Não adianta culpar o boi

Não adianta culpar o boi

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Boi Brasil no topo do mundo
Foto: Rubens Ferreira / @fotodeboi

Dólar com alta volatilidade, exportações crescentes, principalmente para o mercado chinês e demanda interna explicam aumento do preço da carne

Primeiro foi o arroz. Agora está chegando a hora da carne bovina. O preço dos alimentos sempre foi sensível, pois o consumidor não tem a opção de postergar suas compras. Almoço e jantar são todos os dias.

A decisão política do governo sobre o arroz foi reduzir as alíquotas de importação. Demorou um pouco e dificilmente terá forte influência, pois também o mercado internacional está difícil. O ciclo do arroz é curto, com safras anuais. A produção certamente se ressente de anos passados ruins, resultado de clima adverso e ausência de apoio governamental e seguro agrícola. Nada, porém, como um ano bom para produzir mais. A poupança do agricultor é sempre preferencialmente a safra futura.

No passado um pouco distante, porém ainda na memória de muitos, o boi esteve no centro de um queda de braço entre pecuaristas e autoridades. Durante o plano Cruzado, em 1986, com o sumiço da carne de açougues e supermercados, o governo Sarney, desconfiado de que os pecuaristas estavam boicotando o congelamento de preços, mandou fiscais confiscarem animais nas propriedades. Acredito que nós, brasileiros, aprendemos a lição, e ninguém sairá atrás de boi nos pastos dessa vez.

O ciclo produtivo da carne bovina é mais longo do que o do arroz. Inicia-se pela gestação da vaca até chegar ao boi pronto para o abate. O Brasil tem reduzido significativamente esse ciclo. Claro que não nos nove meses necessários para a gestação, porém as fêmeas se tornam férteis mais cedo, e os machos ganham peso mais rápido. Investimentos em tecnologia têm propiciado crescimentos contínuos na produção de carne. Em uma década crescemos pouco mais de 20%. No último ano, a consultoria Athenagro projeta um aumento de 1,3%.

A disponibilidade per capita da carne bovina tem permanecido estável, hoje, ao redor de 39 kg/pessoa/ano. O aumento de consumo de carnes pelo brasileiro tem ocorrido na carne de aves.

As exportações de carne bovina cresceram significativamente na primeira parte dos dez anos passados se estabilizando nos últimos anos. Têm permanecido forte se alterando os destinos hoje muito dominados pela China e Hong Kong com quase 60%.

Produção e exportação cresceram e, nos últimos anos, se estabilizaram. O que ocorre com os preços?

O boi é um só, porém desmontado ele atende a diferentes mercados. A indústria de abate também é bastante segmentada. Os grandes frigoríficos, poucos, porém com muitas unidades, são os que exportam e, portanto, estão diretamente ligados aos mercados externos e sofrem fortíssima influência do câmbio. Os frigoríficos menores se restringem ao mercado interno. Todos se abastecem no mesmo mercado de bovinos.

A pandemia de Covid-19 tumultuou bastante os mercados internacionais, agravando desajustes que já existiam. Pelo menos no setor de frigoríficos, o Brasil felizmente passou ao largo dos fortes eventos de saúde pública que tumultuaram o mercado norte-americano e mesmo o europeu. Lá, a fortíssima concentração de abates em unidades enormes, que sofreram paralisações como resultado da contaminação de funcionários, provocou transtornos nos mercados. Ocorreram inclusive sacrifícios sanitários. No exterior, é muito comum a existência de alojamentos com trabalhadores migrantes, o que facilitou muito a contaminação entre humanos, obrigando a paralisação do abate.

No Brasil, as unidades são menores, espalhadas pelo território. Os funcionários residem em unidades unifamiliares, mesmo que modestas.

Os estabelecimentos de abate, aqui e no exterior, foram projetados para evitar a contaminação dos produtos, e não entre humanos. É muito comum a existência de trabalhadores atuando ombro a ombro. Aqui no Brasil, temos uma legislação trabalhista forte e um Ministério Público atuante. Desde o primeiro dia, o governo e o setor privado se preocuparam em atuar protegendo os trabalhadores. O governo emitiu portaria introduzindo alterações no ambiente de trabalho, e as indústrias atenderam novos protocolos sanitários.

Ocorreram inúmeras paralisações de unidades, por cerca de quinze dias, sempre que eram identificados maiores números de casos de Covid-19 entre os trabalhadores. Os cuidados tiveram resultado, e estamos atravessando a pandemia com a imagem de fornecedor confiável.

A China, que já vinha enfrentando uma crise na produção de carne suína por causa de outro vírus, o da Peste Suína Africana, se tornou grande importador de todas as carnes, pagando preços superiores aos que vinham sendo praticados. E os grandes frigoríficos exportadores têm impulsionado o mercado de bovinos.

As vendas para o exterior, com o câmbio favorável desses dias, permitem alta nos preços dos bovinos, pressionando os frigoríficos menores; eles vendem a carne no mercado interno espremidos pela resistência do consumidor, que sempre pode optar por outras carnes, outros cortes, outras proteínas ou mesmo vegetais. Um desajuste momentâneo, que provocará o aumento da produção e produtividade futura.

Depois da carne virão os próximos desajustes, além dos alimentos. Já há falta de aço, cimento, plásticos, tecidos.

Certamente tínhamos que atender a população prejudicada pelas paralisações provocadas pela pandemia. Parece-nos, porém, que o elevadíssimo montante de recursos despendido foi distribuído com pouco critério, pois, se os necessitados receberam, muitas pessoas que não deveriam ter recebido também o fizeram.

Agora, vai faltar para aqueles que continuam necessitando de ajuda. A massa de recursos financeiros distribuídos para a população não atendeu somente aos que tinham perdido renda. Ampliou e alterou a disponibilidade financeira de muita gente.

Não adianta colocar a culpa no boi.

Pedro de Camargo Neto, produtor rural, doutor em engenharia, foi presidente de entidades de classe e secretário de Produção e Comércio do Min. da Agricultura (2001-2002). Fonte da Notícia / Piauí – Folha de S. Paulo

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