A agricultora Márcia Ribeiro, presidente da Associação Mulheres do Cacau de Rio Bananal, trocou as salas de aula pela vida rural. Depois de 12 anos como professora de História em Vitória, no Espírito Santo, ela decidiu trocar de profissão e plantar 2.400 pés de cacau na propriedade da família.
A primeira grande safra está prevista para este ano, quase quatro anos depois do plantio inicial. Antes de colher os frutos no campo, porém, a virada já havia acontecido na vida de mulheres do interior capixaba que resolveram se dedicar à cultura do cacau.
Do giz à enxada: uma escolha de família
Nascida na roça, ela deixou a área rural ainda jovem para lecionar na capital. Anos depois, voltou para cuidar do terreno herdado do pai, numa região onde o café era a grande tradição.
Depois de ver a produção de chocolate em feiras agropecuárias, Márcia decidiu investir no cacau, embora o café fosse a tradição da família. Ela manteve o café, cuja renda se soma à da oficina e à aposentadoria do marido.
Filho e propriedade dividiram prioridades
Antes de assumir a lavoura, Márcia já havia mudado a rotina por causa da maternidade. Conciliar a sala de aula com os cuidados do filho se tornou uma tarefa difícil, o que fez com que ela deixasse o magistério antes mesmo de retornar à roça.
Com o filho crescido, a rotina entre casa e plantação ficou mais tranquila. Conforme relatou ao Folha Vitória, o desafio passou a ser a escassez de mão de obra e a falta de qualificação específica na área do cacau.
Um projeto que virou associação
A Associação Mulheres do Cacau de Rio Bananal nasceu de um projeto para dar mais autonomia e visibilidade às mulheres que trabalhavam com cacau na roça. Márcia explicou que muitas agricultoras trabalhavam com os maridos, mas não se sentiam representadas como donas e produtoras.
Em geral, as decisões ficavam concentradas nos homens, mesmo quando as mulheres faziam a maior parte do trabalho. O crescimento da Associação trouxe visibilidade e parcerias e levou à criação da associação.
Rede que já passa de 50 mulheres
A iniciativa reúne atualmente mais de 50 mulheres espalhadas por cinco municípios da região norte do Espírito Santo: Rio Bananal, Linhares, Colatina, São Roque do Canaã e Santa Teresa. Para muitas delas, o grupo funciona como porta de entrada para o conhecimento técnico sobre o fruto.
Cursos e parcerias com órgãos como o Incaper ajudam as produtoras a administrar a própria propriedade. A capacitação ensina a plantar, adubar, podar e fermentar o cacau, o que permite produzir com mais qualidade e valor agregado. Como presidente, Márcia busca cursos voltados para o cacau e outros de interesse das mulheres da região.
Se a mulher faz o trabalho todo, por que o marido é quem “responde” pela propriedade?
Historicamente, a propriedade rural era registrada e administrada em nome do homem, geralmente o proprietário original ou herdeiro. Mesmo quando a mulher executava todas as tarefas diárias — plantar, adubar, podar e colher —, as decisões oficiais e o reconhecimento público ficavam com o marido. O trabalho dela era essencial, mas permanecia invisível para as instituições.
Por isso a Associação focou justamente em dar às mulheres o conhecimento e ferramentas para administrar e representar suas próprias propriedades — não como ajudantes dos maridos, mas como donas e produtoras reconhecidas.
Como a capacitação técnica muda o valor do produto na mão da mulher
Os cursos oferecidos pela associação em parceria com o Incaper ensinam técnicas específicas às produtoras, como plantar, adubar, podar e fermentar o cacau. Essas práticas melhoram a qualidade do fruto colhido. Bem fermentado e cuidado desde o plantio, o cacau se torna mais valioso no mercado.
Quando domina essas etapas, a mulher deixa de vender apenas um produto bruto e passa a oferecer algo com “valor agregado”, o que pode resultar em lucros maiores. Sem conhecimento técnico, porém, a produtora colhe, mas vende barato.













