começará a ser semeada em novembro -, a produção de torta de algodão no Brasil chegará a 1,8 milhão de toneladas, destinadas à alimentação animal. Em 2018/19, a estimativa do órgão é de 1,7 milhão. A quebra de safra 2017/18 de soja na Argentina, grande exportadora de farelo de soja, abriu espaço para o produto brasileiro no exterior, o que encareceu o insumo e elevou a competitividade da torta de algodão. 

Afora esse movimento, tem aumentado a exportação de caroço para Coreia do Sul e Japão, apontou o gestor técnico do Imea. E os embarques ganharam força a partir do último trimestre do ano passado. Para a temporada 2019/20, com uma perspectiva de recorde de produção do caroço no mercado interno e diante do aumento da área de algodão em Mato Grosso, as exportações do caroço podem ser uma boa oportunidade para dar escape ao excesso de oferta do subproduto. Isso caso a demanda do mercado interno não consiga absorver toda a oferta disponível

Fonte: Valor Econômico.

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