Uma ex-tratadora de zoológico transformou a paixão por animais na missão de salvar uma espécie ameaçada. Jeannette Beranger cria galinhas Crèvecoeur em sua propriedade rural na Carolina do Norte, nos Estados Unidos. As aves negras possuem cristas volumosas e barbelas vermelhas, que preservam a linhagem de uma raça francesa originária do século 12.
Essas galinhas colocam ovos até no meio do inverno, produzem carne saborosa e resistem naturalmente a doenças, atributos que fizeram da raça a ave mais popular da França no passado. Mesmo com todos esses atributos, a Crèvecoeur enfrenta risco real de desaparecimento nas últimas décadas.
Um censo realizado em 1995 encontrou menos de mil dessas galinhas em todo o mundo. Embora as populações tenham crescido significativamente desde então, a raça permanece vulnerável.
Beranger integra a missão de The Livestock Conservancy, a primeira organização desse tipo nos Estados Unidos, que trabalha para evitar que raças de criação rara entrem em extinção — algumas delas, segundo ela relatou ao Atlasobscura, “são muito mais ameaçadas que pandas gigantes”.
A busca por animais esquecidos no território americano
Fundada em 1977, The Livestock Conservancy nasceu como resposta ao declínio de raças que moldaram a história dos Estados Unidos desde o início. Justamente por isso, Beranger percorre o país com o propósito de buscar populações remanescentes de raças históricas.
Ex-chefe de tratadores no Roger Williams Park Zoo em Providence, Rhode Island, ela atua como gerente sênior do programa conservacionista. A equipe documenta a genética desses animais e muitas vezes descobre que proprietários rurais desconhecem a raridade dos animais que criam.
Um exemplo é o Choctaw Hog de Oklahoma, considerado extinto até ser redescoberto por acaso nas mãos de agricultores que o criavam sem saber de sua importância histórica. Em entrevista ao Atlas Obscura, Beranger afirmou que as pessoas não percebem que animais de fazenda podem estar ameaçados de extinção.
Desde sua fundação, The Livestock Conservancy mantém registro de mais de 100 raças em sua Conservation Priority List, e nenhuma entrou em extinção — 14 delas, inclusive, já saíram da lista de vigilância.
O legado genético e o futuro da agricultura
O valor das raças históricas vai muito além da preservação do passado. Essas linhagens funcionam como um reservatório vivo de diversidade genética, abrigando traços que podem ajudar o rebanho futuro a sobreviver às mudanças climáticas e se adaptar a novos ambientes.
Um estudo com DNA de raças raras de galinhas revelou variantes genéticas relacionadas à imunidade que são completamente inexistentes em aves comerciais — conhecimento que seria perdido junto com essas raças.
Beranger aponta o American Mammoth Jackstock, um burro grande e forte desenvolvido por George Washington para construção e trabalho pesado, como exemplo do tipo de patrimônio genético que corre risco de se perder. Para ela, a conservação dessas raças tem impacto real no futuro da agricultura.













