Mato Grosso do Sul concentra quase 90% da expansão de florestas plantadas no Brasil

Novo levantamento realizado em parceria com a Embrapa revela avanço de 722,7 mil hectares no estado entre 2021 e 2025; crescimento do eucalipto e investimentos bilionários em celulose transformam a economia regional.

Mato Grosso do Sul consolidou sua posição como a principal fronteira de expansão da silvicultura brasileira. Um levantamento nacional divulgado nesta semana revelou que o estado respondeu por aproximadamente 90% do crescimento líquido da área de florestas plantadas mapeada no Brasil entre 2021 e 2025. O resultado evidencia uma transformação expressiva no uso produtivo da terra, impulsionada pelo avanço do eucalipto, pela instalação de grandes indústrias de celulose e pela crescente integração entre produção florestal, logística e agronegócio.

Os números fazem parte da Expedição Silvicultura 2025, iniciativa coordenada pela Canopy Remote Sensing Solutions, em parceria com a Embrapa Florestas e a Paulo Cardoso Comunicações. Apresentado em 21 de outubro de 2026, o estudo combinou imagens de satélite, levantamentos de campo e inventários florestais para dimensionar a expansão dos plantios comerciais no país. Mais do que revelar onde as árvores estão sendo cultivadas, os resultados ajudam a compreender como a demanda industrial está redesenhando regiões tradicionalmente associadas à pecuária e criando novas oportunidades para produtores rurais.

Mato Grosso do Sul ganhou mais de 722 mil hectares de florestas plantadas

Entre 2021 e 2025, a área nacional de florestas plantadas identificada pelo levantamento passou de 9,93 milhões para 10,73 milhões de hectares, crescimento de aproximadamente 8,1%.

Desse avanço líquido de cerca de 802 mil hectares, 722,7 mil hectares foram registrados em Mato Grosso do Sul.

No estado, a área mapeada passou de 1,07 milhão para 1,80 milhão de hectares, representando uma expansão de 67,3% em quatro anos.

O desempenho também alterou a posição sul-mato-grossense no cenário nacional. O estado saiu do quarto lugar em 2021 para a segunda posição em 2025, passando a concentrar 16,7% de toda a área de florestas plantadas identificada pela pesquisa.

Minas Gerais permaneceu na liderança, com aproximadamente 2,27 milhões de hectares.

O eucalipto é o principal responsável pelo crescimento nacional. Sua área avançou 758 mil hectares no período, alcançando 8,30 milhões de hectares, equivalentes a 77,4% das florestas mapeadas no Brasil.

Em sentido contrário, os plantios de pinus apresentaram redução de 36,6 mil hectares, permanecendo próximos de 1,9 milhão de hectares.

Esses resultados demonstram que a expansão brasileira não ocorre de maneira uniforme. Enquanto diversas regiões apresentam relativa estabilidade, Mato Grosso do Sul concentra uma parcela excepcional dos novos investimentos e da ampliação da base florestal.

Gigantes da celulose estão por trás da transformação

A expansão do eucalipto em Mato Grosso do Sul está diretamente relacionada à presença de grandes indústrias consumidoras de madeira.

Municípios como Ribas do Rio Pardo, Três Lagoas, Água Clara, Brasilândia e Inocência passaram a integrar um dos principais corredores de produção florestal e industrial do país.

Em Ribas do Rio Pardo, a Suzano colocou em operação, em julho de 2024, sua unidade industrial conhecida como Projeto Cerrado. A fábrica foi projetada para produzir 2,55 milhões de toneladas de celulose por ano e, segundo informações divulgadas pela companhia, alcançou produção de 2,58 milhões de toneladas em 2025.

Outro investimento que ajuda a explicar a expansão está em Inocência. A Arauco desenvolve o Projeto Sucuriú, empreendimento de US$ 4,6 bilhões, com capacidade projetada de 3,5 milhões de toneladas anuais de celulose e previsão de início das operações até o final de 2027.

A dimensão desses projetos explica por que o crescimento florestal não pode ser analisado apenas como uma decisão isolada dos proprietários rurais.

Uma indústria de celulose precisa assegurar o fornecimento contínuo de grandes volumes de madeira durante décadas. Isso exige planejamento antecipado dos plantios, contratos de suprimento, infraestrutura logística e disponibilidade de áreas próximas às unidades industriais.

Na prática, a instalação de uma grande fábrica movimenta uma cadeia econômica muito mais ampla, envolvendo viveiros de mudas, máquinas agrícolas, transporte, serviços técnicos, manutenção, construção civil e comércio.

Expansão do eucalipto muda a dinâmica das fazendas

Um dos efeitos mais importantes desse movimento ocorre dentro das propriedades rurais.

Mato Grosso do Sul possui forte tradição pecuária, e parte da expansão florestal está relacionada à transformação de áreas anteriormente ocupadas por pastagens de baixa produtividade, conforme informações divulgadas pelo governo estadual.

Esse processo abre diferentes possibilidades para os produtores, desde o cultivo próprio de eucalipto até contratos de arrendamento e parcerias de longo prazo com empresas florestais.

Entretanto, substituir uma atividade agropecuária pela silvicultura exige uma análise econômica criteriosa.

Na pecuária, o produtor dispõe de alternativas de comercialização dos animais ao longo do ciclo produtivo. Já na produção florestal, o retorno principal costuma depender de um período mais longo de crescimento das árvores, exigindo planejamento financeiro compatível.

Também entram nessa decisão fatores como qualidade do solo, distância das indústrias consumidoras, custos de implantação, produtividade esperada e condições contratuais.

A expansão pode ainda estimular sistemas de integração pecuária-floresta, nos quais árvores e animais compartilham uma estratégia de uso da propriedade, desde que haja planejamento adequado de espaçamento, manejo e disponibilidade de pastagem.

Para o produtor, portanto, a questão não é simplesmente escolher entre boi e eucalipto, mas avaliar qual combinação de atividades proporciona maior retorno econômico, segurança e sustentabilidade ao negócio rural.

Produtividade florestal revela grandes diferenças entre os estados

Além da expansão territorial, a Expedição Silvicultura apresentou estimativas de produtividade que ajudam a compreender a competitividade da produção brasileira.

O incremento médio anual, indicador utilizado para expressar o crescimento médio do volume de madeira por hectare a cada ano, foi estimado em:

  • 27,6 metros cúbicos por hectare ao ano para o eucalipto, considerando uma idade de referência de sete anos.
  • 24,4 metros cúbicos por hectare ao ano para o pinus, considerando uma idade de referência de 16 anos.

Os resultados revelaram diferenças importantes entre as regiões produtoras.

No eucalipto, Santa Catarina apresentou estimativa de 42,3 metros cúbicos por hectare ao ano, seguida por Paraná, com 39,4, Rio Grande do Sul, com 36,8, e São Paulo, com 32,5.

Essas diferenças não significam necessariamente que determinada região possui manejo superior. O desempenho das florestas depende da interação entre condições climáticas, características do solo, genética, idade dos plantios e práticas de manejo.

Para a indústria, conhecer essas variações é fundamental. Uma área maior não representa automaticamente um aumento proporcional da produção futura de madeira.

É necessário considerar quanto cada hectare poderá produzir, quando os plantios estarão disponíveis para corte e qual será o custo de transportar a matéria-prima até a fábrica.

Produtores querem ampliar plantios, mas custos preocupam

O crescimento acelerado das florestas plantadas também vem acompanhado de desafios econômicos.

Na pesquisa de percepção realizada pela Expedição Silvicultura, que reuniu 73 registros analíticos de participantes atuantes em 16 estados, 75% dos respondentes afirmaram pretender implantar novas áreas florestais nos dois anos seguintes.

Além disso, 77% esperavam aumento da demanda por madeira nos cinco anos posteriores à pesquisa.

O otimismo, entretanto, não foi acompanhado pela mesma confiança nas margens de lucro.

Entre os entrevistados:

  • 85% projetaram crescimento dos custos de produção acima da inflação.
  • 41% esperavam aumento da rentabilidade.
  • 38% previam estabilidade dos resultados econômicos.

Como o questionário teve participação voluntária e não utilizou amostragem probabilística, esses percentuais representam a percepção do grupo consultado, não podendo ser generalizados para todos os produtores do país.

Ainda assim, os resultados apontam uma preocupação relevante para o setor: o aumento da demanda por madeira não garante, isoladamente, maior rentabilidade ao produtor.

Custos com implantação, fertilizantes, operações mecanizadas, controle de pragas, mão de obra e transporte continuam determinantes para a viabilidade dos projetos.

Crescimento industrial traz desafios para infraestrutura e sustentabilidade

O avanço da silvicultura também impõe novas demandas aos municípios que recebem grandes empreendimentos.

O transporte de madeira e celulose exige rodovias, terminais ferroviários e estruturas logísticas capazes de movimentar elevados volumes de carga.

Ao mesmo tempo, a chegada de trabalhadores e empresas amplia a necessidade de investimentos em habitação, saúde, educação, saneamento e qualificação profissional.

Há também uma dimensão ambiental que exige atenção.

Florestas comerciais de eucalipto não devem ser confundidas com florestas nativas. Embora desempenhem funções produtivas e possam contribuir para o armazenamento de carbono, não substituem a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos associados à vegetação natural.

A sustentabilidade da expansão depende da regularidade ambiental das propriedades, da conservação de áreas protegidas, da gestão dos recursos hídricos e da adoção de práticas de manejo compatíveis com as características de cada região.

Nesse cenário, a expansão sobre áreas anteriormente utilizadas pela agropecuária pode representar uma oportunidade de reorganização produtiva, desde que não provoque conversões inadequadas de vegetação nativa ou comprometa a conservação dos recursos naturais.

Por que os números da Expedição e do IBGE são diferentes?

Um ponto importante para compreender a dimensão da silvicultura brasileira é a existência de levantamentos com metodologias distintas.

Enquanto a Expedição Silvicultura identificou 10,73 milhões de hectares de florestas plantadas no Brasil em 2025, a Pesquisa da Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS), do IBGE, estimou aproximadamente 10,4 milhões de hectares no mesmo ano.

No caso de Mato Grosso do Sul, o IBGE apontou cerca de 1,9 milhão de hectares, enquanto o mapeamento da Expedição identificou aproximadamente 1,8 milhão.

Os resultados partem de procedimentos próprios de levantamento e classificação e, por isso, não devem ser combinados diretamente para calcular taxas de crescimento ou participação nacional.

A própria Expedição ressalta que as mudanças observadas na área mapeada podem refletir tanto alterações efetivas no uso do território quanto aperfeiçoamentos cartográficos e correções de classificação.

Apesar dessas diferenças, os dois levantamentos confirmam a relevância de Mato Grosso do Sul como um dos maiores polos brasileiros de florestas plantadas.

Mato Grosso do Sul deve continuar no centro da expansão florestal

O avanço registrado nos últimos quatro anos revela uma transformação estrutural no agronegócio sul-mato-grossense.

A presença de grandes fábricas, a ampliação da base de eucalipto e a formação de corredores logísticos criaram condições para consolidar uma cadeia produtiva com influência crescente sobre o mercado de terras, as decisões de investimento e a economia regional.

Ao mesmo tempo, o próximo ciclo dependerá de fatores que vão além da disponibilidade de área. Custos de produção, produtividade florestal, preços internacionais da celulose, infraestrutura e equilíbrio ambiental serão decisivos para sustentar o crescimento.

Para os produtores rurais, a expansão representa uma oportunidade concreta de diversificação, mas que precisa ser avaliada de acordo com a realidade econômica de cada propriedade.

Mato Grosso do Sul deixou de ser apenas uma região de expansão do eucalipto para se tornar um dos principais centros de reorganização da cadeia florestal brasileira. O desafio agora será transformar esse crescimento territorial em ganhos duradouros de produtividade, competitividade e desenvolvimento regional.

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