Família de São João da Barra encontrou o material guardado na propriedade e colheu pelo menos 15 frutos entre 30 e 40 quilos, transformando uma antiga lembrança familiar em uma produção que chamou atenção pelo tamanho
Um conjunto de sementes encontrado na propriedade de uma família rural de São João da Barra, no Norte Fluminense, deu origem a pelo menos 15 abóboras com peso entre 30 e 40 quilos. O material havia pertencido a Manoel Morenito, avô dos atuais produtores, falecido há 14 anos.
O plantio ocorreu na localidade de Mato Escuro, no quinto distrito de São João da Barra, em uma propriedade conduzida por Maria Augusta Rodrigues da Silva, de 62 anos, e seus familiares. As sementes estavam guardadas em um pequeno saco encontrado na garagem e foram levadas novamente ao campo.
Abóboras chegaram a 40 quilos
Os frutos são do tipo conhecido como abóbora-de-pescoço, pertencente à espécie Cucurbita moschata. A cultura apresenta grande diversidade de formatos, tamanhos e características, resultado tanto da genética quanto das condições de cultivo.
O agrônomo aposentado Jocimar de Souza, ouvido pela imprensa regional, relatou que exemplares desse tipo normalmente ultrapassam 10 quilos, enquanto frutos acima de 18 ou 20 quilos são menos frequentes em sua experiência profissional.
Nesse contexto, uma sequência de abóboras pesando entre 30 e 40 quilos se tornou incomum para a produção observada na propriedade.
Isso não significa, porém, que exista um limite de peso próximo a 20 quilos para a espécie. Há cultivos selecionados especificamente para obtenção de frutos muito maiores, incluindo abóboras que ultrapassam centenas de quilos.
Genética, disponibilidade de água, fertilidade do solo, número de frutos mantidos por planta e condições ambientais estão entre os fatores que podem interferir no desenvolvimento.
Família não utilizou manejo específico para produzir frutos gigantes
Jonas da Silva Almeida, filho de Maria Augusta, informou que a família não adotou um protocolo voltado à produção de abóboras gigantes.
Segundo o agricultor, o manejo nutricional foi semelhante ao utilizado em outros cultivos mantidos na propriedade, onde também são produzidos cebola, aipim, maxixe, quiabo, pimentão e banana.
A preparação da área contou ainda com auxílio da Patrulha Mecanizada do município.
Resultados elevados na cultura normalmente envolvem a combinação de diferentes fatores. Em outro sistema produtivo, por exemplo, um agricultor de Minas Gerais alcançou 33 toneladas de abóbora por hectare após trabalhar manejo de solo, nutrição e material genético.
Por isso, não é possível apontar apenas uma característica das sementes encontradas pela família como responsável pelo peso alcançado pelos frutos.
Quanto tempo uma semente de abóbora pode continuar viável?
O caso também chama atenção para a capacidade de conservação das sementes.
A longevidade depende diretamente das condições às quais o material é submetido. Umidade, temperatura, qualidade inicial da semente e tipo de embalagem podem alterar significativamente o período durante o qual ela continua capaz de germinar.
Pesquisa da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia sobre espécies do gênero Cucurbita avaliou materiais conservados sob condições controladas. As sementes foram secas até baixos níveis de umidade e armazenadas a -20 °C.
Nessas condições, parte dos materiais avaliados manteve índices elevados de germinação mesmo depois de períodos entre 10 e 14 anos.
O resultado não pode ser diretamente aplicado às sementes encontradas em São João da Barra. Um banco de germoplasma utiliza condições de temperatura e umidade controladas, enquanto não há informações públicas detalhando como o saco encontrado na garagem foi conservado.
Outro estudo envolvendo sementes de Cucurbita moschata também identificou influência do ambiente e da embalagem sobre a qualidade fisiológica durante o armazenamento.
Portanto, o fato de as sementes terem germinado é tecnicamente possível, mas não permite afirmar que elas tenham permanecido armazenadas por 14 anos.
Produção pode gerar renda adicional
O tamanho dos frutos também abriu uma possibilidade comercial para a família.
Jonas participa da Feira da Roça, utilizada por produtores para comercialização direta em São João da Barra e Campos dos Goytacazes, e pretende oferecer parte da produção no mercado regional.
A expectativa mencionada pelo agricultor é conseguir cerca de R$ 150 por unidade.
Esse número, entretanto, representa uma intenção de preço da família e não uma referência consolidada do mercado de abóboras.
Frutos fora do padrão convencional podem despertar interesse justamente pela aparência e pelo tamanho, mas o valor efetivamente recebido depende da existência de compradores dispostos a pagar um diferencial.
Sementes também preservam histórias dentro das propriedades
O episódio mostra uma característica presente em muitas áreas de agricultura familiar: a conservação de materiais vegetais dentro da própria propriedade e sua transmissão entre gerações.
Esse processo está relacionado às chamadas sementes crioulas e à conservação de variedades agrícolas, que podem carregar características selecionadas ao longo de sucessivos ciclos de cultivo.
No caso da família de São João da Barra, não há informação suficiente para classificar tecnicamente as sementes encontradas como uma variedade crioula específica.
O que está documentado é que o material havia pertencido ao avô da família, voltou a ser plantado e produziu frutos que chegaram aos 40 quilos.
A colheita acabou reunindo valor produtivo e memória familiar: sementes preservadas entre os pertences de um agricultor retornaram ao solo anos depois de sua morte e voltaram a produzir pelas mãos de seus descendentes.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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