Milho, trigo e outros grãos usados na alimentação animal estão sujeitos à ação de fungos que liberam compostos tóxicos. As chamadas micotoxinas, capazes de prejudicar a saúde e a produtividade dos animais mesmo sem manifestações visíveis do problema.
Como não alteram a cor, o cheiro nem o sabor do alimento, essas toxinas passam despercebidas mesmo em grãos que aparentam estar em boas condições.
Como a alimentação representa uma fatia expressiva dos gastos na produção de carne, leite e ovos, essa contaminação tende a pesar diretamente sobre os resultados financeiros de quem produz. Entre os efeitos mais frequentes estão o aproveitamento pior da ração, dificuldades para absorver nutrientes e enfraquecimento das defesas do organismo animal.
Desde 2004, o monitoramento acompanha a presença dessas toxinas em grãos e coprodutos usados na fabricação de rações.
Um risco que passa despercebido
A contaminação por micotoxinas nem sempre provoca doença visível ou sintomas fáceis de identificar. Boa parte dos prejuízos acontece de forma silenciosa: o animal come normalmente, não adoece de forma evidente, mas demora mais para ganhar peso ou converte pior o alimento em carne, leite ou ovos.
Reprodução, imunidade e aproveitamento de nutrientes também podem ser afetados sem que nada chame atenção no dia a dia do plantel. Por isso, o monitoramento constante dos grãos é relevante para quem depende da eficiência produtiva para manter a rentabilidade.
Como essas toxinas surgem nos grãos
O nome micotoxina vem da junção de “mico”, ligado a fungos, com “toxina”, substância que causa dano ao organismo. Diferentes espécies de fungos produzem esses compostos como parte de estratégias naturais de sobrevivência e disputa por espaço no ambiente.
Existem centenas de tipos catalogados, mas a indústria de alimentos e ração monitora de perto um grupo reduzido. Aflatoxinas, fumonisinas, deoxinivalenol e zearalenona lideram essa lista, e a ocratoxina e a toxina T2 também recebem atenção. Oito em cada dez amostras analisadas apresentaram duas ou mais micotoxinas simultaneamente, o que pode amplificar os riscos.
A instalação do fungo pode acontecer tanto na lavoura quanto durante o armazenamento dos grãos, a depender do clima, da espécie envolvida e da qualidade do manejo pós-colheita. Por isso, um lote de milho com aparência perfeita pode esconder contaminação: a inspeção visual não garante que esteja livre de toxinas.
A fumonisina, porém, foi a que mais chamou atenção no período, tendo sido detectada em cerca de 71% dos casos, com forte ligação ao milho e aos produtos derivados dele.
A aflatoxina e seu poder de resistência
A aflatoxina é uma das micotoxinas mais estudadas e tem como principais responsáveis fungos do gênero Aspergillus. Ela compromete o fígado dos animais e, quando a exposição se repete por muito tempo, pode causar câncer.
Sua resistência é outro ponto que preocupa a cadeia produtiva: tratamentos térmicos ou químicos comuns não bastam para eliminá-la por completo do grão contaminado. Isso reforça a importância de agir na prevenção, ainda no campo e no armazenamento, para reduzir a chance de a toxina chegar até o comedouro dos animais.
O impacto além da porteira
Quando o problema atinge grandes volumes de grãos, os efeitos deixam de afetar apenas fazendas e fábricas de ração. Restrições sanitárias em outros países podem barrar a entrada de cargas contaminadas, criando obstáculos comerciais para quem exporta.
Diferentes espécies animais apresentam sensibilidades distintas, e suínos estão entre os mais sensíveis às micotoxinas, enquanto as aves também estão entre os mais vulneráveis. Ruminantes tendem a ser menos afetados, mas animais de maior desempenho genético podem ser mais sensíveis do que eram.
Fatores climáticos como El Niño influenciam diretamente a proliferação desses fungos, sobretudo em anos de clima irregular. Temperaturas elevadas favorecem a aflatoxina e a fumonisina, enquanto períodos de chuva em excesso criam condições para o deoxinivalenol e a zearalenona.
Limitações na capacidade de armazenagem e o uso crescente de silos bolsa podem ampliar o risco se houver problemas de vedação ou entrada de umidade.
Manter o controle sobre a qualidade dos grãos desde a colheita até o armazenamento segue sendo o caminho mais direto para reduzir prejuízo e preservar o acesso a mercados como União Europeia e Estados Unidos.













