Tese de doutorado aponta o rebanho como exemplo do “boi verde”; estudo reconhece o pioneirismo e o legado de Adir e Paulo Leonel na seleção de uma genética zebuína altamente adaptada e sustentável para o cenário tropical global
O trabalho de seleção genética e preservação da pureza racial do gado Nelore desenvolvido pelo Grupo Adir conquistou um dos mais importantes reconhecimentos acadêmicos do mundo. A consistência técnica e a filosofia produtiva do grupo foram utilizadas como material empírico na tese de doutorado de Oliver Lazarus, defendida recentemente no Departamento de História da Ciência da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.
Intitulado “Domesticating Empire: American Power and the Industrialization of Life” (Domesticando o Império: O Poder Americano e a Industrialização da Vida), o estudo do historiador Oliver Lazarus analisa como os Estados Unidos, ao longo do século XX, projetaram seu poder global por meio da exportação de tecnologias pecuárias, regimes veterinários e modelos de confinamento industrial. No epílogo de sua pesquisa, contudo, o autor viaja ao Brasil e aponta para o modelo brasileiro — tendo o Grupo Adir como o grande exemplo — como uma alternativa de futuro tecnológico e sustentável para a produção de proteína em países tropicais.

A Visita a Nova Crixás e o Impacto em Harvard
Para compreender o sucesso e a escala da pecuária nacional, Lazarus realizou uma visita técnica à fazenda do Grupo Adir em Nova Crixás (GO). O impacto de ver o rebanho no Cerrado goiano foi tão marcante que as fotografias dos animais do grupo foram integradas à tese para ilustrar a uniformidade e a perfeita adaptação genética da raça Nelore no Brasil.
O pesquisador registrou em seu texto o espanto de visitantes que chegam a se emocionar diante da padronização dos animais: “Os animais eram surpreendentemente uniformes — a mesma linha dorsal horizontal, as mesmas pernas paralelas, o mesmo temperamento calmo — o produto de sessenta anos de seleção em sistema fechado”.
No estudo, o Nelore do Grupo Adir é definido como o verdadeiro “boi verde” (green bull). Trata-se de um animal capaz de converter fibras que os humanos não podem comer em proteína de altíssima qualidade, utilizando apenas a pastagem, sem competir por grãos como soja ou milho.

A filosofia de Adir Leonel e a continuidade do legado por Paulo Leonel
A base de todo esse sucesso internacional remonta à visão pioneira do saudoso Adir do Carmo Leonel, um dos maiores selecionadores da história da pecuária brasileira. Adir compreendeu, antes de seu tempo, que a chave para uma pecuária sustentável e lucrativa em condições tropicais não estava em imitar o modelo de confinamento e grãos importado dos países de clima temperado, mas sim em valorizar a rusticidade e a adaptabilidade do zebu.

Essa filosofia familiar é imortalizada na tese de Harvard por meio de um ditado clássico de Adir do Carmo Leonel, frequentemente citado por seu filho, Paulo Leonel. “Cada bicho para o qual você precisa comprar comida, come você.”
Com a partida de Adir, Paulo Leonel assumiu as rédeas do grupo, dando sequência com maestria ao legado do pai. Sob a liderança de Paulo, o Grupo Adir manteve-se fiel à busca pela “pureza racial”, conservando as linhagens puras do Nelore estabelecidas desde as grandes importações da Índia na década de 1960. Enquanto grande parte do mercado se rendeu a modismos passageiros, cruzamentos desordenados e à diluição das características essenciais do Nelore, Paulo Leonel manteve o sistema fechado focado em fertilidade, habilidade materna, docilidade e, acima de tudo, capacidade de sobrevivência em condições extremas.
Durante a seca rigorosa do Cerrado, Paulo Leonel demonstrou ao pesquisador de Harvard a força dessa seleção ao apresentar animais saudáveis e com pelagem brilhante em pastagens completamente secas. “Se o animal é adaptado, precisamos de menos investimento em comida“, explicou o criador.

O Nelore Brasileiro como Tecnologia de Exportação para o Mundo
A tese de Harvard destaca que o modelo defendido por Paulo Leonel e pelo Grupo Adir propõe uma alternativa de desenvolvimento pecuário que desafia diretamente a hegemonia da intensificação no estilo norte-americano. Em vez de exportar animais frágeis que exigem antibióticos, instalações caras e grãos preciosos, o Brasil tem o potencial de exportar genética de adaptabilidade para nações em desenvolvimento na América Latina e na África.
“Podemos produzir genética que pode ser usada não apenas no Brasil, mas em grande parte das regiões tropicais do mundo“, destacou Paulo Leonel no estudo de Harvard, revelando inclusive negociações em andamento para levar essa “tecnologia biológica” para países como a Arábia Saudita.
Para o Grupo Adir, figurar em um estudo de tamanho prestígio acadêmico é a coroação de uma história escrita com muito suor, poeira e respeito à natureza. A menção em Harvard consolida o gado Adir não apenas como um patrimônio da pecuária nacional, mas como uma referência global de sustentabilidade, mostrando que o caminho para alimentar o mundo no futuro passa, necessariamente, pela genética forte e soberana do Nelore brasileiro.
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