Michael Hastings cavou a terra seca de sua propriedade em Winchelsea, no oeste de Victoria, para abrir uma reserva de alimento para o gado armazenada havia 18 anos.
O material, uma espécie de capim fermentado e compactado, fica enterrado a cerca de um metro de profundidade na fazenda de 350 hectares e funciona como um seguro contra períodos de seca prolongada.
Depois de mais de um ano sem chuvas decentes, chegou a hora de recorrer a essa reserva. Não havia garantia de que o conteúdo estivesse em condições de uso, já que qualquer entrada de ar no silo poderia ter estragado todo o material armazenado.
A fermentação que resistiu ao tempo
Com uma perfuratriz acoplada ao trator, o produtor rural abriu um buraco na câmara hermética para retirar a primeira amostra. O cheiro adocicado se espalhou assim que o material veio à tona, e quem acompanhava o teste sentiu alívio.
A nutricionista de gado Jess Revell esteve na propriedade para orientar o uso dessa reserva de forragem. Segundo ela, a silagem de alfafa apresentava boa textura, nível adequado de umidade e aspecto saudável, embora ainda precisasse passar por testes complementares antes de ser totalmente liberada.
Risco calculado que valeu a pena
Para o dono da propriedade, o momento era de apreensão: havia uma grande quantidade de material enterrado havia quase duas décadas. Caso o material estivesse deteriorado, o impacto sobre a operação do negócio teria sido grande.
Uma das vacas se aproximou atraída pelo cheiro doce e ganhou uma pequena porção antes que o buraco fosse fechado novamente, evitando a exposição prolongada ao ar.
Apesar do resultado positivo, o proprietário reconhece que ainda falta um longo caminho até a situação normalizar. Ele disse ao ABC que ainda enfrenta uma longa jornada pela frente e que estima precisar de ao menos seis meses até ter boas reservas de forragem novamente, acrescentando que, mesmo quando chover, as pastagens não crescem de imediato: é preciso que chuvas consistentes penetrem o solo para que a vegetação se recupere.

Mais de mil produtores pedem ajuda
A região de Corangamite, que vai de Geelong e da Bellarine Peninsula até Cape Otway e se estende ao norte até Ballarat. Viveu em 2024 seu quinto ano mais seco desde que os registros começaram em 1900, segundo dados do Bureau of Meteorology.
O ano ficou atrás apenas de 1914, 1982, 2006 e do ano mais seco de todos na região, 1967. Desde outubro, 1.086 produtores rurais já acessaram recursos de 5.000 dólares por meio do South West Drought Support Package. Programa do governo estadual destinado a canos, tanques, bebedouros, áreas de contenção de rebanho e armazenamento de grãos.
A outra frente do pacote é um serviço de consultoria individual com especialistas. Por isso, a nutricionista Jess Revell começou a acompanhar o trabalho na fazenda de Hastings.
Preço do feno e alívio fiscal
Como não conseguia produzir forragem própria havia mais de um ano, o criador de gado precisou comprar grãos. E outros insumos, assim como diversos vizinhos na mesma situação na região oeste de Victoria. Por isso, ele valoriza o apoio técnico recebido nesse período de pressão financeira e operacional.
Produtores da região também pedem medidas de alívio, como limites nos preços cobrados pelo feno e possíveis reduções nas taxas municipais cobradas de quem enfrenta a estiagem. A expectativa agora é que novas chuvas consistentes permitam a recuperação gradual das pastagens na região de Corangamite.













