Jason Smith, um produtor de leite no sudoeste do estado australiano de Victoria, perdeu sua terra alugada e precisou transferiu 350 vacas em lactação, junto a outros 200 animais e todo o maquinário para um novo terreno. A operação foi toda concluída sem interromper a rotina diária de ordenha.
O caso expõe uma disputa que vem pressionando quem trabalha arrendando terra: o mercado rural australiano está em alta e muitos donos de propriedades preferem explorar o próprio negócio ou vender para quem busca um sítio de lazer, em vez de manter arrendatários.
Boas condições climáticas na temporada, demanda forte e preço do leite em alta fizeram o setor voltar a ficar lucrativo e elevaram o valor da terra.
Uma mudança sem tempo a perder
A jornada como arrendador na região sul começou para Jason Smith há 11 anos, após deixar a região noroeste de Victoria depois que o custo da irrigação por lá inviabilizou seu negócio. Nessa nova propriedade, em Simpson, arrendou terra de um empresário do ramo corporativo que fazia sua primeira aplicação no setor agrícola.
Esse trabalho na fazenda contou com investimentos de sua parte na estrutura do local: Jason construiu um galpão para partos, reformou por completo a sala de ordenha e instalou uma passagem subterrânea para o deslocamento do gado. Mesmo depois de se beneficiar dessas melhorias, o proprietário optou por colocar um gerente para tocar a fazenda com seu próprio rebanho, encerrando de maneira repentina o acordo de arrendamento com Smith.
Buscar terra virou tarefa quase impossível
Com prazo de um ano para encontrar um novo lugar, Smith classificou a experiência, em entrevista ao portal australiano ABC, como difícil. Ainda assim, o arrendador conseguiu se realocar antes mesmo do fim do contrato.
Segundo ele, propriedades disponíveis ficaram raríssimas, disputadas por quem vem da cidade atrás de pequenos sítios de lazer. Smith citou o caso de uma fazenda leiteira que fechou as portas depois de ser vendida por mais de US$ 9.000 (R$ 44,9 mil) o acre. Para quem está começando na atividade, pagar esse total por acre tornaria o negócio inviável ao longo de toda uma vida de trabalho.
Risco de perder produtores jovens
Smith afirmou não ser o único nessa situação: há outros tentando permanecer em terras arrendadas ou localizar pastagens livres na região. Segundo ele, propriedades que antes eram destinadas à pecuária leiteira vêm sendo destinadas à criação de ovinos e bovinos de corte, uma mudança que, na avaliação dele, o setor leiteiro precisa enfrentar antes que o problema se agrave.
Dias de rotina pesada e pouco descanso
A movimentação completa da operação — que incluiu os 350 animais em lactação, os outros 200 animais, todo o maquinário e os pertences domésticos — aconteceu sem que as tarefas diárias da fazenda parassem. Smith seguiu ordenhando por 11 horas por dia enquanto conduzia partos e organizava o transporte.
As noites de sono foram o maior desafio nesse período. Smith relatou ao ABC que dormia cerca de três horas por noite durante esse período, já que o apoio de familiares, amigos ou mão de obra contratada ficou escasso em meio à pandemia.
Um mercado que pressiona quem fica
A experiência de Smith ilustra o impasse enfrentado por produtores sem terra própria: o mesmo bom momento do setor que valoriza o leite também encarece o acesso à terra, deixando quem aluga propriedades numa posição cada vez mais instável.
Por que o bom momento do setor piora a situação dos arrendatários
Quando a produção de leite fica mais lucrativa por causa de chuvas regulares, demanda forte e preços altos, o valor da terra agrícola também sobe. Isso beneficia quem é dono da propriedade, mas prejudica quem apenas a arrenda.
Com isso, o proprietário passa a enxergar mais vantagem em explorar o negócio sozinho ou vender a terra para alguém que pague mais. Essa dinâmica cria uma armadilha: o mesmo cenário que deveria ajudar produtores como Jason Smith — leite valendo mais e demanda crescente — acaba empurrando-o para fora da propriedade.













