Setor de máquinas rejeita retaliação aos EUA e cobra negociação para evitar perdas bilionárias

Tarifa de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros mobiliza indústria de máquinas, que pede solução diplomática, reforço ao crédito e medidas para preservar exportações e empregos.

A entrada em vigor da tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre uma série de produtos brasileiros acendeu um alerta entre os principais segmentos da indústria nacional. Um dos mais preocupados é o setor de máquinas e equipamentos, que teme perda de competitividade em seu principal mercado externo e decidiu defender uma estratégia diferente da adoção de medidas de reciprocidade.

Em reunião realizada nesta terça-feira (21), representantes da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) apresentaram ao vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, um conjunto de propostas voltadas para reduzir os impactos da nova política tarifária americana. Entre os pedidos estão ampliação das linhas de crédito, alívio tributário, fortalecimento das exportações e manutenção do diálogo diplomático entre os dois países.

Indústria descarta retaliação e aposta na diplomacia

Apesar da pressão provocada pela nova tarifa americana, a Abimaq afirmou que não considera a reciprocidade comercial o melhor caminho para enfrentar o impasse.

Segundo o presidente-executivo da entidade, José Velloso, a prioridade deve continuar sendo uma negociação diplomática e empresarial, evitando uma escalada nas tensões comerciais que possa prejudicar ainda mais as empresas brasileiras.

A avaliação é de que uma resposta baseada em novas tarifas poderia ampliar os prejuízos para a indústria nacional, enquanto um acordo negociado preservaria relações comerciais construídas ao longo de décadas.

Exportações para os EUA movimentam bilhões de dólares

O setor de máquinas e equipamentos é um dos mais dependentes do mercado norte-americano.

Antes da adoção da tarifa adicional, as exportações brasileiras do segmento para os Estados Unidos giravam em torno de US$ 4 bilhões, tornando o país um dos principais destinos da produção nacional.

Mesmo diante do primeiro ciclo de restrições comerciais, a indústria conseguiu ampliar suas exportações globais por meio da diversificação de mercados. A expectativa da Abimaq é que as vendas externas ultrapassem US$ 14,5 bilhões neste ano, resultado impulsionado pela abertura de novos destinos comerciais.

Pacote de propostas busca preservar competitividade

Durante o encontro com o governo federal, a entidade apresentou um conjunto de medidas dividido em duas frentes principais.

Na área tributária, o setor propõe:

  • retomada do programa Reintegra;
  • mecanismos de compensação de tributos indiretos acumulados nas exportações;
  • diferimento temporário de tributos federais, como IRPJ, CSLL, PIS, Cofins e contribuição previdenciária patronal;
  • prorrogação dos atos concessórios do drawback para empresas exportadoras.

Segundo a Abimaq, essas iniciativas ajudariam a aliviar o fluxo de caixa das empresas justamente no momento em que parte dos compradores americanos posterga pedidos e renegocia contratos.

Crédito mais barato também está entre as prioridades

Outro eixo apresentado ao governo envolve mudanças no programa Brasil Soberano, criado para apoiar empresas diante de choques econômicos.

Entre as sugestões estão:

  • flexibilização dos critérios de acesso ao programa;
  • ampliação do número de empresas beneficiadas;
  • revisão do período utilizado para enquadramento;
  • redução das taxas de juros;
  • isenção do IOF nas operações;
  • fortalecimento dos mecanismos de garantia e seguro de crédito.

De acordo com a entidade, os financiamentos atualmente disponíveis, com taxas entre 15% e 17% ao ano, ainda são considerados elevados para empresas que enfrentam perda de competitividade no mercado internacional.

Governo ouvirá outros setores afetados

A reunião com a Abimaq marcou o início de uma série de encontros promovidos pelo governo federal com segmentos impactados pela nova tarifa americana.

A expectativa é que, após ouvir representantes da indústria, do comércio e de outros setores exportadores, a equipe econômica consolide um pacote de medidas voltado à preservação da atividade econômica, da competitividade internacional e dos empregos.

Embora diversos produtos industriais tenham sido atingidos pela tarifa adicional, alguns itens relevantes do agronegócio brasileiro, como café, carne bovina, mel, laranja e suco de laranja, ficaram de fora da cobrança extra anunciada pelos Estados Unidos.

O que está em jogo

A discussão ultrapassa a questão tarifária. Para a indústria brasileira, o desafio passa por manter acesso aos mercados internacionais sem comprometer investimentos, geração de empregos e capacidade produtiva.

Ao defender negociação diplomática em vez de retaliação, o setor sinaliza que vê espaço para uma solução construída por meio do diálogo, ao mesmo tempo em que cobra do governo medidas emergenciais capazes de reduzir os impactos financeiros enquanto persistirem as barreiras comerciais.

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