Um olhar crítico sobre a raça GIR Leiteiro e seus desafios

Um olhar crítico sobre a raça GIR Leiteiro e seus desafios

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Foto: Patrícia Maciel

Pecuarista José Luiz Costa fala sobre os desafios da raça no Brasil; Por que usar touros jovens e as armadilhas do touro provado.

No passado tive a chance de conversar com o senhor Rubens Rezende Peres, titular da Fazenda Brasília, importante centro de seleção do Gir Leiteiro. Para mim, à época um jovem entusiasmado, foi uma excelente oportunidade de aprender como criar e selecionar essa raça, que é uma solução interessante para a produção de leite na faixa intertropical do planeta.

Seu Rubens Peres me confidenciou que reservava 30% das vacas para acasalamento com touros jovens, pois percebia que eram o futuro da raça. E quando um touro jovem atingia um número determinado de filhas, era colocado em um piquete isolado até que o desempenho da sua progênie pudesse ser avaliada. E então, se aprovado, passava a compor a bateria de touros da fazenda. Era de fato um teste de progênie particular, que certamente exigia uma quantidade grande de animais para ser efetivo.

Estávamos na década de 80, antes da divulgação do resultado do primeiro grupo do Teste de Progênie, que ocorreria somente em 1993. Havia muita desconfiança entre os trabalhos de seleção de Gir Leiteiro. Cada um tinha seus critérios de seleção, e praticava a seleção fechada, dentro do seu próprio rebanho. A incorporação de genes de outros rebanhos era apenas pontual. Não havia uma base ampla de informações sobre o desempenho leiteiro das vacas. Não se tinha o que hoje chamamos de touro provado nacionalmente.

Seu Rubens também fez uma previsão: que a nossa seleção, ora recentemente iniciada, teria mais facilidade para alcançar os objetivos almejados, pois se aproveitaria dos trabalhos dos pioneiros e poderia usar os touros provados que já estavam sendo aguardados pelo mercado. Não seria mais necessário fazer um teste de progênie particular, que levava muito tempo e exigia grande quantidade de animais.

Foto: Queiroz & Queiroz Pecuária

E essa previsão de fato se concretizou, não só no nosso rebanho, mas em todos os que trabalham com essa raça zebuína. O número de criadores aumentou, o desempenho leiteiro tem melhorado ao longo dos anos, temos grande troca de genes entre os rebanhos, por meio do teste de progênie, inseminação artificial, FIV, etc. Os criadores de Gir Leiteiro, em geral, passaram a usar intensamente os touros provados pelo Teste de Progênie. E isso foi extremamente salutar para a evolução da raça.

Mas essa mesma estratégia vencedora do passado, se usada de forma absoluta e radical, pode provocar e tem provocado alguns efeitos colaterais indesejados, reduzindo de forma rápida a variabilidade genética da raça e retardando o melhoramento genético.

Um touro leva cerca de 8 anos para ter a sua primeira avaliação pelo Teste de Progênie, pois é necessário aguardar o desempenho leiteiro de suas filhas. E o Gir é uma raça mais tardia, com o primeiro parto em geral ocorrendo aos 36 meses de vida. Se um criador adota a estratégia de apenas usar touros provados, desprezando os touros jovens, estará usando exclusivamente genética produzida a 8, 10, 15 anos atrás. E os produtos desses acasalamentos somente estarão aptos a produzir leite 3 anos mais tarde. Uma eternidade, se analisarmos o ritmo de evolução a que estamos acostumados em outros ramos de atividade. Quem em sã consciência vai comprar um carro novo com tecnologia de 10 ou 15 anos atrás?

E a situação pode ainda ser mais séria, pois alguns criadores, desconfiados dos resultados do Teste de Progênie, ainda aguardam mais dois ou três anos para que o resultado da prova de determinado touro se estabilize em algum patamar considerado relevante.

Os efeitos dessa abordagem no mercado de sêmen são evidentes. Touros antigos com sêmen extremamente valorizado. Alguns sendo clonados para postergar ainda mais a oferta de sêmen. Verdadeiro ostracismo dos touros jovens, com preços de sêmen muito baixos, pouca ou nenhuma participação de suas filhas nos Sumários avaliativos anuais. Há relatos de donos de touros em teste de progênie que, mesmo obrigados pelo Regulamento, não disponibilizam ventres (animais) para avaliação de outros touros do mesmo grupo. Em alguns casos, nem o sêmen do seu próprio touro em Teste é usado pelo criador. Deseja-se ter um touro provado, mas não se aceita investir no Teste de Progênie. Espera-se que a Abcgil e a Embrapa entreguem o touro provado.

Como o Teste demora muito para dar um resultado, muitas fazendas que colocaram touros deixaram de criar, mudaram de atividade, etc. Alguns touros já morreram, não tem sêmen disponível para comercialização, indicando infelizmente que houve um grande esforço e investimento que não resultará em benefícios para a raça.

Os efeitos na própria consistência do Teste também são desastrosos. Hoje há uma enorme dependência dos ventres Girolandos dos rebanhos colaboradores. O Teste simplesmente não existiria sem as vacas Girolandos. E aí surge um problema de ordem técnica. Há pesquisas indicando diferenças de avaliação de um touro a depender do padrão genético das vacas inseminadas com o sêmen dele. Em resumo, um touro avaliado como melhorador numa base Girolando não necessariamente será melhorador se usado num rebanho Gir puro. O Teste pode estar “andando meio de lado” por conta dessa limitação.

Percebem-se também efeitos na comercialização de animais, principalmente nos leilões em que são ofertados supostamente os melhores exemplares da raça. Desde muito tempo atrás costumo acompanhar os leilões televisionados. Meu objetivo não é fazer aquisições, mas estudar os pedigrees e aprender o que está dando certo com os grandes selecionadores. Mas nos últimos anos, pouca novidade aparece nesses leilões. Salvo algumas exceções honrosas, são sempre os filhos / netos / bisnetos dos mesmos touros e das mesmas vacas que aparecem para venda. Há comentários nos grupos de Whatsapp sobre a dificuldade de fazer acasalamentos pois não aparecem novos touros. O mercado apenas valoriza os filhos dos mesmos animais.

Em uma palestra proferida no Silvania Weekend alguns anos atrás, o pesquisador da Embrapa Marcus Vinicius, responsável pelo projeto Genoma da raça, comentou um possível equívoco dos criadores de Gir Leiteiro nos acasalamentos. Naquele momento, mesmo após a consolidação do touro CA Sansão como grande expoente da raça, os novos touros submetidos ao Teste ainda tinham como pai o CA Everest, seu antecessor. Em vez de partir do CA Sansão, já consolidado, e buscar novos patamares produtivos, os criadores estavam buscando fazer um novo CA Sansão, repetir a mesma fórmula.

Em recente conversa com um representante de laticínio, em que estávamos apresentando os resultados obtidos pela nossa seleção de Gir Leiteiro, tivemos que ouvir ele afirmar que não considerava ser possível produzir leite com o Gir Leiteiro, pois são sempre os mesmos touros há 10 ou 15 anos. Afirmação claramente equivocada, mas indicadora de como o mercado enxerga a seleção do Gir Leiteiro.

Esses fatos revelam um traço cultural mais ou menos difundido entre os criadores de Gir Leiteiro: um apego ao que está consolidado, um certo receio de usar o novo, uma dificuldade de aceitar correr riscos em prol do melhoramento genético. E também uma crença de que a raça Gir está posta. Não há possibilidade de evolução. O algo mais viria do acasalamento com o Holandes para fazer o F1.

E aí é que vem, depois de toda essa contextualização, o foco principal deste artigo. Se o seu Rubens Peres, mesmo desprovido de todas as informações disponíveis atualmente, considerava importante reservar 30 % das suas vacas para acasalamentos com touros jovens, porque nós não podemos reservar pelo menos esse patamar ou ainda mais para fazer essa avaliação e dar sequência ao melhoramento da raça ?

A utilização mais intensiva de touros jovens é hoje extremamente vantajosa pelos motivos citados abaixo:

  1. Os touros jovens do passado foram selecionados com base exclusivamente na boa produção da mãe e alguma informação sobre a capacidade do pai de transmitir leite. Os touros jovens de hoje já incorporam em seu pedigree vários touros provados e várias fêmeas aprovadas nos mais diversos plantéis submetidos a avaliações rotineiras.
  2. Os touros jovens de hoje são submetidos ao pré-teste, em que são avaliados nos quesitos de fertilidade, congelabilidade de sêmen, aprumos, pigmentação, temperamento, umbigo, precocidade.
  3. Os touros jovens de hoje são submetidos à avaliação genômica. Apenas aqueles com avaliação acima da média da raça é que se credenciam ao Teste de Progênie.
  4. O sêmen do teste de progênie deixou de ser codificado. Agora vem com a identificação correta do touro. Acabou aquele negócio de Certificado de Registro Genealógico contendo no campo PAI a informação “TP XXXX”, que prejudicava a comercialização e a valorização do produto.
  5. Os touros jovens facilitam os acasalamentos. Mesmo tendo em seu pedigree os grandes patriarcas da raça, o fato de terem mães diferentes ajuda a reduzir a endogamia. Isso ocorre porque a cada geração, com mães de origens diferentes, a endogamia se reduz em 50 %. Com isso é possível fazer milhares de combinações de acasalamentos diferentes.
  6. Touros jovens tem em geral mais disponibilidade de sêmen, com mais qualidade/fertilidade e preços na média mais baixos do que touros provados. Além disso, é possível receber gratuitamente as doses do teste de progênie de cada grupo de avaliação.

Claro que há sempre um certo risco em qualquer abordagem. Mesmo um touro avaliado pelos critérios acima pode dar resultado negativo em sua progênie. Mas os riscos são potencialmente menores. E também há risco em usar um touro provado que no ano seguinte tem o seu PTA reduzido. Também há risco em usar um touro bem provado, mas que por alguma infelicidade, gerou um descendente de baixa produção, em observância à distribuição normal da produção de seus filhos (Curva de Gauss), fenômeno totalmente previsto pela teoria de melhoramento genético. Como diz o ditado, genética não é matemática.

Para entender a vantagem dessa abordagem proposta, é necessário ter um olhar para toda a população ou pelo menos para todo o rebanho de cada criador. Não se deve fazer análise particularizada de um ou outro animal. Os ganhos na média serão elevadíssimos, o intervalo entre gerações será reduzido, haverá maior e mais rápida incorporação de genes leiteiros, será possível planejar uma enorme gama de acasalamentos diferentes.

Todo esse falatório seria apenas hipocrisia barata se não adotássemos essa abordagem em nossa seleção de Gir Leiteiro. Por isso vou dedicar os últimos parágrafos para descrever resumidamente a nossa estratégia de acasalamentos. A do passado e a que agora estamos adotando.

Sempre tivemos uma atitude favorável à utilização de touros jovens. Como o nosso rebanho foi produzido 100% na fazenda, através da utilização maciça de inseminação artificial, o uso de sêmen de touros jovens e mais baratos era economicamente vantajoso. Além disso, como a nossa seleção surgiu depois das demais, a partir de um longo processo de absorção do antigo gado da fazenda, era necessário tentar queimar etapas, chegar logo em patamares produtivos que os outros ainda não tinham chegado.

Dessa forma, podemos nos orgulhar de dizer que usamos os touros Modelo de Brasília, Teatro da Silvania, Dom da Silvania, Casper Kubera, Gengis Khan de Brasilia antes mesmo da divulgação de seus resultados no Teste de Progênie.

Particularmente em relação ao Gengis Khan já temos hoje netas e bisnetas em idade reprodutiva. Enquanto isso o mercado ainda busca sêmen desse touro para utilização imediata.

Com as recentes mudanças introduzidas pela ABCGIL na gestão de touros em teste (fim da codificação e uso da genômica), resolvemos adotar uma abordagem ainda mais radical. Em 2019, 98 % das inseminações realizadas usaram sêmen de touros em teste, principalmente dos grupos 33 e 34. Nas FIVs, o uso de sêmen de teste alcançou a marca de 40 % dos trabalhos realizados.

Temos plena confiança na seleção do Gir Leiteiro e nos bons resultados que virão no futuro. E acreditamos fortemente nessa nova estratégia adotada, balizada nas provas e avaliações que todo ano vão moldando a cara do Gir Leiteiro.

Desejamos aos amigos leitores e aficionados pela raça um feliz 2020 ! Que seja o ano do reerguimento da raça e sua consolidação como alternativa viável de produção de leite nos trópicos. Como dizia o slogan da Fazenda Brasília: O Gir Leiteiro é a solução !!!

*José Luiz Costa, Fazenda Gramado, Corumbá de Goiás – GO.

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