Em Jaú (SP), propriedade ligada à família do cantor desde os anos 1950 preserva construções antigas enquanto recebe projeto agroecológico com recuperação de mata ciliar e produção diversificada
Nando Reis tem fazenda histórica no interior paulista que guarda muito mais do que lembranças da infância. Em Jaú, a Fazenda Frei Galvão reúne uma casa antiga, capela e estufa de plantas, mas ganhou também outra característica nos últimos anos: parte da propriedade passou a ser usada em um projeto de agrofloresta, recuperação ambiental e valorização da biodiversidade.
O imóvel está ligado à família paterna do cantor há mais de sete décadas. Em depoimento ao Museu da Pessoa, Nando contou que seu avô, que era agrônomo e fazendeiro, comprou a área em 1954, depois de vender sua participação em outra propriedade pertencente à família. Foi ele quem deu ao local o nome Fazenda Frei Galvão, referência à ascendência familiar relacionada ao santo brasileiro.
Com o passar das gerações, a área original sofreu divisões. Nando relatou que, após a morte do avô, partes foram vendidas por integrantes da família. O que permaneceu continuou ligado ao pai do músico e às memórias construídas durante as férias que ele passava em Jaú desde criança.
Nando Reis tem fazenda histórica onde decidiu investir em agrofloresta

Décadas depois das primeiras lembranças familiares, a relação de Nando com a propriedade ganhou uma dimensão ambiental.
Durante o período em que permaneceu mais tempo em Jaú na pandemia, o músico revelou que havia começado a investir em uma agrofloresta. Na ocasião, explicou à Veja São Paulo que enxergava essas ações locais como uma maneira concreta de reagir aos problemas ambientais, mesmo que dentro de uma pequena área sob sua responsabilidade.
A iniciativa não ficou apenas no discurso.
Um trabalho acadêmico publicado na Revista Fatecnológica da Fatec-Jahu documentou a implantação de um Sistema Agroflorestal na Fazenda Frei Galvão. Segundo o estudo, a propriedade analisada possui 13,57 hectares, ocupados por pastagem e áreas com culturas como cana-de-açúcar, limão e atemoia.
A agrofloresta começou em um trecho bem menor: 0,23 hectare de um antigo pomar de limão-taiti que estava havia anos sem os mesmos cuidados de cultivo. A proposta foi substituir aquela dinâmica por uma área capaz de combinar produção agrícola, árvores e recuperação do ambiente.

De café e banana a árvores nativas
A composição escolhida para o sistema ajuda a dimensionar o projeto.
No mesmo espaço foram introduzidos milho, feijão-guandu, banana, abacaxi, café, limão, mamão, girassol e crotalária, além de espécies arbóreas como capixingui e aroeira-pimenteira. O estudo também registra a seleção de plantas nativas, exóticas e espécies com interesse para polinizadores.
A lógica é diferente de simplesmente transformar toda a área em uma única lavoura. O sistema foi planejado para ocupar diferentes estratos de vegetação e combinar funções produtivas e ambientais.
O diagnóstico realizado antes da implantação identificou objetivos bastante específicos: melhorar o solo, diversificar a produção, favorecer a fauna e ampliar a biodiversidade de uma paisagem rural cercada principalmente por canaviais e pastagens.
Também havia uma questão prática. A produção inicialmente seria voltada principalmente ao consumo da própria família. Entre as culturas avaliadas no projeto, o café apareceu como aquela com possibilidade de produção comercial.
Nos primeiros quatro meses de acompanhamento, entre novembro de 2020 e março de 2021, a mortalidade registrada entre as espécies perenes monitoradas ficou abaixo de 13%, segundo os pesquisadores. Para algumas culturas, entretanto, foram necessários ajustes, como a instalação de irrigação para as mudas de café.

Abelhas sem ferrão e mata ciliar entram no projeto
As abelhas também aparecem nessa transformação da propriedade.
Registros sobre a relação de Nando Reis com Jaú apontam que o músico mantém abelhas nativas sem ferrão no local, enquanto investe simultaneamente na agrofloresta e na recuperação da mata ciliar. A combinação não é aleatória: o próprio planejamento do sistema agroflorestal considerou espécies vegetais melitófilas, associadas à oferta de recursos para polinizadores.
Outro ponto importante é a água.
A Fazenda Frei Galvão está localizada na microbacia do Ribeirão Pouso Alegre. Conforme o estudo da Fatec-Jahu, a região foi classificada como de alta prioridade para restauração florestal dentro do planejamento ambiental da bacia Tietê-Jacaré.
Por isso, a estratégia ambiental foi além do trecho destinado ao plantio consorciado. O projeto previa também restauração de matas ciliares e formação de corredores capazes de favorecer a circulação da fauna e ampliar a biodiversidade dentro da propriedade.
Anos depois, o tema continuava nos planos do cantor. Em entrevista publicada pelo UOL em 2025, Nando voltou a mencionar a intenção de recuperar a mata ciliar, manter a agrofloresta, produzir alimentos e conservar a antiga residência da família.

Nando Reis tem fazenda histórica com casarão, capela e estufa
Se a agrofloresta representa uma fase mais recente da Fazenda Frei Galvão, as construções contam a parte mais antiga dessa história.
A propriedade conserva um casarão, uma pequena capela e uma estufa, onde Nando mantém sua coleção de plantas. Entre os exemplares cultivados estão cactáceas, eufórbias e suculentas, interesse que o músico desenvolveu junto de Vânia Passos.
A organização dessas plantas ganhou inclusive uma ligação curiosa com o trabalho artístico de Nando. O cantor já comparou o processo de agrupar diferentes espécies e vasos ao modo como estrutura músicas e discos: elementos distintos precisam encontrar uma ordem dentro de um conjunto maior.
A capela, por sua vez, reforça a ligação da propriedade com o próprio nome Frei Galvão. No relato ao Museu da Pessoa, Nando explicou que a denominação escolhida pelo avô estava associada à ascendência familiar.
A propriedade rural que entrou na obra de Nando Reis

A influência da fazenda chegou também à música.
As férias passadas em Jaú fazem parte das lembranças de Nando desde a infância, quando ele alternava períodos no interior com temporadas no litoral paulista. O vínculo permaneceu durante a vida adulta e se intensificou novamente quando passou longas temporadas na propriedade com a família.
Mais recentemente, esse universo apareceu no projeto “Uma Estrela Misteriosa”, aproximando as memórias do interior da produção musical do cantor.
É justamente essa combinação que torna a Fazenda Frei Galvão diferente de uma simples propriedade de celebridade. O local atravessou gerações, perdeu parte de sua extensão original, preservou construções familiares e ganhou uma nova função.
Hoje, o casarão antigo divide a paisagem com café, frutas, espécies florestais, abelhas e áreas em recuperação. Um patrimônio familiar que Nando Reis tenta manter vivo não apenas pela memória, mas também pela forma como escolheu cuidar da terra.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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