Preço do boi gaúcho sofre “tombo” – a culpa é de quem?

Preço do boi gaúcho sofre “tombo” – a culpa é de quem?

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Foto: Conexão Delta G

Mesmo com alta tecnologia, qualidade do gado, dedicação de produtores e seus colaboradores foi dado um “tombo” no preço do boi produzido no Rio Grande do Sul

Ricardo Giuliani – O preço do boi gordo em São Paulo está em torno de R$ 220 a arroba e o mercado futuro até novembro está girando nesse patamar, ou seja R$ 7,50 o equivalente ao quilo vivo aqui no Rio Grande do Sul. Em nossa opinião esse preço veio para ficar, pois o mercado de SP regula as demais regiões do País. Quando o seu valor desvaloriza em relação ao RS, como foi no final de maio e início de junho, propicia a entrada de carne de outros estados o que pode reduzir também o preço pago pelo nosso boi. Frente a essa situação, às vezes, é mais é mais vantajoso para o varejo gaúcho, representado pelos supermercados e casas de carnes, e até mesmo plantas frigoríficas, trazerem carcaças de outros estados. Essas práticas fazem parte do livre mercado, da livre concorrência, portanto, não vemos problemas nisso.

Contudo, a situação atual é outra, fora do RS o boi está mais caro, portanto, o que comentei acima não está ocorrendo, então, cabe a pergunta: O que aconteceu para o preço do gado gordo, em duas semanas, cair vertiginosamente e de forma antecipada, em plena entressafra neste ano?

Fêmeas Braford x Angus
Fêmeas Braford x Angus adaptadas para o RS e precoces, com carcaça pesada. Foto: Autor

Existem inúmeras variáveis que formam o preço do gado gordo, no entanto, são alicerçados em dois pilares que constituem uma lei irrevogável no mercado “OFERTA e DEMANDA”. A oferta, neste mercado é formada pelo PECUARISTA e somente ele tem a capacidade de entregar o boi aos frigoríficos, para que após o abate, a carne chegue até o varejo. Claro que existem pecuaristas em todo o mundo, e o varejo gaúcho pode importar carne de outros países, o que seria uma “piada”, pois o Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina. Em síntese, aqui no Rio Grande do Sul, no momento de boi mais caro em outros estados, nós, produtores gaúchos somos os únicos, exclusivos, pela formação da OFERTA.

Ocorre que recentemente, desceu para o RS carcaças do boi a R$ 14,50 e dianteiros a R$ 13,00 “ para dar uma agitada no mercado”, enquanto o mercado estava trabalhando dianteiro a R$ 14,50 e carcaça de boi R$ 16,50 a R$16,80. A consequência, foi dado um “tombo” no preço do boi produzido aqui, com alta tecnologia, qualidade do nosso gado, dedicação de produtores e seus colaboradores, tornando impraticável concorrer com esses valores e entregar “boi gordo” a nossa indústria frigorífica.

Seguindo a lei da oferta e DEMANDA, vamos analisar pelo lado da demanda de “gado gordo” , estabelecida à nós pecuaristas, pelo frigorífico.

Imaginemos que você é dono de um frigorífico que pagou ao pecuarista gaúcho R$ 16,00 pela carcaça do seu boi e o entrega no varejo a R$ 16,50. No momento de fechar a negociação, recebe do varejo esta notícia: “não vou receber as suas carcaças, pois estou recebendo carcaças de outros estados, em geral do Centro-Oeste, a R$ 14,50”.

Para você continuar no mercado, afinal não esperava essa “agitada antecipada” no mercado, interrompe as compras de boi no RS, por uma semana para se (re)organizar e conseguir saldar os seus compromissos com o pecuarista. Afinal, a compra geralmente é a prazo. Ato contínuo, o pecuarista, assustado com a paralisação da compra de uma semana e com a PRESSÃO da tabela de preços caindo dia-a-dia procura a indústria e começa OFERTAR o seu gado, que ainda não estava pronto (com peso e acabamento exigidos pelo mercado), não fazia parte da OFERTA NORMAL. Portanto, não é factível afirmar que tem oferta de gado gordo nesta época, obviamente conforme os padrões que a própria indústria frigorífica local estabelece.

Afinal, o pecuarista estabelece a sua forma de produzir, orientado pelo mercado. Assim, baseado em evidências e informações, é possível reiterar que ainda não têm gado gordo, conforme as regras normais de mercado, que atendam as qualidades que vêm desde o consumidor até o pecuarista, mas que também mantenham a saúde do seu negócio. Vale dizer que para entregar o boi gordo nesta época do ano, mais difícil, pois viemos de uma seca brutal, estamos no inverno, é necessário investimentos adicionais em alimentação do rebanho, modernas tecnologias e mão de obra especializada. Enfim, esse boi tem um custo de produção diferenciado e não podemos entrega-lo por qualquer preço, as vezes por manobras pouco recomendáveis dos agentes do mercado.

Como sugestão, se ficou na dúvida, entre em contato com um amigo pecuarista de outra região do estado e pergunte se ele tem gado gordo. Ligue na terça-feira. Pois, como muitos estão antecipando a venda desse gado que só estariam prontos em agosto, por receio de uma queda maior nos preços, naturalmente faltarão animais na escala de agosto. Cabe aqui uma nova indagação: qual será o valor R$ do boi na virada do mês?

O mercado irá responder, pois é soberano, queiramos ou não.

Arrisco a dizer qual não será: Não será R$ 16,00, que foi praticado em junho e não será R$ 14,00 como consta nas tabelas publicadas para conhecimento de todos, até estranho uma divulgação tão ampla, em 24/07/2020 pelos dois maiores frigoríficos do estado, Marfrig e Silva.

O mercado precisa oxigenar. As partes, os pacientes precisam respirar e uma não pode pressionar ou outro a ponto de “asfixiar”.

Respondendo a pergunta sugerida: A culpa é de quem? Vamos parar com esse ranço de colocar a culpa no outro pelos nossos erros, efeito manada.

Faça mea-culpa PECUARISTA. Você que está ofertando o seu gado antecipado e mal-acabado, seja pela pressão do seu fluxo de caixa, seja pela informação distorcida, busque esclarecimentos com quem pode lhe auxiliar antes de decidir.

Mesmo numa economia de livre mercado, as tentativas de intervenção do agentes sempre existirão. Se é ético com as outras indústrias e com o pecuarista, não cabe a nós julgar, mas uma cadeia de suprimento vital, que está lá dentro da porteira, faça chuva ou faça sol, sempre disposto a entregar o seu produto, sem qualquer autoridade sobre o preço na hora da venda, tem o discernimento de responder se isso é justo ou não. Aliás, pois o comprador do gado gordo chega e simplesmente lhe diz “estamos pagando X pelo teu gado”. Caro pecuarista, quem tem a chave da porteira e a decisão para quem vender não é o comprador, é você, que isoladamente, tem pouco poder, por essa razão, finalizo afirmando – Juntos somos mais fortes!

via Ricardo Giuliani do Negócio Direto

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