China quer carne brasileira, mas tenta “barganhar”

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Em 2020, a pecuária viveu o momento espetacular e o mesmo deve se repetir em 2021 e seguir até 2022; Mas, quando a China irá retomar as compras?

A resposta dessa pergunta vale mais de US$ 2,5 bilhões, considerando que o mercado chinês é responsável por quase 60% das exportações de carne bovina brasileira. Com grande especulação no mercado e analistas divergindo nas suas opiniões, há uma coisa certa em toda essa história: A China tem grande expertise em negociar. Mas a um outro ponto que deve ser levado em consideração, a China vai precisar de carne brasileira, mas quando será?

Tudo indica que  os bons ventos podem soprar o ano que vem para a pecuária novamente, se depender da fome chinesa, segundo Marcos Jank, professor sênior de agronegócio no Insper e coordenador do centro Insper Agro Global.

“A China vai precisar de mais carne este ano e ano que vem também, especialmente de carne bovina”, diz Jank. Ele foi um dos analistas convidados, assim como o agrônomo Alexandre Mendonça de Barros, sócio da consultoria MB Agro, que também prevê um horizonte positivo para a pecuária brasileira.

“Em 2020, a pecuária viveu o momento espetacular e o mesmo deve se repetir em 2021 e seguir até 2022”, diz Barros. Para ele, a demanda de carne por parte da China pode se manter aquecida por que há fortes indícios de baixa oferta de proteína animal, apesar dos esforços do país em recompor seu rebanho de suínos.

“Importante destacar a recuperação rápida da China, perante a Covid-19, e também da peste suína africana, que foi avassaladora e teve impacto muito maior que o novo coronavírus no mercado de carnes. Ninguém imaginava que a China perderia 40% de seu rebanho”, afirma Barros.

Entendo os pontos

O Brasil está há quase 60 dias sem exportar carne para a China, seu principal comprador. Em 4 de setembro, o país interrompeu voluntariamente a exportação do produto após a confirmação de casos do “mal da vaca louca” em dois frigoríficos do país. Mesmo com o controle dos casos no Brasil, a interrupção foi mantida.

Parte da indústria ainda acreditava que o embargo cairia enquanto as cargas estivessem sendo transportadas, e agora sofre o impacto de maiores custos logísticos. Se uma liberação não for breve, é possível que novos contêineres se acumulem nos portos chineses, uma vez que o Brasil exportou volumes recordes em setembro, sendo mais da metade à China.

Notícias circularam no mercado de que um lote de Tocantins havia sido liberado no porto de Xangai, na véspera. Procurado, o Ministério da Agricultura disse à Reuters que não tinha informações sobre o assunto.

Nesta quarta-feira a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, reforçou em entrevista à TV CNN Brasil que a pasta não possui informações oficiais relacionadas ao tema e ressaltou que a China não liberou a entrada de nenhum contêiner brasileiro da proteína bovina após o embargo.

A ministra ainda disse que o Brasil segue em contato com as autoridades chinesas, mas não há nada definido, e espera que as exportações sejam restabelecidas o mais rápido possível. Questionada, a alfândega da China não respondeu de imediato a um pedido de comentários.

Alternativas

Segundo o analista da consultoria Safras & Mercado Fernando Iglesias, os principais casos de cargas rejeitadas pelos chineses aconteceram no porto de Xangai e os frigoríficos avaliam realocar lotes em outros mercados asiáticos, como Irã e Vietnã, ou aguardar em ‘hubs’ na China até que haja a normalização do embarque.

“Houve tentativa de colocar essas cargas no Irã e também no Vietnã, não são operações simples e esses importadores não pagariam os mesmos preços de contratos que a China tinha firmado pela carne bovina brasileira”, disse ele.

“Agora vai da opção dos frigoríficos aceitar o preço mais baixo ou simplesmente aguardar uma posição chinesa, mantendo essa carga guardada em outros portos do país.”

Mapa fez pouco caso?

A ministra Tereza Cristina só na semana passada informou que pensa em ir à China. O chanceler Carlos França só na última semana conversou com o ministro chinês de Negócios Estrangeiros. Platitudes.

Já eram para ter feito isso antes e de forma mais contunde, diante da evidência, há semanas, de que o embargo às importações de carne bovina, que já percorre 51 dias desde os casos de vaca louca atípica, é uma flagrante mistura de retaliação às críticas corriqueiras do governo brasileiro e estratégia comercial para derrubar os preços.

O máximo que o ministro Carlos França, das Relações Exteriores, conseguiu com seu par Wang Yi, sobre a retomada das compras, foi que o assunto será “resolvido rapidamente”. E na falta de mais nada a dizer, a explicar melhor para o mercado, o Itamaraty preferiu o Twitter para esse comentário. Se a ministra já não está de malas prontas, talvez nem precise ir mais.

Nesta segunda, já noite na China, talvez não tenha tido nenhuma novidade, mas deverá ter a algum momento nos próximos dias. Porque, menos mal, o país não pode ficar muito mais temo sem a carne brasileira de boi.

Mas, até lá, o boi gordo e o pecuarista vão acompanhando o valor da arroba despencar e atingir o menor patamar dos últimos 12 meses, seguindo em derretimento constante e pode piorar , já que os frigoríficos não vão conseguir emplacar preços quando a situação se normalizar.

Acreditamos, diante de todo esse cenário e o que foi exposto até o momento, que a demanda chinesa vai ser paulatina, sem pressa, enquanto flui o comércio com outros fornecedores e mais carne suína foi produzida no parque doméstico.

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