Leucir e Márcia Miglioretto acordam todos os dias às 4h da manhã para alimentar os animais numa rotina que se estende até o anoitecer. Há 19 anos, essa jornada diária estrutura a vida do casal no distrito de Santo Antônio. Em Concórdia, no Oeste de Santa Catarina, onde administram uma granja de suínos que começou literalmente do zero.
Hoje, a propriedade dispõe de quatro galpões com capacidade total para 2.660 suínos — um resultado que desafia qualquer expectativa sobre como uma família pode construir um negócio rural praticamente com as próprias mãos. A trajetória revela como investimento gradual, trabalho braçal constante e assistência técnica transformaram um pequeno terreno em uma operação que serve como referência na região.
Do urbano para o interior catarinense
O vínculo de Leucir com a criação de porcos vem da infância: seu pai já trabalhava com suínos e ele enxergou ali uma oportunidade real de prosperar financeiramente. Antes de mergulhar no projeto rural, porém, Leucir vivia na cidade como pedreiro, onde conheceu Márcia, sua vizinha de rua.
Para Márcia, a transição para o interior representava um salto para um universo radicalmente desconhecido. Nascida e criada no ambiente urbano, sem qualquer contato com suínos ou zona rural, ela abraçou o sonho do companheiro — mas com medo e insegurança iniciais.
Com o tempo, aquela apreensão transformou-se em afinidade genuína: hoje ela afirma amar a vida na propriedade e não a deixaria por nada no mundo.
Construção lenta e sempre em duas mãos
O negócio não cresceu de forma abrupta. Quando Eduardo, o primeiro filho, ainda era pequeno, Leucir e Márcia se dividiam entre cuidar dele, manter a granja funcionando e garantir que o dinheiro chegasse para as contas. Enquanto ele executava trabalhos fora da propriedade para complementar a renda, ela permanecia na granja tocando o dia a dia da criação.
Cada vez que sobravam recursos financeiros, o casal reinvestia tudo na ampliação da estrutura. Segundo informou o Canal Rural, Leucir resumiu esse esforço como uma parceria construída lado a lado desde o início, sempre trabalhando juntos em direção ao mesmo objetivo.
Um galpão após o outro
A expansão aconteceu ao longo de quase duas décadas, sem atalhos ou saltos repentinos. Primeiro um barracão entrou em funcionamento, depois um segundo, depois um terceiro. Neste ano, a propriedade alcançou o quarto galpão em operação.
Leucir conta com orgulho que ele e Márcia ergueram três dos quatro barracões com as próprias mãos, sem contratar mão de obra externa. Hoje, a operação recebe leitões pesando entre 25 e 30 quilos que permanecem na propriedade durante 90 a 100 dias. Período em que ganham peso até atingir aproximadamente 130 quilos — quando seguem para o abate.
Na administração diária, a rotina continua exigindo o trabalho intenso do casal: Leucir concentra-se na vacinação e nas tarefas mais pesadas, enquanto Márcia divide-se entre a gestão da granja, os cuidados da casa e a criação dos filhos.
Obstáculos e reconhecimento
A trajetória de crescimento enfrentou períodos muito desafiadores, especialmente quando o casal precisou assumir a propriedade sozinho herdando uma dívida elevada. Márcia relembra que essa foi a parte mais desafiadora naquele momento: ter o filho pequeno, passar necessidades, e trabalhar tanto fora da granja quanto na própria granja para conseguir reverter o quadro.
Durante anos, a jornada foi caracterizada por trabalho ininterrupto. Segundo informou o Canal Rural, Leucir descreveu esse ritmo como dia a dia, sol a sol, domingo a domingo — esforço que combinava atividades dentro e fora da granja para reverter o quadro financeiro. Márcia indicou que a suinocultura representa tudo aquilo que a família conquistou. Foi por meio do trabalho e do amor dedicados aos animais que puderam financiar a educação dos filhos, incluindo a faculdade de Eduardo, que se formou neste ano.
A propriedade transformou-se em referência de manejo, gestão e assistência técnica na região. O médico-veterinário Janier Luiz Capes, supervisor de terminação, destacou ao Canal Rural que o casal realiza uma gestão muito eficiente, acompanhando controles de consumo, mortalidade, manejo e indicadores de desempenho durante todo o lote.
A assistência técnica também é apontada como componente essencial para alcançar bons índices produtivos, dependendo da relação de confiança entre produtor e extensionista. Por essa disposição em incorporar novas práticas, a granja é utilizada como modelo para visitas, dias de campo e treinamento de outros suinocultores da região.













