“Supertilápia” brasileira cresce até 30% mais rápido e genética da UEM já está em 70% do mercado nacional

Programa de melhoramento iniciado a partir da linhagem GIFT chegou à 17ª geração e ajuda a reduzir o tempo para o abate; avanço ocorre enquanto o Brasil supera 700 mil toneladas de tilápia produzidas por ano

Uma transformação silenciosa dentro dos tanques de piscicultura ajuda a explicar parte do avanço da produção brasileira de tilápias. Peixes que antes precisavam de aproximadamente 14 meses para atingir 800 gramas podem chegar ao mesmo peso em um período até 30% menor, resultado de quase duas décadas de seleção genética conduzida por pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná.

O trabalho deu origem à Tilamax, desenvolvida a partir da mundialmente conhecida linhagem GIFT (Genetically Improved Farmed Tilapia). Em 2026, o programa alcançou sua 17ª geração, acumulando aproximadamente 35% de ganho genético dentro do núcleo de pesquisa. Segundo a própria universidade, a genética desenvolvida pela UEM atualmente atende cerca de 70% do mercado brasileiro e já ultrapassou as fronteiras do país.

A dimensão desse avanço fica ainda mais evidente quando colocada diante do tamanho da cadeia. O Brasil produziu 707 mil toneladas de tilápia em 2025, e somente o Paraná respondeu por 273 mil toneladas, ou 38,6% do total nacional.

Tudo começou com 600 tilápias vindas da Malásia

A história da genética que hoje está espalhada pelas pisciculturas brasileiras começou em março de 2005. Naquele ano, a UEM recebeu do WorldFish Center, da Malásia, 30 famílias da linhagem GIFT, com 20 animais cada — 600 peixes no total.

Esse material se tornou a base para um programa contínuo de seleção realizado na Estação Experimental de Piscicultura da universidade, no distrito de Floriano, a cerca de 20 quilômetros de Maringá.

A escolha da GIFT não aconteceu por acaso. A linhagem é resultado de um programa internacional de melhoramento de tilápias e chegou ao Brasil justamente para servir de base a trabalhos de seleção adaptados às condições nacionais.

A partir daí, os pesquisadores brasileiros passaram a selecionar sucessivamente os indivíduos de melhor desempenho.

O material original fornecido à reportagem usada como ponto de partida para esta apuração destaca justamente que o objetivo não é criar simplesmente um peixe maior, mas selecionar animais capazes de crescer mais rapidamente e aproveitar melhor a alimentação.

Como nasce uma tilápia geneticamente superior

O processo lembra, em vários aspectos, aquilo que há décadas acontece no melhoramento de bovinos, aves, suínos e plantas agrícolas.

Na UEM, representantes de 50 a 90 famílias são avaliados anualmente, envolvendo aproximadamente 3 mil peixes. Entre eles, os pesquisadores identificam os indivíduos com características consideradas superiores.

De cada grupo são selecionadas as quatro melhores fêmeas e os dois melhores machos, responsáveis pela formação da geração seguinte.

Entre as características buscadas estão crescimento acelerado, maior rendimento de filé, menor proporção de cabeça e maior largura de lombo.

Há ainda uma preocupação fundamental: controlar o parentesco.

Os animais são identificados individualmente, permitindo acompanhar sua genealogia e evitar cruzamentos entre indivíduos muito próximos. O material consultado explica que os peixes recebem identificação ainda jovens, permitindo aos pesquisadores reconstruir a árvore genealógica das famílias ao longo das gerações.

É essa repetição, geração após geração, que acumula os ganhos.

Segundo Carlos Antonio Lopes Oliveira, coordenador da equipe de melhoramento da UEM, o avanço médio dentro do núcleo de pesquisa gira em torno de 2% por geração, acumulando aproximadamente 35% desde a população original.

De 14 meses para até 30% menos tempo

Para o piscicultor, toda essa genética precisa se transformar em uma coisa bastante concreta: mais peixe produzido em menos tempo e com melhor aproveitamento dos recursos da propriedade.

E é justamente aí que aparece um dos resultados mais importantes.

Segundo a UEM, uma tilápia que anteriormente levava aproximadamente 14 meses para chegar aos 800 gramas pode atualmente atingir esse peso entre 25% e 30% mais rápido, dependendo das condições e do sistema de produção.

Isso não significa que qualquer peixe Tilamax terá automaticamente esse desempenho. Temperatura da água, qualidade da ração, densidade, sanidade, oxigenação e manejo continuam determinantes.

A genética aumenta o potencial produtivo. Para que esse potencial apareça no tanque, o ambiente precisa acompanhá-lo.

É uma lógica semelhante à observada na pecuária: genética superior sem nutrição e manejo adequados dificilmente expressará tudo aquilo para que foi selecionada.

O efeito aparece diretamente no custo da piscicultura

Reduzir o ciclo produtivo tem implicações econômicas importantes.

Quanto mais rapidamente o peixe alcança o peso comercial mantendo boa conversão alimentar, menor tende a ser a quantidade de recursos necessária para produzir cada quilo de pescado.

O produtor também ganha maior capacidade de giro das estruturas existentes. Em vez de depender apenas da construção de novos viveiros ou tanques, aumento de produtividade e redução do ciclo permitem produzir mais utilizando melhor a estrutura já instalada.

É justamente por isso que melhoramento genético se tornou uma das ferramentas estratégicas da piscicultura moderna.

Dados divulgados anteriormente pelo próprio PeixeGen indicavam ganhos sucessivos na velocidade de crescimento da Tilamax. Em 2023, quando o programa chegava à 14ª geração, pesquisadores apontavam ganhos genéticos contínuos no desempenho dos animais.

Genética da UEM se espalhou pelo Brasil

Talvez o número que melhor dimensione a influência do projeto seja sua presença comercial.

A UEM informa atualmente que aproximadamente 70% do mercado nacional é atendido pela genética desenvolvida pelo programa, além de registrar sua chegada a outros países.

O modelo funciona como uma pirâmide genética.

A universidade mantém o núcleo de melhoramento, seleciona os animais superiores e disponibiliza reprodutores para multiplicadores. Essas empresas produzem matrizes, reprodutores e alevinos que posteriormente chegam às propriedades comerciais.

Assim, um número relativamente pequeno de animais selecionados dentro do núcleo pode influenciar milhões de tilápias produzidas comercialmente.

É importante fazer uma distinção em relação ao material publicado em julho: aquela reportagem apontava uma estimativa de cerca de 80% das tilápias brasileiras com algum grau de parentesco com a genética da UEM. Já a informação oficial mais recente encontrada nesta apuração, divulgada pela própria universidade em março de 2026, afirma que a genética atende 70% do mercado nacional. Por se tratar de métricas potencialmente diferentes — parentesco genético e participação de mercado — os percentuais não devem ser tratados como equivalentes.

Tilápia já supera 700 mil toneladas no Brasil

O avanço genético aconteceu simultaneamente à transformação da tilapicultura em uma das cadeias mais industrializadas da produção animal brasileira.

Em 2025, foram produzidas 707 mil toneladas de tilápia no país. O Paraná sozinho entregou 273 mil toneladas, seguido por São Paulo, com 88,5 mil toneladas; Minas Gerais, 73,5 mil; Santa Catarina, 52,7 mil; e Mato Grosso do Sul, 38,7 mil toneladas.

Em outras palavras, quase quatro de cada dez tilápias produzidas no Brasil saem do Paraná.

E justamente no estado líder nacional está o núcleo que ajudou a construir parte da base genética dessa expansão.

Do tanque brasileiro para o mercado internacional

A evolução também chegou às exportações.

Em 2025, as vendas externas da piscicultura brasileira alcançaram US$ 60 milhões, e a tilápia representou nada menos que 94% do pescado de cultivo exportado pelo país.

O Paraná respondeu por aproximadamente 50% das exportações brasileiras de tilápia, movimentando US$ 28 milhões. Os Estados Unidos continuaram sendo o principal destino da piscicultura nacional, absorvendo 87% das vendas externas, apesar das dificuldades tarifárias enfrentadas pelo setor.

O Ministério da Pesca e Aquicultura registra, considerando o conjunto mais amplo dos produtos pesqueiros brasileiros, US$ 432,93 milhões exportados em 2025.

Esse cenário aumenta a importância de características como rendimento industrial, uniformidade, velocidade de crescimento e eficiência alimentar — justamente algumas das características perseguidas pelos programas de melhoramento.

A próxima tilápia já está sendo selecionada

A 17ª geração não representa o ponto final do projeto.

O melhoramento genético funciona como uma corrida sem linha de chegada. A cada ciclo, novos indivíduos são avaliados e somente uma parcela deles transmite seus genes para a geração seguinte.

A próxima reprodução dirigida da Tilamax está prevista para o verão de 2026/2027.

Além do crescimento, pesquisadores da UEM também estudam outras características relevantes para o futuro da cadeia. Trabalhos recentes avaliaram, por exemplo, formas de reduzir a diferença de crescimento entre machos e fêmeas, buscando alternativas que futuramente possam diminuir a dependência da reversão sexual utilizada comercialmente na produção.

O que começou em 2005 com 600 tilápias vindas da Malásia transformou-se, portanto, em uma plataforma brasileira de genética animal com influência direta sobre uma cadeia que atualmente produz mais de 700 mil toneladas por ano.

E talvez esse seja o aspecto mais relevante dessa história para o produtor: a chamada “supertilápia” não é uma nova espécie nem resultado de uma alteração instantânea. É o resultado de selecionar, medir e reproduzir os melhores animais durante sucessivas gerações — exatamente o princípio que transformou outras grandes cadeias da produção animal brasileira.

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