Defesa Civil confirma volumes entre 100 e 150 mm e prevê outros 50 a 80 mm em 12 horas no Norte, Vales e Serra; temporais ainda podem produzir granizo grande e rajadas acima de 90 km/h
O episódio de tempo severo que atravessa o Rio Grande do Sul ganhou um novo componente de preocupação na tarde desta segunda-feira (21). Depois das rajadas acima de 100 km/h e dos transtornos registrados desde a madrugada, a Defesa Civil estadual atualizou o cenário da chuva e informou que áreas atingidas já acumularam entre 100 e 150 mm. E a chuva ainda não terminou.
Segundo o boletim oficial publicado às 13h41, áreas do Norte, Vales e Serra ainda podem receber entre 50 e 80 mm adicionais em apenas 12 horas. Com a precipitação já observada, os acumulados totais do episódio podem superar 200 mm em alguns pontos.
Para o campo, essa atualização é particularmente importante. A preocupação deixa de estar apenas na intensidade instantânea das tempestades e passa a envolver também saturação do solo, escoamento superficial, erosão, acessos rurais e resposta dos rios nas horas seguintes.
De previsão para acumulado observado
Até domingo, os números divulgados eram essencialmente previsões.
A Defesa Civil trabalhava com possibilidade de mais de 120 mm em 12 horas e acumulados elevados na metade norte do estado.
Agora existe uma informação diferente: entre 100 e 150 mm já foram registrados, segundo a atualização estadual desta segunda-feira.
Essa distinção é fundamental.
Os 200 mm não representam chuva já medida de forma generalizada no Rio Grande do Sul. Trata-se do acumulado potencial do evento em pontos onde os volumes já foram elevados e ainda há precipitação prevista.
Portanto, não é correto afirmar que todo o estado receberá 200 mm.
Outros 50 a 80 mm ainda podem cair
A previsão para o restante desta segunda mantém chuva intensa e volumosa em curto espaço de tempo especialmente no Norte, Vales e Serra.
A Defesa Civil projeta 50 a 80 mm em 12 horas, adicionais ao que já caiu.
Quando o solo já recebeu volumes elevados, uma nova rodada de chuva possui consequências diferentes da primeira.
Parte da capacidade de infiltração pode estar comprometida.
A água passa a escoar mais rapidamente pela superfície e alcançar arroios, córregos e rios.
Em áreas agrícolas inclinadas, aumenta também a preocupação com erosão e transporte de solo e nutrientes.
Granizo grande ainda permanece na previsão
O episódio também não terminou do ponto de vista das tempestades severas.
Entre a tarde e a noite desta segunda-feira, a Defesa Civil mantém condição para temporais principalmente no Noroeste, Norte e Nordeste do Rio Grande do Sul.
Essas tempestades ainda podem produzir granizo, inclusive de grande tamanho, e rajadas intensas que podem superar 90 km/h.
Novamente, são fenômenos potenciais e localizados.
A previsão não significa que todas as propriedades dessas regiões enfrentarão granizo ou vento nessa intensidade.
Mas, onde uma célula severa se formar, o impacto pode ser significativo.
Para a agricultura, excesso começa a pesar
Depois de acumulados próximos ou superiores a 100 mm, o problema agronômico não se limita à água visível na superfície.
Solos saturados possuem menos oxigênio disponível nos poros.
Dependendo da cultura, estágio de desenvolvimento, textura do solo e duração do encharcamento, isso pode afetar o sistema radicular.
Operações de campo também precisam esperar.
Entrar com máquinas sobre solo excessivamente úmido aumenta o risco de compactação, formação de trilhas e danos estruturais ao solo.
Em áreas recém-implantadas, enxurradas podem deslocar sementes, abrir sulcos e provocar falhas de estande.
Os efeitos efetivos, porém, só poderão ser dimensionados depois que a chuva cessar e houver levantamento nas propriedades atingidas.
Pecuária também exige atenção
Para a pecuária, os maiores problemas tendem a ocorrer em áreas baixas, várzeas e propriedades cortadas por rios e arroios.
Currais encharcados prejudicam manejo e trânsito de animais.
Estradas internas podem perder trafegabilidade.
Pontes e pontilhões exigem atenção diante de elevação rápida da água.
Em sistemas leiteiros, dificuldades de acesso também podem interferir na coleta da produção.
Animais não devem ser deslocados através de correnteza ou áreas inundadas.
A chuva pode parar antes de o rio subir
Este é um dos pontos mais importantes da atualização.
O novo boletim do Cemaden para terça-feira (22) já indica tendência de melhora das condições meteorológicas no Rio Grande do Sul, sem previsão de chuva significativa.
Mesmo assim, o órgão mantém risco hidrológico moderado nas regiões de Caxias do Sul e Porto Alegre.
O motivo é a propagação da onda de cheia na bacia do rio Caí e em seus afluentes.
Isso significa que a água precipitada nas cabeceiras continua percorrendo a bacia depois que a tempestade se afasta.
Por isso, o nível de um rio pode subir quando o céu sobre determinada propriedade já está aberto.
Solo continuará vulnerável na terça-feira
O mesmo raciocínio vale para encostas.
O Cemaden mantém risco moderado de movimentos de massa nas regiões de Porto Alegre e Caxias do Sul devido aos altos acumulados registrados nas últimas 48 horas e à suscetibilidade de determinadas áreas.
A tendência meteorológica é de melhora.
A vulnerabilidade do solo, entretanto, demora mais para diminuir.
Por isso, quedas de barreira e deslizamentos pontuais continuam possíveis mesmo sem uma nova rodada significativa de chuva.
Instabilidade muda de região na terça-feira
Enquanto o Rio Grande do Sul entra em tendência de melhora, a atenção se desloca para outras áreas do país.
Para terça-feira, o Cemaden classifica como moderada a possibilidade de eventos hidrológicos nas regiões intermediárias de Sorocaba, São Paulo e São José dos Campos, em São Paulo; Petrópolis, no Rio de Janeiro; e Juiz de Fora, em Minas Gerais.
A previsão considera pancadas de chuva de intensidade moderada a forte.
Podem ocorrer extravasamentos pontuais de córregos, enxurradas em áreas inclinadas e alagamentos.
Nas mesmas áreas do Sudeste, o órgão também indica risco moderado de movimentos de massa, devido à combinação de acumulados anteriores e nova chuva.
Paraná permanece no caminho do sistema
A região de Curitiba também aparece no boletim de terça-feira.
O Cemaden indica risco hidrológico moderado diante da possibilidade de pancadas moderadas a fortes, com potencial para enxurradas, alagamentos urbanos e extravasamento de canais de drenagem.
Há também risco moderado de movimentos de massa.
Assim, o sistema que produziu tempo severo no Rio Grande do Sul não simplesmente desaparece.
Ele avança, enquanto o ar mais frio ocupa sua retaguarda.
Santa Catarina ainda sente os efeitos do acumulado
No território catarinense, o Cemaden mantém risco moderado de movimentos de massa para as regiões de Criciúma, Florianópolis, Blumenau e Joinville na terça-feira.
Nesse caso, a preocupação está associada aos acumulados prévios e à elevada suscetibilidade de algumas áreas.
Os modelos utilizados pelo órgão já indicam chuva fraca e tendência de diminuição dos volumes.
É novamente o exemplo de que o impacto hidrológico e geológico pode persistir além da fase mais intensa do temporal.
Fato observado, alerta, previsão e tendência
Fato observado: segundo a Defesa Civil gaúcha, áreas atingidas pelo episódio já registraram entre 100 e 150 mm de chuva.
Previsão para as próximas horas: Norte, Vales e Serra ainda podem receber 50 a 80 mm em 12 horas, enquanto Noroeste, Norte e Nordeste permanecem sujeitos a granizo que pode ser grande e rajadas acima de 90 km/h.
Acumulado potencial: somando o que já caiu à precipitação adicional, pontos do estado podem superar 200 mm no evento. Isso é uma projeção localizada, não um acumulado uniforme para todo o RS.
Tendência: na terça-feira, a chuva significativa perde força no Rio Grande do Sul, mas permanece risco associado à cheia do rio Caí e ao solo saturado; a instabilidade passa a exigir maior atenção no Paraná e no Sudeste.
O ponto mais importante para o produtor
O episódio entra agora em uma fase diferente.
No início, o principal risco era a chegada da tempestade.
Depois vieram vento forte, chuva intensa e interrupções.
Agora, com volumes entre 100 e 150 mm já registrados e possibilidade de acumulados superiores a 200 mm, o produtor precisa acompanhar também o que acontece depois da chuva.
Níveis dos rios, condições das estradas, estabilidade de encostas, erosão, saturação do solo e segurança dos acessos podem continuar mudando durante horas.
A melhora do tempo prevista para terça-feira será importante.
Mas, em propriedades situadas próximas a rios ou em terrenos vulneráveis, céu aberto não significa necessariamente fim do risco.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.