O que a Dolly nos ensinou sobre clonagem na pecuária?

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Foto: Divulgação

A herança genética não está somente nos núcleos das células, e a interação dela com o meio ambiente é de importância enorme para a construção do indivíduo, e o que esse transmitirá para a progênie dele

José Otávio Lemos – A Dolly, ovelha, foi a primeira clone apresentada e festejada mundo afora. O estudo foi publicado em 1997, mas foi realizado ao longo de 1995 e 1996. Dolly nasceu em 05 de julho de 1996. O núcleo utilizado no processo de clonagem foi oriundo de uma célula da glândula mamária de uma ovelha de seis anos denominada Bellinda, da raça Finn Dorset. Uma outra ovelha, chamada Fluffy, da raça Scottish Blackface, foi a doadora do óvulo utilizado para receber este núcleo, Finalmente, uma terceira ovelha, Lassie, da raça Scottish Blackface foi quem gestou a Dolly. Vale lembrar que foram feitas 276 tentativas para ser obtido tal animal clonado.

O Parlamento Europeu aprovou por maioria em 08/09/2015, ou seja, 19 anos depois do nascimento da Dolly, a medida que proibiu clonagens de animais e restringiu o uso da técnica por lá. Países do bloco sem permissão para importação de clones e descendentes desses. Também alimentos produzidos a partir de tais ou das suas progênies. Tudo bem rígido.

Coloco isso aqui para dizer que a clonagem não trouxe benefícios lá pela Europa. Até muitas decepções. Inclusive velhice precoce, como aconteceu com a Dolly. Muitos problemas com os clonados. E, sinceramente, este escrevedor aqui, até hoje, não viu um ou uma clone que “chegasse perto” do animal “copiado”.

Certa vez, fui numa central produtora de sêmen e, lá, o diretor da mesma apresentou-me a “cópia” do Fajardo GB, um Grande Campeão Nacional Nelore, e que teve e tem progênie de boa qualidade. Olhei o bicho e exclamei: “É o Fajardo piorado!” Não foi por minha sentença, mas nunca mais tiveram outro clone lá dentro.

clone do touro nelore fajardo da jb
Clone do Fajardo da JB / Foto: Divulgação

Fui fazer uma visita a uma fazenda, a qual respeito muito, e, diante de mim, apresentada “a cópia” de uma Grande Campeã Nacional Nelore, a Divisa da Mata Velha. Olhei-a por diversos ângulos e disse ao colega que me acompanhava: “Ela não ficaria nem como Reservada Grande Campeã. No máximo, uma Menção Honrosa”.

E várias outras histórias com animais clonados já vivi. Ah! Na época, participei do Conselho Deliberativo Técnico da ABCZ que recusou o registro do clone do C.A. Sansão por causa do tal animal apresentar desvio de chanfro.

Clones da matriz Tabapuã Ribalta da Araguaia, seis, que vi de perto bem jovens, e até recentemente mostram diferenças entre elas nas aparências e performances avaliadas por programa de melhoramento genético.

Exemplos, muitos, de várias raças. Tanto zebuínas quanto taurinas.

Nisso, mais uma vez, também se comprova que a muito festejada Genômica não será uma carta aberta expondo certeza da transmissão de características para novas gerações. E avaliações dessa em programa de melhoramento oficial também mostraram o baixo índice de confiança.
Dois pequenos detalhes: DNA mitocondrial somente é herdado do lado materno, e RNA, que é anterior à existência do DNA e gerador desse na escala da evolução dos seres vivos (e forte, prova é a atual epidemia “coroada”) continua nas células nossas do dia a dia.

Todo o cuidado é pouco para não irmos para um abismo sem tamanho tocando os rebanhos nas pastagens ou confinados, pois até nisso a genética se comporta diferentemente na expressão de resultados. E quanto a isso, para fechar este texto, conto o que quase matou-me com infarto “técnico”. Um colega zootecnista que respeito muito “exaltando” uma prova de ganho de peso a pasto e dizendo que muita comida estava sendo colocada no cocho para os tantos animais participantes dela e vindos de várias regiões do Brasil. Que coisa, né!?

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Zootecnista José Otávio Lemos, produtor rural, jurado e conselheiro técnico da ABCZ e diretor da JOL Empresa Múltipla Assessoria e Consultoria.