Especialista explica a dieta ideal para usar no confinamento

Especialista explica a dieta ideal para usar no confinamento

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vacas em confinamento
Foto: Agrônomo Alan Moreira

O custo da dieta é muito grande dentro do confinamento. Entretanto, é através dela que iremos alcançar o rendimento necessário para obter o máximo lucro.

Após o grande sucesso da matéria: Puro Grão: Especialista explica a dieta sem volumoso. Trazemos um nova conversa com o Dr. Paulo Cesar Rocha, que é médico veterinário e consultor da Rações Futura. Acrescento aqui, ainda, que se falarmos em confinamento, esse é o nome responsável pelas grandes conquistas desse sistema no Brasil.

Segundo o Dr. Paulo, as variáveis econômicas são extremamente variáveis, tendo um peso de 50% das variáveis zootécnicos e 50% da capacidade do produtor de negociar. O agronegócio é a arte de negociar, a arte de saber comprar, a arte de saber vender, a arte de saber estocar e ainda colocar em prática essas estratégias no negócio.

1. Quando falamos de confinamento, temos uma variação em relação a ingestão de ração por esses animais em cada sistema: Baixo Grão, Médio Grão e Alto Grão. Existe uma dúvida ainda em qual é a diferença entre essas dietas?

Houve uma época em que confinamento era classificado como intensivo, extensivo ou semi-intensivo, isso era uma classificação com inúmeras variáveis e que tinha uma dificuldade de ser explicado e sem uma definição correta. Com essa premissa, recentemente resolvi avaliar o confinamento pela quantidade de concentrado que os animais ingeriam, e então classificar como:

  • Baixo Grão: Confinamento em que os animais comem sal proteinado de alto consumo até 1 kg de concentrado por dia;
  • Médio Grão: Confinamento em que os animais ingerem até 1% do Peso Vivo de concentrado, aproximadamente 50% da matéria seca total que ele iria ingerir seria de concentrado;
  • Alto Grão: Confinamento em que os animais ingerem entre 1,5 e 1,8% do Peso Vivo da matéria seca em concentrado;
  • Puro Grão: Confinamento em que os animais ingerem apenas concentrado na faixa de 2% do Peso Vivo, sem volumoso.

2. Ainda dentro do assunto acima, qual é o impacto em tempo de confinamento, quando utilizamos cada uma das dietas?

O tempo de confinamento é proporcional a dieta que nos usamos. Quanto maior a concentração mais rápido. Existem animais hoje que são abatidos com 14 a 16 arrobas, sendo que temos animais em outras regiões sendo abatidos mais pesados, com 18@ e uma dieta com maior nível de concentrado. E ainda, quando nós queremos animais para exportação onde a classificação de marmoreio tem que estar acima de 6 para que ela entre em uma classificação acima de standard, caminhando para uma classificação Premium, ai sim abatemos animais com 18@. Isso interfere um pouquinho no tempo de abate.

 Como regra geral para abate, temos:

  • Baixo Grão: Animais abatidos com 3 a 4 anos, dependendo da suplementação implementada;
  • Médio Grão: Animais abatidos com menos de 24 meses;
  • Alto Grão: Animais abatidos com menos de 18 meses;
  • Puro Grão: Animais abatidos com menos de 1 ano de idade, desde que ele inicie sua vida nesse sistema.
Veja a matériaQuais são as idades de abate e seus respectivos pesos?

3. Existe diferença na recomendação de inclusão da dieta em relação a categoria animal?

Na verdade o que define o consumo não é a categoria animal, mas o peso vivo. A gente segue sempre uma relação percentual do peso vivo do animal, depende muito em que fase eu estou querendo chegar.

Agora, quando falamos de animais que estão sendo criados para reprodução e não para abate, ai sim trabalhamos com uma dieta sempre mais moderada, para que os animais sejam precoces e que tenham uma maturidade sexual proporcional. Dessa forma evitamos ter um animal precoce demais e sem ter atingido a maturidade necessária.

Já em animais criados de forma confinada para abate, o que vai impactar no tempo de confinamento é a definição de que sistema que eu usei (médio, alto ou puro grão) e com relação a inclusão percentual também entra no mesmo critério utilizado da dieta.

Existem inúmeras fazendas hoje, que possuem muita forragem e pastos bons, e que no período das águas (novembro até maio) estão fazendo médio e alto grão. Ou seja, aproveitando a forragem disponível e tratando no cocho em determinada hora do dia. Isso é muito bom porque coincide também com o período em que arroba tem, principalmente início do ano, preço baixo e milho caro. Essa época se utiliza o médio e alto grão e deixa o puro grão principalmente para junho e julho, como exemplo o número de cliente utilizando o puro grão agora é altíssimo. Essa é a época em que historicamente o milho está com o preço mais baixo, devido a colheita da safrinha. Entretanto esse ano tivemos algumas adversidades que não fizeram da safrinha um recorde e o preço do milho não sofreu uma queda tão grande como o esperado.

Mas como regra, o pessoal defini mais pela época do ano e pela disponibilidade de forragem. Atrelado a isso o acompanhamento do preço de arroba e o preço do milho, como descrito acima.

bois comendo em confinamento
Foto: Agrônomo Alan Moreira

4. Qual a vantagem em relação a área de produção, qualidade de carcaça, e retorno financeiro quando utilizamos a dieta de Puro Grão?

A vantagem em relação a área de produção é que existe uma “guerra” contínua, principalmente nas regiões de terra muito férteis, entre a pecuária e agricultura. Onde o boi de 3 anos (sistema de baixo grão tradicional) comparado com a agricultura que colhe duas safras de milho/soja na mesma área em um ano, ou seja, teríamos de 6 a 8 safras na agricultura enquanto tiraríamos um boi e isso acaba com a pecuária.

Agora, quando incluímos o puro grão, a agricultura vira uma grande aliada da pecuária, porque otimiza o consumo do milho, principalmente quando o grão está mais barato, a pecuária salva então a rentabilidade do grão para o produtor.

A qualidade da carcaça é influenciada pela qualidade genética dos animais. Entretanto em especial no puro grão, a tecnologia aproxima muito e ela consegue nivelar muito a genética, porque se os animais tiverem em confinamento por um bom prazo (4 a 6 meses), vamos ter um alto rendimento de carcaça pela redução da digesta, diminuição da água, do órgãos.

Temos que lembrar que a gordura entremeada ela se deposita, em especial, após a produção da gordura superficial. Então, quando medimos no contra-filé a espessura de gordura, nós conseguimos uma boa gordura entremeada quando passa de 6 a 10mm de gordura. Acima de 10mm estamos falando de uma classificação acima de 6 a 8. Estamos trabalhando para conseguir através da nutrição produzir animais mais leves, com uma espessura de gordura menor no contra-filé e uma boa marmorização. Esse trabalho deve ser publicado agora em setembro, acredito.

Entenda como se dá a classificação das carnes:

Foto: BeefPoint

Em relação ao retorno financeiro, esse fator depende sempre da eficiência do produtor em equilibrar as variáveis zootécnicas e financeiras. Sendo essas:

Os fatores financeiros são:

  • Saber comprar o boi na hora certa. Sabemos que sempre do mês de abril a junho ou julho no Brasil a arroba é mais barata.
  • Saber vender na hora certa. Sempre entre outubro e dezembro a arroba é mais cara.
  • Saber comprar milho e estocar milho na hora certa. Melhor preço de milho é sempre entre mês de julho e agosto, quando ocorre colheita da safrinha, em especial no centro oeste brasileiro.

Os fatores zootécnicos são:

  • Adaptação é um fator importante, representando no mínimo 30% do resultado do confinamento;
  • Instalações, representando 25% do resultado;
  • Qualidade da ração e do milho;
  • Sanidade do rebanho, vacinas, vermifugação e ambiência

O confinamento não é uma atividade simples para aventureiro. É uma atividade para profissional que lê, estuda e se capitaliza. O confinamento é uma verdadeira empresa onde o produtor tem que ser um verdadeiro investidor e empresário da atividade.

5. Uma dúvida que sempre surge entre os pecuaristas é quanto a castrar ou não os animais. Qual a recomendação? Existe diferença na qualidade da carne?

A castração é uma prática antiga. Os frigoríficos sabem que quem compra as carnes de primeira, normalmente, consomem esses cortes em churrascos ou para assar. Sendo assim, procuram uma carne mais macia e com mais gordura externa e marmorizada.  Então, quando você castra o animal ele para de crescer. Assim, quando ele para de crescer ele começa a produzir mais gordura, por isso a recomendação de castrar visa maior deposição de gordura.

Eu não recomendo mais a castração dos animais. Os confinamentos de alto grão e puro grão, as dietas tem que ser balanceadas, a quantidade de concentrado e o peso ao abate tem que ser feito, de modo tal, que os animais inteiros ao chegar ao peso e acabamento ideal, ele já esteja com acabamento de gordura externa e um marmorização dando uma carne de qualidade.

Castrar animais é coisa do passado

Para tanto, a nutrição de alto grão e puro grão permite alcançar isso. Outro ponto importante é que, quando castrados, os animais passam a ganhar menos peso. Fato esse explicado pelo motivo de que o animal para de crescer. Se você pegar um animal jovem, com dieta balanceada, ele pode crescer 2 cm por mês. Ele crescendo assim, principalmente pela influência dos hormônios produzidos pelo testículo, esses animais vão ganhar 1 arroba a mais no ganho de peso. Do outro lado, quando você pesa um animal jovem e castrado que parece ter maior peso, ele não corresponde na balança porque ele só encheu e não cresceu.

Quando falamos ainda das perdas, temos grande estresse e danos a saúde do animal, levando a um menor ganho de peso. Temos que lembrar que 1kg de músculo tem aproximadamente 29% de matéria seca, enquanto 1kg de gordura tem 90% de matéria seca. Ou seja, o custo para se fazer um kg de gordura é muito maior do que se fazer um kg de músculo. O sistema de alto grão e puro grão permite, uma vez bem feita, que o animal cresça, ganhe peso, com crescimento de carcaça e ao abate apresentar um teor de gordura ideal.

6. Para finalizar, você poderia elencar os 10 erros mais comuns que o pecuarista comete no confinamento e apontar um como principal impactante para o lucro nesse sistema?

Existem alguns vídeos meus na internet onde abordo esse assunto e em breve estaremos lançando um livro onde detalhamos mais sobre o tema.

Se você elencar os 10 principais erros:

  • Comprar animais que não tem o biotipo genético adequado para o confinamento;
  • A falta de conforto no confinamento. Lama, barro, calor;
  • Falta de estrutura adequada;
  • Espaçamento de cocho inadequado para os animais;
  • Mistura de ingredientes errada e uma dieta desbalanceada;
  • Vermifugação inadequada;
  • Ausência de vacinação preventiva, principalmente para clostrídiose;
  • Confinar animais doentes. Podemos confinar animais magros e fracos, mas nunca doentes;
  • Comprar milho com caruncho, fedegoso e impurezas. Ou seja, comprar milho que não seja classificação A;
  • Comprar animais com preço muito caro. Preço igual ou superior ao que será vendido ao final do confinamento.

Eu não citaria um como um principal para determinar o resultado financeiro. Eu sempre cito três como sendo fundamentais para garantir o sucesso: Preço de entrada do animais, Preço de saída dos animais e o Preço da dieta dos animais. Saber trabalhar esses três pilares é chave para o sucesso.

Veja os vídeos abaixo:

Agradeço ao Dr. Paulo, mais uma vez pela oportunidade de poder transmitir a sua sabedoria para os pecuaristas que estão sempre buscando melhorar.

Você pecuarista é quem sustenta a economia desse gigante do Agro que é o BRASIL!

 

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