Em 30 de setembro de 1976, marcaram-se 50 anos desde que a melodia tema de Blue Hills ecoou pela última vez no canal australiano ABC, encerrando o dramático seriado radiofônico que marcou lares rurais do país. A produção, transmitida de fevereiro de 1949 até aquele mês, foi a mais longa série de rádio do tipo que a Austrália teve.
Toda ela saiu da mente de uma única mulher: a dramaturga Gwen Meredith escreveu 5.975 capítulos sozinha ao longo de 27 anos. O alcance da novela era impressionante — durante os anos 1950, um em cada dois rádios na Austrália sintonizava o Country Hour e Blue Hills ao meio-dia, conforme informou à SA Country Hour o ex-locutor da ABC Ian Doyle.
O programa que parou o país
Entre 13 e 13h15, era praticamente impossível fazer negócios em lojas de cidades pequenas da Austrália. Vendedores simplesmente não podiam atender enquanto a transmissão estava no ar, pois toda a comunidade acompanhava as histórias da fictícia cidade de Tanimbla pelo rádio. Corretores de seguros aprenderam rápido: ninguém atendia porta a porta naquele intervalo.
Lorraine Greenfield, que cresceu em uma estação isolada no norte de South Australia, vivenciou essa devoção em casa — sua mãe era fã absoluta do programa e seu sogro era tão rigoroso que recusava qualquer interrupção durante a transmissão, nem mesmo quando agentes de gado viajavam horas para consultá-lo.
Da propaganda rural ao drama social
A origem dessa instituição radiofônica estava enraizada num objetivo mais pragmático. Gwen Meredith recebeu a tarefa de escrever uma série para incentivar ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial a “cultivar melhores colheitas e aumentar a produção”. O programa anterior, The Lawsons, plantou as sementes que germinaram em Blue Hills, embora carregasse uma intenção mais claramente ligada à propaganda agrícola.
A ABC investiu esforço considerável para garantir que a série refletisse a realidade agrícola australiana com precisão — clima, cultivos, épocas de colheita e inovações tecnológicas. Segundo Doyle, o departamento rural da emissora considerava essa conexão fundamental, e Meredith precisava dominar uma quantidade imensa de material técnico.
Ela própria relatou enfrentar tensão criativa: o departamento rural queria máximo de informações agrícolas, enquanto o de drama temia que isso afundasse a história.
Uma história que refletiu o país em mudança
Durante quase três décadas, Meredith escreveu o equivalente a 70 romances em forma de capítulos radiofônicos, conforme avaliou Doyle. A série transcendia questões de fazenda — abordava temas sociais variados que tocavam a vida real australiana.
No apogeu da série, a Política da Austrália Branca estava em vigor, assim como a Política de Assimilação para povos aborígenes, além de leis de segregação e proteção estatal.
Nesse contexto restritivo, Meredith escreveu um episódio sobre uma parente que teve filho de uma pessoa indígena para tentar refletir melhor a identidade multirracial da Austrália. Conforme informou ao ABC, o episódio causou enorme controvérsia, mas ela desejava introduzir a ideia de envolvimento multirracial no país, avançando o máximo possível dentro das limitações da época.
Em outros episódios, Meredith foi acusada por políticos de ser “anti-governo” ao apresentar personagens comentando sobre juros altos ou dificuldade em conseguir emprego — situações que refletiam a realidade da Austrália rural da época. Conforme informou ao ABC, a escritora não havia pensado na política por trás disso; simplesmente retratava o que se falava na região.
A dramaturga, que morreu em 2006 aos 98 anos, deixou um legado duradouro na história do rádio australiano. Para gerações de australianos rurais e regionais, Blue Hills foi muito mais que entretenimento — representou a conexão com o mundo além das propriedades isoladas.













