Governo anuncia mais de € 1 bilhão — cerca de R$ 6 bilhões — em indenizações, benefícios fiscais e recursos para compra de sementes, fertilizantes e alimentação animal após perdas que já superam € 10 bilhões no campo
A França anunciou um pacote emergencial superior a € 1 bilhão, equivalente a aproximadamente R$ 6 bilhões, para socorrer produtores rurais atingidos por uma das secas mais severas já registradas no país. O plano busca evitar falências, recompor o caixa das propriedades e garantir a retomada da produção agrícola na próxima temporada.
Batizada de CASI — Clima, Adaptação, Seca e Incêndios, a iniciativa foi apresentada pela ministra da Agricultura, do Setor Agroalimentar e da Soberania Alimentar, Annie Genevard. Segundo o governo francês, o verão de 2026 foi marcado por ondas de calor, escassez hídrica e incêndios que comprometeram lavouras, pastagens, estoques de alimentos e estruturas produtivas.
A temperatura média nacional em julho chegou a 24,9 °C, superando os recordes observados nos anos de 2003 e 1976. Aproximadamente 65% do território francês enfrentou uma situação de seca considerada inédita, enquanto 95 departamentos adotaram restrições ao uso da água. No momento mais crítico, 79 deles estavam classificados em nível de crise.
Em diversas regiões, as perdas médias de produtividade chegaram a 50%. Na pecuária, os estoques de forragem também ficaram mais de 50% abaixo do normal em determinadas localidades, ampliando os custos e ameaçando a alimentação dos rebanhos.
Prejuízo no campo supera € 10 bilhões
Estimativas da principal organização sindical rural da França, a FNSEA, apontam que as perdas acumuladas pelos agricultores já ultrapassam € 10 bilhões, quase R$ 60 bilhões na conversão atual.
Somente a pecuária e a produção de grãos teriam registrado prejuízos superiores a € 5 bilhões cada. Entre 30 mil e 35 mil propriedades rurais estariam enfrentando dificuldades financeiras em consequência da combinação entre quebra de produção, custos elevados e redução das receitas.
O impacto deverá ultrapassar as porteiras. O Ministério das Finanças da França estima que as perdas no setor agropecuário podem retirar cerca de 0,1 ponto percentual do crescimento econômico francês em 2026.
A França ocupa posição estratégica na produção agropecuária da União Europeia. Por isso, uma redução prolongada da oferta também pode repercutir sobre os preços dos alimentos e o abastecimento dentro do bloco.
Mais de € 500 milhões para indenizar perdas
A maior parcela do pacote será direcionada ao sistema de Indenização de Solidariedade Nacional, mecanismo francês de proteção contra perdas climáticas severas. A previsão inicial é mobilizar aproximadamente € 520 milhões para compensar os produtores atingidos.
Os pagamentos deverão ser acelerados. Para os agricultores que possuem seguro, o limite dos adiantamentos foi ampliado de 70% para 80% do valor estimado da indenização, permitindo que parte dos recursos chegue mais rapidamente às propriedades.
Outros € 30 milhões serão destinados ao regime de calamidades agrícolas, voltado às perdas não cobertas por seguros, incluindo danos em culturas permanentes, vinhedos e criações de bovinos, ovinos e aves.
O governo também anunciou mais de € 300 milhões em reduções locais do imposto sobre propriedades rurais não edificadas, aliviando uma das despesas enfrentadas pelos produtores neste momento de queda na receita.
A partir da campanha de 2027, a França pretende ainda ampliar de cinco para oito anos o período usado como referência no cálculo das perdas de produtividade. A mudança procura evitar que anos consecutivos de clima adverso reduzam artificialmente a média histórica e, consequentemente, o valor das indenizações.
Fundo ajudará na compra de insumos
Para garantir o plantio da próxima safra, o governo criou um fundo de reestruturação agrícola de € 235 milhões. Os recursos serão administrados regionalmente e poderão ser empregados na aquisição de sementes, mudas, rações, forragens e outros insumos essenciais.
A medida procura evitar que a falta de caixa provoque uma nova queda na produção em 2027. Parte do fundo também atenderá propriedades atingidas pelos incêndios registrados durante o verão.
A preocupação é especialmente grave entre os pecuaristas. Com a redução dos estoques de pastagens e forragens, algumas propriedades precisarão adquirir alimentação para manter os animais durante os próximos meses. O governo informou que poderá facilitar a transferência de forragem entre regiões e recorrer a fornecedores de outros países europeus, caso seja necessário.
Fertilizantes, diesel e contribuições sociais
O plano também prevê € 20 milhões para auxiliar produtores no pagamento das contribuições sociais agrícolas. Propriedades em situação mais delicada poderão negociar cronogramas individualizados e adiar parte dos compromissos.
O programa excepcional de apoio à compra de fertilizantes nitrogenados foi prorrogado até 31 de dezembro de 2026, com uma estrutura de € 145 milhões. A decisão considera o atraso no calendário de semeadura provocado pela seca.
Também foi estendido até outubro o benefício sobre o diesel agrícola, no valor de € 0,15 por litro. O custo total estimado dessa medida é de € 106 milhões e busca reduzir as despesas com os trabalhos de campo no outono europeu.
Além do suporte financeiro, o governo promete flexibilizar temporariamente algumas exigências administrativas e evitar fiscalizações repetidas nas propriedades. Autoridades regionais poderão ainda conceder determinadas exceções às regras nacionais e europeias de cobertura do solo, desde que as condições locais permitam.
Objetivo é evitar falências e preservar a produção
Segundo a ministra Annie Genevard, a seca representa uma ameaça dupla à soberania alimentar francesa: compromete imediatamente o caixa das propriedades e reduz a capacidade de agricultores e pecuaristas retomarem a produção no próximo ciclo.
O plano, portanto, foi estruturado em duas frentes: indenizar rapidamente os prejuízos para impedir o fechamento de propriedades e fornecer recursos para que os agricultores voltem a plantar e produzir.
O tamanho do pacote revela a gravidade da situação enfrentada pela agricultura francesa. Mesmo com mais de € 1 bilhão mobilizado, os recursos correspondem a apenas uma fração dos prejuízos calculados no campo.
Ao anunciar indenizações, redução de impostos, subsídios aos insumos e apoio para recompor estoques, a França também deixa uma mensagem clara: diante de eventos climáticos cada vez mais intensos, a manutenção da produção agropecuária passou a ser tratada como uma questão econômica e estratégica de Estado.
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