Conab desembolsará cerca de R$ 228 milhões após adquirir 85% do volume ofertado em dois leilões; cereal será armazenado em oito unidades da Federação para abastecimento posterior
O governo federal decidiu transformar a preocupação com os possíveis efeitos do El Niño sobre a próxima safra em estoque físico de milho. A Conab concluiu dois leilões realizados nos dias 18 e 21 de setembro com a aquisição de 191 mil toneladas do cereal, que serão incorporadas aos estoques públicos brasileiros.
O volume representa 85,27% das 224 mil toneladas que poderiam ser adquiridas nas duas operações. Para colocar o milho nos armazéns, o desembolso previsto é de aproximadamente R$ 228 milhões. O movimento chama atenção por acontecer justamente depois de o Brasil colher uma safra recorde do cereal.
A Conab encerrou o ciclo 2025/26 estimando a produção nacional de milho em 144 milhões de toneladas, alta de 2% sobre a temporada anterior. Portanto, a operação não foi motivada por falta imediata de milho no país. A lógica é outra: criar uma reserva antes de um possível problema de oferta.
Governo comprou 85% do que colocou na mesa
Quando os editais foram anunciados em 16 de setembro, a Conab havia autorizado a aquisição de até 224 mil toneladas.
O Compre Rural noticiou naquele momento que haveria dois leilões: um exclusivo para agricultura familiar e outro aberto a produtores, cooperativas e comerciantes.
Agora existem os resultados.
Dos 224 mil toneladas possíveis, 191 mil toneladas foram efetivamente negociadas.
Isso significa que aproximadamente 33 mil toneladas ficaram fora da aquisição.
Em termos percentuais, a Conab conseguiu contratar 85,27% da meta máxima.
Agricultura familiar forneceu a maior parte
O primeiro leilão, realizado na sexta-feira (18), foi reservado à agricultura familiar.
A operação resultou na compra de aproximadamente 121 mil toneladas de milho, por pouco mais de R$ 152 milhões.
Esse volume corresponde a cerca de 63% das 191 mil toneladas adquiridas nos dois certames.
Na segunda-feira (21), os lotes restantes foram colocados em ampla concorrência.
Produtores, cooperativas e comerciantes puderam participar.
Foram compradas outras 70 mil toneladas, com desembolso aproximado de R$ 76 milhões.
Somados:
121 mil toneladas + 70 mil toneladas = 191 mil toneladas.
Por que comprar milho depois de uma safra recorde?
Essa é a pergunta central.
O Brasil acaba de produzir aproximadamente 144 milhões de toneladas de milho, segundo o fechamento da Conab para 2025/26.
A primeira safra teve produtividade recorde de 7.191 kg por hectare, alta de 8,8%.
A segunda safra alcançou aproximadamente 112,1 milhões de toneladas, ficando apenas 1% abaixo de seu recorde histórico.
Ou seja, milho existe.
A compra governamental tem caráter preventivo.
A própria Conab relaciona a formação dos estoques aos possíveis impactos do El Niño sobre o abastecimento de grãos.
Isso muda completamente a leitura da operação.
O governo não está entrando no mercado porque o Brasil ficou sem milho.
Está comprando enquanto existe oferta para possuir uma reserva caso as condições climáticas reduzam a disponibilidade mais adiante.
O milho irá para oito unidades da Federação
O cereal não ficará concentrado em um único armazém.
Os editais estabeleceram unidades armazenadoras localizadas em:
Bahia, Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rio Grande do Sul.
A distribuição geográfica possui importância operacional.
Milho estocado a milhares de quilômetros de onde existe necessidade perde competitividade devido ao frete.
Ao posicionar estoques em diferentes regiões, a Conab reduz parte dessa distância para uma eventual utilização futura.
Para onde vai esse milho depois?
O produto será destinado posteriormente ao Programa de Vendas em Balcão (ProVB).
O programa utiliza estoques públicos para comercializar produtos, especialmente milho, ao público enquadrado em suas regras.
Na prática, funciona como um mecanismo para disponibilizar cereal em volumes compatíveis com consumidores de menor escala, sobretudo produtores que utilizam milho na alimentação animal.
Isso ajuda a explicar por que a formação de estoques interessa também à pecuária.
Milho é um dos principais componentes energéticos das rações utilizadas em aves, suínos, bovinos confinados e produção leiteira.
Quando o cereal encarece abruptamente, o efeito rapidamente atravessa a cadeia animal.
Estoque funciona como um seguro — mas não contra preço
A decisão da Conab pode ser comparada, com as devidas diferenças, a uma espécie de proteção física.
Se a próxima safra transcorrer normalmente, o milho continuará disponível para utilização dentro dos programas governamentais.
Se houver problema climático relevante, haverá 191 mil toneladas previamente adquiridas.
Isso não significa, porém, que o estoque seja suficiente para controlar o preço nacional do milho.
Para colocar a dimensão em perspectiva, a produção brasileira da temporada 2025/26 foi estimada em 144 milhões de toneladas.
As 191 mil toneladas compradas representam aproximadamente 0,13% dessa produção.
Portanto, trata-se de uma reserva direcionada, e não de um volume capaz de substituir uma eventual quebra nacional de safra.
O mercado não deve interpretar a compra como sinal de escassez imediata
Outro cuidado importante para o produtor é separar duas coisas.
Prevenção não significa previsão de quebra confirmada.
O fato de a Conab comprar milho em preparação para possíveis impactos do El Niño não significa que o fenômeno necessariamente provocará perdas severas na próxima safra brasileira.
Resultados agrícolas dependerão de intensidade, duração e posicionamento das anomalias climáticas, além da época em que ocorrerem.
A decisão do governo é preventiva.
Ela cria estoque antes que um eventual problema aconteça.
Há também uma sinalização para o mercado
Embora 191 mil toneladas representem uma parcela pequena diante da produção nacional, compras públicas podem ter efeitos localizados.
A operação retirou produto disponível do mercado e direcionou aproximadamente R$ 228 milhões aos fornecedores.
A maior parte do volume veio da agricultura familiar.
Isso significa que o efeito econômico não deve ser analisado apenas pela proporção da safra nacional.
Em determinadas regiões e lotes, a compra pública pode criar uma alternativa adicional de comercialização.
A conta média não é o preço do milho na fazenda
Dividindo-se aproximadamente R$ 228 milhões pelas 191 mil toneladas adquiridas, chega-se a uma média financeira próxima de R$ 1.194 por tonelada, ou cerca de R$ 71,60 por saca de 60 kg.
Mas esse cálculo não deve ser tratado como cotação nacional do milho.
Os valores dos leilões incorporam condições específicas de entrega, localização, classificação, logística e regras estabelecidas pelos editais.
Portanto, comparar diretamente essa média com o preço disponível na fazenda pode gerar uma conclusão errada.
O produtor precisa considerar praça, frete, qualidade, prazo e destino.
O próximo ponto de atenção será o clima
A operação coloca uma variável nova no radar da safra 2026/27.
O Brasil entra no ciclo com produção anterior recorde e estoques que agora recebem um reforço público.
Ao mesmo tempo, o risco climático associado ao possível desenvolvimento do El Niño permanece sendo acompanhado.
Se as chuvas forem regulares e a produtividade se mantiver elevada, a compra terá funcionado essencialmente como formação preventiva de estoque.
Se houver problemas climáticos capazes de reduzir oferta regional, essas 191 mil toneladas ganham outra importância, principalmente dentro do Programa de Vendas em Balcão.
É justamente essa diferença que torna o movimento relevante agora.
O governo preferiu comprar milho antes de saber se precisará dele por causa do clima.
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